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Bastaram dois dias de caminhada na selva da Nova Guiné para encontrar o avião que historiadores procuravam há 80 anos: o lendário Marge ainda tinha a pintura vermelha original e o rosto da mulher que deu nome ao caça mais temido da Segunda Guerra

Publicado em 10/04/2026 às 13:52
Atualizado em 10/04/2026 às 13:56
O avião Marge, o lendário P-38 Lightning da Segunda Guerra Mundial, foi encontrado na selva da Nova Guiné após 80 anos desaparecido.
O avião Marge, o lendário P-38 Lightning da Segunda Guerra Mundial, foi encontrado na selva da Nova Guiné após 80 anos desaparecido.
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O avião P-38 Lightning apelidado de Marge, pilotado pelo maior ás da aviação americana na Segunda Guerra Mundial, foi localizado na selva da Nova Guiné com a pintura vermelha original ainda visível uma descoberta que encerra oito décadas de buscas e resgata a memória de Richard Bong.

O avião apareceu como se o tempo tivesse decidido preservá-lo de propósito. Depois de apenas dois dias de caminhada pela selva densa da província de Madang, na Nova Guiné, uma equipe conjunta formada pelo Centro Histórico de Veteranos Richard I. Bong e pela organização Pacific Wrecks encontrou o que historiadores e veteranos procuravam desde 1944. O Marge, um Lockheed P-38 Lightning de número de série 42-103993, ainda conservava sua pintura vermelha característica e o retrato feminino no cone do nariz a imagem de Marjorie Ann Vattendahl, a mulher que deu nome ao caça mais temido do Pacífico.

A importância dessa descoberta ultrapassa em muito a localização de um avião perdido na selva. O Marge foi a máquina de guerra com a qual o Major Richard Bong acumulou 40 vitórias aéreas confirmadas contra aeronaves japonesas, o maior número já registrado por um piloto americano em toda a Segunda Guerra Mundial. Encontrar esse P-38 Lightning específico, oito décadas depois de seu desaparecimento, equivale a recuperar um capítulo inteiro da história militar dos Estados Unidos que se acreditava perdido para sempre.

O piloto que se tornou o maior ás da aviação americana

Aeronaves Richard Bong e Marge – © Centro Histórico de Veteranos Richard I. Bong

Richard Bong não seguia o roteiro que o Exército havia traçado para ele. Quando chegou ao teatro de operações do Pacífico durante a Segunda Guerra Mundial, sua função oficial era instrutor de artilharia um cargo que não exigia nem esperava que ele entrasse em combate.

Mesmo assim, Bong desobedeceu as expectativas e voou missão após missão a bordo de seu avião, acumulando um número de vitórias aéreas que nenhum outro piloto americano conseguiu igualar.

Suas 40 vitórias confirmadas lhe renderam o título de “Ás dos Áses” e uma condecoração que poucos militares recebem em vida: a Medalha de Honra, entregue pessoalmente pelo General Douglas MacArthur em dezembro de 1944.

O reconhecimento veio justamente porque Bong buscava o combate por iniciativa própria, perseguindo e abatendo aeronaves inimigas mesmo quando não era sua obrigação. O avião que ele pilotava em todas essas missões o Marge se tornou tão famoso quanto o próprio piloto. O P-38 Lightning com o rosto de Marjorie no nariz virou símbolo de uma era em que homens e máquinas eram inseparáveis.

O avião que carregava o nome de uma mulher e a alma de um piloto

Segundo informações do portal  Heritage Daily, o Marge não era apenas mais um avião de combate entre os milhares de P-38 Lightning produzidos pela Lockheed durante a Segunda Guerra Mundial. Para Richard Bong, aquele caça era um símbolo pessoal, batizado em homenagem à mulher que ele amava. Marjorie “Marge” Ann Vattendahl era a namorada de Bong, e seu retrato foi pintado no cone do nariz do avião uma prática comum entre pilotos da época, mas que neste caso transcendeu a tradição e virou lenda.

Cada vitória de Bong era também uma vitória do Marge. O avião acumulou marcas de combate, reparos e histórias que o transformaram em algo maior do que a soma de suas peças mecânicas. O P-38 Lightning era o caça bimotor mais versátil do arsenal americano no Pacífico, capaz de operar como interceptador, escolta de bombardeiros e plataforma de ataque ao solo. Nas mãos de Bong, o Marge se tornou a expressão máxima do que essa aeronave podia fazer. Quando o avião desapareceu na selva, levou consigo uma parte tangível da história que só reapareceria oito décadas depois.

A falha mecânica que mandou o Marge para a selva

A história do desaparecimento do Marge começa em 24 de março de 1944, quando o avião não estava sob o comando de Richard Bong. Naquele dia, o segundo-tenente Thomas E. Malone pilotava o P-38 Lightning em uma missão rotineira de reconhecimento meteorológico sobre a Nova Guiné. O que deveria ser um voo sem incidentes se transformou em emergência quando a hélice do avião não conseguiu entrar em posição de bandeira, seguida por uma falha elétrica que fez a aeronave entrar em giro incontrolável.

Malone conseguiu saltar de paraquedas e caiu em segurança ao sul de Madang. O Marge, no entanto, mergulhou na selva ao norte e desapareceu sob a vegetação tropical. Durante 80 anos, ninguém soube exatamente onde o avião havia caído. A selva da Nova Guiné é um dos ambientes mais hostis do planeta para buscas vegetação densa, terreno acidentado e acesso praticamente inexistente fizeram do Marge um fantasma da Segunda Guerra Mundial, presente nas listas de aeronaves desaparecidas, mas invisível no mundo real.

A morte prematura de Richard Bong aos 24 anos

O destino reservou uma ironia cruel a Richard Bong. Ele sobreviveu a dezenas de combates aéreos no Pacífico, abateu 40 aviões inimigos e voltou para casa como herói nacional. Mas morreu em solo americano, aos 24 anos, testando um avião que não era o Marge.

Em 6 de agosto de 1945 o mesmo dia em que a bomba atômica foi lançada sobre Hiroshima, Bong decolou da Califórnia a bordo de um Lockheed P-80A Shooting Star para um voo de aceitação.

Pouco depois da decolagem, uma falha na bomba de combustível forçou Bong a abandonar o avião. Ele saltou de paraquedas, mas a altitude era baixa demais para que o equipamento abrisse a tempo. O impacto com o solo foi fatal.

O maior ás da aviação americana morreu sem saber que seu avião mais famoso, o Marge, continuava intacto em algum lugar na selva da Nova Guiné, esperando para ser encontrado. A coincidência trágica dois P-38 e dois saltos de paraquedas, com desfechos opostos marcou para sempre a narrativa em torno de Bong e de sua lendária aeronave.

Dois dias de busca para resolver um mistério de oito décadas

A redescoberta do Marge em 2024 foi resultado de um esforço coordenado entre o Centro Histórico de Veteranos Richard I. Bong, localizado em Superior, Wisconsin, e a Pacific Wrecks, uma organização sem fins lucrativos dedicada a localizar militares desaparecidos em combate e seus equipamentos.

A equipe precisou de apenas dois dias de caminhada na selva da província de Madang para localizar os destroços do avião um prazo surpreendentemente curto para uma busca que havia frustrado gerações de pesquisadores.

O que encontraram superou as expectativas. Dois motores do P-38 Lightning ainda se projetavam acima do nível do solo. A pintura vermelha do Marge permanecia visível sob décadas de intempéries tropicais. E na ponta da asa, um estêncil do Exército americano trazia a inscrição “993” os três últimos dígitos do número de série do avião de Richard Bong.

Essa marcação foi a confirmação definitiva de que o Marge havia sido encontrado. Briana Fiandt, curadora de coleções do Centro Bong, resumiu o significado do momento: a descoberta honra não apenas a memória de Bong, mas a de todos que serviram durante a Segunda Guerra Mundial.

O que a descoberta do Marge significa para a história militar

Até 2024, o Centro Histórico de Veteranos Richard I. Bong exibia apenas uma réplica do famoso P-38 Lightning. O museu, que também abriga uma sala de projeção e acervos da Segunda Guerra Mundial, sempre dependeu de reproduções para contar a história do avião mais associado ao maior ás da aviação americana. Com a localização do Marge original, a instituição não precisa mais se contentar com uma cópia da aeronave mais icônica de seu patrono.

A recuperação do avião está sendo tratada como muito mais do que um evento arqueológico. Trata-se de um ato de memória nacional, um resgate concreto de um artefato que simboliza o sacrifício de uma geração inteira. Richard Bong foi introduzido postumamente no Hall da Fama da Aviação Nacional em 1986, e o Marge é a peça que faltava para completar esse legado.

Encontrar um avião na selva depois de 80 anos não é apenas uma proeza logística é a prova de que algumas histórias se recusam a desaparecer, mesmo quando a vegetação tropical tenta engoli-las.

A história de Richard Bong e do Marge ficou escondida na selva por 80 anos mas agora está de volta. Você conhecia esse episódio da Segunda Guerra Mundial? Acha que relíquias como essa deveriam ser resgatadas e expostas, ou preservadas no local onde caíram? Deixe sua opinião nos comentários.

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Maria Heloisa Barbosa Borges

Falo sobre construção, mineração, minas brasileiras, petróleo e grandes projetos ferroviários e de engenharia civil. Diariamente escrevo sobre curiosidades do mercado brasileiro.

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