A tecnologia desenvolvida pelo microbiologista Henk Jonkers na Universidade de Tecnologia de Delft mistura esporos de Bacillus pseudofirmus e cohnii ao próprio concreto para selar fissuras de forma autônoma, e já está em obras de pontes, túneis e muros de contenção na Holanda e no Reino Unido.
O Brasil ainda não tem nenhuma viga feita com concreto auto-cicatrizante de bactérias, a tecnologia que a holandesa Green Basilisk, spin-off da Universidade de Tecnologia de Delft, vende há quase uma década e que hoje conserta sozinha pontes, túneis e muros de contenção em obras na Holanda e no Reino Unido.

A receita saiu do laboratório do microbiologista Henk Jonkers, da TU Delft, no fim da década de 2000. Jonkers passou anos procurando uma bactéria que aguentasse viver dentro do concreto, um ambiente alcalino e seco que mata quase tudo.
Ele chegou em duas: a Bacillus pseudofirmus e a Bacillus cohnii. Ambas suportam pH alto e dormem décadas em estado de espora, enroladas em cápsulas de lactato de cálcio misturadas ao próprio concreto fresco.
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Em estado de espora, esses microorganismos aguentam compressão pesada, calor, falta de água e até gelo. Ficaram parados centenas de milhares de anos em rochas naturais antes de serem catalogados, e Jonkers apostou que continuariam parados dentro do cimento se ninguém os perturbasse.
Quando a estrutura desenvolve uma rachadura e a água da chuva começa a entrar, as bactérias acordam. Metabolizam o lactato, produzem calcário e fecham o vão por dentro, num processo parecido com a cicatrização de uma ferida.
É concreto que cicatriza ferida sozinho.
A vida útil delas dentro do concreto, segundo a Universidade de Tecnologia de Delft, chega a 200 anos. Quanto mais umidade infiltra, mais bactéria acorda e mais calcário aparece, num ciclo que se repete enquanto houver lactato disponível.
O custo extra desse cimento bacteriano não é grande. Um metro cúbico de concreto convencional sai por cerca de 80 euros na Europa. A mesma quantidade com a tecnologia da Green Basilisk fica entre 85 e 100 euros, um acréscimo de 5 a 20 euros por metro cúbico.
Esse é o preço da prevenção. A consultoria canadense Giatec Scientific estima que pontes, túneis e muros de contenção dentro da União Europeia geram, por ano, uma conta de manutenção entre 4 e 6 bilhões de euros.
A TU Delft diz que obras novas projetadas com bioconcreto exigem de 30% a 40% menos concreto armado. Menos aço, menos cimento, menos volume, e em consequência menos pegada de carbono na construção.
A Basilisk hoje fornece duas linhas, o concreto pronto com bactérias para obras novas e a argamassa de reparo bacteriana para estruturas já existentes que rachei. A empresa fechou contrato com a Conmix para distribuição nos Emirados Árabes Unidos em 2022 e segue crescendo em portfólio europeu desde então.

No Brasil, a cicatrização anda só com química
Por aqui, a história ficou parada na fronteira anterior. Quem persegue concreto que se conserta no país é Emilio Minoru Takagi, engenheiro civil e pesquisador do Departamento de Materiais do Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA), em São José dos Campos.
O grupo de Takagi trabalha com aditivos cristalinos, agentes químicos que reagem com a água que entra na fissura e formam cristais que selam o vão. Funciona, mas pega rachadura pequena e tem alcance limitado no tempo. Bactéria comercial, mesmo, ainda é horizonte.
A tecnologia química do ITA já chegou em obra brasileira. As lajes de fundo de três estações da Linha 4 do Metrô do Rio de Janeiro, a Praça Nossa Senhora da Paz, o Jardim de Alah e a Antero de Quental, receberam concreto autocicatrizante com aditivo cristalino antes da inauguração em 2016.
Era uma operação técnica difícil. As lajes ficam abaixo do nível do mar em várias dessas estações, e qualquer rachadura aberta no concreto traria infiltração de água salgada para dentro do túnel. O aditivo cristalino era o que cabia no estado da arte brasileiro à época.
Estudos da Associação Brasileira de Engenharia e Consultoria Estrutural, a ABECE, apontam que essa rota química aumenta a durabilidade da estrutura em até 47% e reduz em 2 milímetros a profundidade de carbonatação acelerada. Resultado bom para corrosão, mas longe do que a versão bacteriana entrega na Europa.
Dissertações da UFRGS e da Universidade Federal do Amazonas e o 1º Simpósio Brasileiro de Autocicatrização do Concreto mostram que o tema entrou no radar acadêmico nacional, ainda que sem nenhuma cepa comercial tipo Basilisk envolvida. O próprio Takagi reconhece que o país está apenas iniciando estudos com bactérias, sem obra-piloto definida.
Fico imaginando o que uma laje de bioconcreto economizaria em manutenção numa obra como a Ponte Rio-Niterói, que enfrenta corrosão por maresia desde os anos 1970. Ou nos viadutos paulistanos que rachei a cada inverno seco. Enquanto a Itália finalmente saiu do papel com a ponte do Estreito de Messina depois de décadas de debate, o cálculo brasileiro ainda não foi feito.
A diferença entre nós e a Holanda não está na ciência. Está na adoção. Lá, a TU Delft transformou pesquisa em spin-off, a Green Basilisk recebeu rodada de venture capital, a Conmix levou a marca pro Oriente Médio. Aqui, mesmo projeto destravado depois de cinco anos como a Ferrogrão chega ao final de 2026 ainda discutindo licenciamento, e a história do bioconcreto segue presa em dissertação de mestrado e relatório de simpósio.
Falta gente disposta a comprar o primeiro lote. Falta a primeira viga vazada com Bacillus do lado de cá do Atlântico.
Fontes: TU Delft, Giatec Scientific, Ingenia (Royal Academy UK), Portal 6.
Você toparia ver uma viga de bioconcreto bacteriano sendo testada numa ponte ou estação de metrô brasileira antes do fim de 2026?
