Em uma comuna quase vazia nos Alpes franceses, Josée Lecomte mantém rotina permanente em La Bâtie-des-Fonds, local marcado por deslizamento histórico, baixa população e ausência de serviços básicos no cotidiano local.
A francesa Josée Lecomte, de 77 anos, foi retratada pelo The Sunday Times como a única moradora permanente de La Bâtie-des-Fonds, uma pequena comuna no departamento de Drôme, no sudeste da França.
O vilarejo fica a cerca de 1.000 metros de altitude, em uma área de montanha próxima aos Alpes, e aparece em fontes públicas francesas como uma das comunas menos povoadas do país.
A história chama atenção porque La Bâtie-des-Fonds ainda mantém sinais de uma comuna comum, mesmo com ocupação mínima.
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Há placa de entrada, fonte municipal, prefeitura, prefeito eleito e registro administrativo próprio.
No cotidiano, porém, a presença permanente se resume a Lecomte, segundo a reportagem britânica publicada em dezembro de 2024.
A comuna já teve mais movimento.
Em 1936, um grande deslizamento destruiu parte importante do vilarejo e contribuiu para o esvaziamento da área.
Décadas depois, nos anos 1970, um pequeno grupo ligado à contracultura chegou ao local com propostas de vida alternativa e autossuficiência.
Com o tempo, os demais moradores partiram, e Lecomte permaneceu.
A vida no vale exige deslocamentos planejados.
Segundo o The Sunday Times, Lecomte sai de La Bâtie-des-Fonds uma vez por semana para fazer compras e buscar a neta.
Para atendimento médico, o serviço mais próximo citado pela reportagem fica em outra vila, a cerca de dez milhas, aproximadamente 16 quilômetros.
“Eu não estou isolada”, disse Lecomte ao jornal. “Bem, quero dizer, está tudo bem. Há vida ao redor. Não, não há problema. As crianças vêm, os netos vêm. Está tudo bem por enquanto.”
Menor comuna da França
O The Sunday Times informou que a localidade assumiu esse título porque Rochefourchat, outra comuna de Drôme que era conhecida por ter apenas uma moradora, passou a contar com novos residentes permanentes.
Nos dados oficiais, a situação aparece de forma um pouco diferente porque as estatísticas consideram critérios administrativos e anos de referência.
O Insee, instituto nacional de estatística da França, registrou quatro habitantes em La Bâtie-des-Fonds no recenseamento de 2022.
Já a base Banatic, ligada ao Ministério do Interior francês, informa população total em vigor em 2026 de seis habitantes, com referência estatística de 2023.
Essa diferença não invalida o relato sobre a presença cotidiana de Lecomte, mas mostra que “única moradora permanente” e “população administrativa” não são exatamente a mesma coisa.
Em comunas com casas de temporada, proprietários ausentes e registros formais, os números oficiais podem não refletir quem vive no local todos os dias.
O próprio The Sunday Times menciona que o prefeito de La Bâtie-des-Fonds é François Deloupy-Dobin, filho de Lecomte.
Segundo a reportagem, ele passa a maior parte do tempo em outro endereço e vai ao vilarejo às terças-feiras para tratar de assuntos municipais.
A base Banatic também identifica François Deloupy-Dobin como prefeito da comuna.
A existência de prefeito e conselho municipal mostra que, mesmo quase vazia, La Bâtie-des-Fonds continua integrada à estrutura administrativa francesa.

Deslizamento de 1936 em La Bâtie-des-Fonds
A história do esvaziamento da comuna passa pelo desastre de 1936.
Um artigo publicado naquele ano na Revue de Géographie Alpine descreveu o glissement de La Bâtie-des-Fonds, ou deslizamento de La Bâtie-des-Fonds, no Haut-Diois.
Segundo registros históricos reunidos em fontes francesas, o movimento de terra começou após um período de chuvas fortes no fim de 1935 e avançou no início de 1936.
A parte baixa do vilarejo foi afetada, casas ruíram, terrenos foram deformados e a estrada precisou ser reorganizada em outro traçado.
Não foram encontradas informações seguras sobre mortes associadas ao episódio.
Fontes locais indicam que não houve vítimas, mas o impacto material foi suficiente para alterar a configuração do vilarejo e contribuir para seu abandono.
O site turístico do Pays Diois apresenta La Bâtie-des-Fonds como uma comuna onde a vegetação voltou a ocupar antigas áreas construídas.
A página também cita o percurso das nascentes da Drôme, com passarelas sobre antigas fazendas desaparecidas e recursos de visitação que contam a história da nascente do rio.
Esse ponto ajuda a explicar por que a paisagem atual mistura sinais de presença humana e de abandono.
O vilarejo não desapareceu formalmente, mas parte do espaço construído deu lugar a ruínas, vegetação e memória do deslizamento.
Chegada nos anos 1970
Josée Lecomte chegou a La Bâtie-des-Fonds nos anos 1970, segundo o The Sunday Times.
Ela disse ao jornal que foi parar ali “por acaso”, vinda do sul da França.
Na época, a comuna recebeu um pequeno grupo de pessoas vindas de Paris e de outras regiões, interessadas em uma vida fora dos centros urbanos.
A reportagem britânica relata que o grupo buscava produzir parte do próprio combustível, incluindo metano gerado a partir de esterco.
Esse movimento reocupou temporariamente uma localidade que já passava por declínio populacional.
O The Sunday Times descreve o período como uma tentativa de vida comunitária alternativa, comum a certas experiências rurais europeias da década de 1970.
Com o passar das décadas, a experiência coletiva perdeu integrantes.
Os filhos de Lecomte cresceram e se mudaram, o marido morreu, e os demais moradores permanentes deixaram o vilarejo.
A permanência dela transformou a história pessoal em parte da história administrativa da comuna.
A própria Lecomte, porém, não descreve o lugar apenas como isolamento.
Em entrevista, ela disse que há filhos e netos por perto em determinados momentos e que não sente vergonha da condição de única habitante permanente.
Como funciona uma comuna quase vazia
Na França, a comuna é a menor unidade administrativa do país.
Ela pode ser uma grande cidade, como Paris, ou uma localidade com poucos habitantes, como La Bâtie-des-Fonds.
O sistema tem raízes históricas e permanece forte na administração francesa.
O The Sunday Times afirma que a França tem quase 35 mil comunas, muitas delas com menos de 500 habitantes.
Esse número elevado cria situações incomuns para leitores de outros países.
Uma comuna pode ter prefeitura, orçamento, prefeito e obrigações administrativas mesmo quando quase ninguém mora ali de forma permanente.
No caso de La Bâtie-des-Fonds, o prefeito é filho da única moradora permanente retratada pela reportagem britânica.
De acordo com o jornal, ele foi eleito após a saída do prefeito anterior, mas não vive diariamente no local.
François Deloupy-Dobin afirmou ao The Sunday Times que não reivindica o pagamento mensal a que teria direito pelo cargo.
Ele também disse que pequenas localidades poderiam desaparecer se moradores e representantes locais deixassem de manter a estrutura administrativa.
“Se nós desistirmos, as pessoas que sacrificam seu tempo, como eu, os pequenos lugares tranquilos vão desaparecer”, disse ele. “La Bâtie-des-Fonds será completamente abandonada. Nós somos realmente os últimos bastiões.”
Rotina sem serviços básicos
A rotina em La Bâtie-des-Fonds depende de serviços fora da comuna.
O Insee informa que, em 2024, a localidade não tinha supermercado, mercearia, padaria, posto de combustível, cabeleireiro, médico generalista, dentista, farmácia, escola, colégio, liceu ou biblioteca registrados na base permanente de equipamentos.
Esses dados ajudam a contextualizar a frequência das saídas de Lecomte.
Sem comércio local e com serviços médicos em outra vila, deslocamentos semanais fazem parte da vida no vale.
Segundo o The Sunday Times, para assuntos bancários, ela usa a agência postal mais próxima.
A reportagem também informa que o médico atende uma vez por semana em uma vila a cerca de 16 quilômetros, caso seja necessário.
Lecomte reconheceu ao jornal que viver ali pode ser complicado em caso de doença, mas afirmou estar bem.
“Se você está doente, não é ideal aqui. É melhor não estar. Mas eu estou bem. Não tenho muitas preocupações com isso”, disse.
A fala mostra o modo como ela apresenta a própria rotina.
Há limitações práticas, mas a moradora não descreve a vida no vilarejo apenas como abandono ou solidão.
Água, montanha e administração local
La Bâtie-des-Fonds fica em uma área associada às nascentes da Drôme.
O nome da comuna também remete às fontes, termo usado na região para pequenas nascentes.
Ao The Sunday Times, Lecomte fez referência direta à presença de água no local.
“Nós sempre temos água!”, afirmou, ouvindo o rio passar. “Não temos problema de água. Até agora, pelo menos.”
A disponibilidade hídrica não elimina outros desafios da vida na montanha, mas ajuda a diferenciar a comuna de outros lugares rurais afetados por falta de recursos básicos.
No caso de La Bâtie-des-Fonds, o isolamento está mais ligado à distância, à baixa ocupação e à ausência de serviços cotidianos.
A comuna também está em uma zona rural muito dispersa.
