Com cerca de 28,8 mil quilômetros de malha concedida, o Brasil ainda depende fortemente das rodovias; para o engenheiro Fabrício Rossi, novos corredores ferroviários poderiam baratear o frete, ampliar a competitividade, atrair investimentos e impulsionar cadeias produtivas em diferentes regiões do país
A ampliação e a modernização das ferrovias estão entre as obras de infraestrutura capazes de transformar a logística brasileira. Com novos corredores, integração entre diferentes malhas e melhores acessos aos portos, o país poderia transportar grandes volumes de mercadorias com menor dependência dos caminhões em viagens de longa distância.
Dados da Agência Nacional de Transportes Terrestres, a ANTT, mostram que as concessões ferroviárias em operação somam 30.571 quilômetros, extensão que pode ser apresentada de forma arredondada como aproximadamente 30,6 mil quilômetros.
O número revela a dimensão do sistema ferroviário brasileiro, mas também expõe a necessidade de integrar melhor os trilhos e ampliar sua presença em regiões produtoras que ainda dependem fortemente das rodovias.
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Além de construir novas linhas, o próximo governo terá o desafio de recuperar trechos, eliminar gargalos, criar terminais intermodais e conectar as ferrovias aos portos, indústrias e centros de distribuição.
Essas obras poderiam melhorar o escoamento de minérios, grãos, combustíveis, produtos siderúrgicos, celulose, cimento e outras cargas movimentadas em grandes quantidades.
Brasil precisa ampliar os investimentos em infraestrutura
A expansão ferroviária faz parte de um desafio maior. O Brasil precisa realizar numerosas obras de infraestrutura para reduzir custos logísticos, aumentar a produtividade e melhorar a competitividade de seus produtos.
Ferrovias, rodovias, portos, hidrovias, aeroportos e terminais de carga precisam funcionar de maneira integrada. Sem essa conexão, os investimentos podem resultar em trechos isolados, filas, transbordos demorados e aumento dos custos de transporte.
O planejamento também precisa considerar as características econômicas de cada região. Áreas produtoras de grãos, minérios e combustíveis, por exemplo, necessitam de corredores capazes de transportar grandes volumes por longas distâncias.
China ultrapassou 50 mil quilômetros de alta velocidade
O crescimento ferroviário da China mostra como políticas contínuas podem mudar a infraestrutura de um país. Em dezembro de 2025, a rede chinesa de alta velocidade ultrapassou 50 mil quilômetros em operação, segundo informações divulgadas pela agência estatal Xinhua.
A expansão ocorreu apenas 17 anos depois da abertura da ferrovia intermunicipal entre Pequim e Tianjin, inaugurada em agosto de 2008 e considerada o ponto de partida da moderna rede chinesa de alta velocidade.
Os aproximadamente 30,6 mil quilômetros das concessões ferroviárias brasileiras são destinados principalmente ao transporte de cargas. Já os mais de 50 mil quilômetros chineses citados correspondem exclusivamente às linhas de alta velocidade, utilizadas sobretudo para o deslocamento de passageiros.
Portanto, os números representam sistemas com finalidades diferentes e não devem ser comparados como estruturas equivalentes.
Ainda assim, eles demonstram o impacto de investimentos planejados e mantidos durante décadas. Além da rede de alta velocidade, a China já possuía mais de 160 mil quilômetros de ferrovias em funcionamento ao final de 2024.
Mais trilhos podem reduzir a dependência das rodovias
A construção de corredores ferroviários permitiria transferir parte das cargas pesadas atualmente transportadas por caminhões. Uma composição ferroviária pode substituir dezenas ou até centenas de veículos, dependendo do número de vagões, do tipo de mercadoria e da capacidade utilizada.
Estudo do BNDES calcula que uma composição com cem vagões graneleiros pode substituir aproximadamente 357 caminhões, embora o resultado varie conforme a operação.
Isso não significa abandonar as rodovias. Os caminhões continuariam indispensáveis para os percursos regionais e para as etapas iniciais e finais das entregas.
A ferrovia assumiria principalmente os trajetos longos, formando um sistema integrado com estradas, hidrovias, portos e terminais de transbordo.
Essa divisão pode reduzir o consumo de combustível, os custos de manutenção dos veículos e o desgaste do pavimento. Também tende a diminuir a circulação de cargas pesadas em determinados corredores rodoviários, liberando capacidade para outros usuários.
Bitolas diferentes dificultam a integração nacional
Outro desafio é a existência de diferentes bitolas, nome dado à distância entre os dois trilhos. Segundo a ANTT, a malha ferroviária concedida brasileira utiliza três padrões principais: bitola métrica, larga e mista.
Quando ferrovias vizinhas utilizam medidas incompatíveis, os trens não conseguem circular livremente entre elas. A carga pode precisar ser transferida para outra composição ou utilizar estruturas adaptadas, elevando o tempo, a complexidade e o custo da operação.
Por isso, a expansão da malha precisa vir acompanhada de planejamento técnico, padronização nos novos projetos e soluções capazes de integrar as linhas existentes.
A prioridade deve ser conectar áreas produtoras, indústrias, centros consumidores e portos, evitando a construção de trechos isolados ou sem ligação eficiente com outros meios de transporte.
Obras ferroviárias movimentam diferentes indústrias
Os efeitos econômicos dos investimentos não ficariam limitados às concessionárias e às operadoras de trens. A construção de uma ferrovia demanda aço, cimento, concreto, brita, equipamentos, máquinas pesadas, sistemas elétricos, sinalização, tecnologia e serviços de engenharia.
As obras também criam oportunidades para empresas de transporte, alimentação, hospedagem, manutenção e fornecimento de materiais.
Dessa forma, contratos e empregos podem alcançar diferentes municípios, inclusive aqueles localizados fora dos grandes centros econômicos.
Depois da conclusão, os corredores continuam gerando demanda por manutenção, operação, segurança e serviços logísticos. Ao reduzir os custos de transporte, também podem tornar os produtos brasileiros mais competitivos nos mercados interno e externo.
A ampliação da infraestrutura ferroviária também pode estimular a instalação de indústrias e centros de distribuição próximos aos novos corredores, criando polos de desenvolvimento em regiões hoje distantes das principais rotas logísticas.
Brasil investe pouco mais de 2% do PIB em infraestrutura
Estudo da Confederação Nacional da Indústria apontou que o Brasil investiu R$ 266,8 bilhões em infraestrutura em 2024, valor equivalente a 2,27% do Produto Interno Bruto.
O montante também pode ser apresentado de forma arredondada como aproximadamente R$ 270 bilhões. Mais de 70% dos recursos tiveram origem na iniciativa privada.
Para 2025, a estimativa era de R$ 277,9 bilhões, correspondentes a 2,21% do PIB, com o setor privado respondendo por 72,2% dos investimentos.
A CNI avalia que o país precisaria aproximar esse patamar de 4% do PIB para reduzir gargalos e avançar na modernização da infraestrutura.
Nesse cenário, concessões, autorizações e parcerias podem ter papel decisivo, mas precisam ser acompanhadas por planejamento público, segurança jurídica e continuidade entre diferentes governos.
Expandir as ferrovias é um projeto de longo prazo. Seus resultados dependem de obras capazes de sobreviver às mudanças políticas e administrativas, evitando paralisações, atrasos e desperdício de recursos.
Mais do que aumentar a quantidade de trilhos, o desafio é construir uma rede integrada, eficiente e conectada às necessidades produtivas do país.
Esse avanço poderia diminuir custos, aliviar rodovias, estimular diferentes setores industriais e criar condições para um crescimento econômico mais competitivo.
Fontes que comprovam os dados
- Malha ferroviária brasileira com aproximadamente 30,6 mil quilômetros e três tipos de bitola
A ANTT informa que as concessões ferroviárias em operação somam 30.571 quilômetros e utilizam bitolas métrica, larga e mista.
Link: https://www.gov.br/antt/pt-br/assuntos/informacoes-estrategicas/antt_em_numeros_v_29_04_2025_v_sei_v_o_2.pdf - Diferenças de bitola dificultam a integração
Estudo da Enap explica que bitolas incompatíveis podem exigir transbordo de cargas, adaptação de vagões ou trilhos mistos, aumentando a complexidade operacional.
Link: https://repositorio.enap.gov.br/bitstream/1/4179/1/Maur%C3%ADcio%20Ferreira%20Wanderley.pdf - Transbordos e esperas elevam o tempo e o custo logístico
O Plano Nacional de Logística considera deslocamentos, espera em terminais e transferências entre modais no cálculo dos custos de transporte.
Link: https://www.gov.br/transportes/pt-br/assuntos/PIT/politica-e-planejamento/publicacoes/pnl2025.pdf - Um trem pode substituir centenas de caminhões
Estudo do BNDES calcula que uma composição com cem vagões graneleiros pode substituir cerca de 357 caminhões, dependendo da carga e da capacidade utilizada.
Link: https://web.bndes.gov.br/bib/jspui/bitstream/1408/3021/2/Transporte%20sobre%20trilhos%20no%20Brasil.pdf - Ferrovias são eficientes para grandes volumes e longas distâncias
O Ipea aponta que o transporte ferroviário consome menos combustível por tonelada transportada e se torna mais competitivo em operações de grande escala.
Link: https://repositorio.ipea.gov.br/bitstreams/5f3c3e6a-3e0b-4f2d-aedf-306a05a06020/download - Caminhões continuam importantes na primeira e na última etapa
Estudos do Ministério dos Transportes defendem a integração entre rodovias, ferrovias, hidrovias, portos e terminais de transbordo.
Link: https://www.gov.br/transportes/pt-br/centrais-de-conteudo/relatorio_corredores_logisticos_cana-de-acucar_v_1-0.pdf - Principais cargas transportadas por ferrovias
A Infra S.A. lista minério de ferro, grãos, combustíveis, produtos siderúrgicos, celulose, carvão, cimento e contêineres entre as principais cargas ferroviárias.
Link: https://ontl.infrasa.gov.br/wp-content/uploads/2025/12/PANORAMA-DO-SISTEMA-FERROVIARIO-BRASILEIRO-14.12.25_.pdf - China ultrapassou 50 mil quilômetros de ferrovias de alta velocidade
A Xinhua informou que a rede chinesa de alta velocidade superou 50 mil quilômetros em dezembro de 2025.
Link: https://english.news.cn/20251226/558786c99de5428b98a84c3ff93300e3/c.html - Linha Pequim–Tianjin marcou o início da expansão moderna
A primeira linha chinesa do sistema moderno de alta velocidade entrou em operação em 1º de agosto de 2008.
Link: https://english.news.cn/20251226/558786c99de5428b98a84c3ff93300e3/c.html - China já possuía mais de 160 mil quilômetros de ferrovias em 2024
O governo chinês informou que a malha ferroviária total do país ultrapassou 160 mil quilômetros em 2024.
Link: https://english.www.gov.cn/news/202412/25/content_WS676b4143c6d0868f4e8ee40b.html - Investimentos brasileiros em infraestrutura
A CNI informa que o Brasil investiu R$ 266,8 bilhões em infraestrutura em 2024, equivalentes a 2,27% do PIB.
Link: https://noticias.portaldaindustria.com.br/noticias/infraestrutura/72-dos-investimentos-em-infraestrutura-em-2025-serao-da-iniciativa-privada-diz-estudo-da-cni/ - Projeção para 2025
A estimativa era de R$ 277,9 bilhões, equivalentes a 2,21% do PIB, com 72,2% dos investimentos vindos da iniciativa privada.
Link: https://agenciabrasil.ebc.com.br/economia/noticia/2025-06/cni-estima-que-investimento-em-infraestrutura-vai-crescer-42-em-2025
