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Água quente avança rumo à Antártida, assusta cientistas e pode acelerar o derretimento por baixo das plataformas de gelo que seguram geleiras gigantes no continente congelado

Escrito por Fabio Lucas Carvalho
Publicado em 08/05/2026 às 18:53
Atualizado em 08/05/2026 às 18:57
Água quente avança rumo à Antártida e preocupa cientistas pelo risco às plataformas de gelo e à circulação oceânica global.
Água quente avança rumo à Antártida e preocupa cientistas pelo risco às plataformas de gelo e à circulação oceânica global.
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Água excepcionalmente quente avança pelas profundezas do oceano em direção à Antártida, ampliando o alerta de cientistas sobre o derretimento das plataformas de gelo, a estabilidade das geleiras, os riscos ao nível do mar e possíveis mudanças na circulação oceânica global

Água excepcionalmente quente avançando em direção à Antártida preocupa cientistas e amplia o alerta sobre a estabilidade das plataformas de gelo, a circulação oceânica global e os impactos potenciais sobre o nível do mar. Uma análise de longo prazo identificou que o calor armazenado nas profundezas do oceano está se deslocando para mais perto do continente.

Água quente avança em direção à Antártida

A pesquisa foi liderada pela Universidade de Cambridge, em colaboração com a Universidade da Califórnia, e publicada na revista Communications Earth & Environment. O trabalho reuniu décadas de medições oceânicas feitas por navios de pesquisa e flutuadores robóticos, permitindo acompanhar mudanças que antes não estavam claras nos dados disponíveis.

A equipe identificou que uma massa de água quente conhecida como água profunda circumpolar se expandiu e se deslocou em direção à plataforma continental da Antártida nos últimos 20 anos. Esse avanço aumenta a preocupação porque esse tipo de água pode chegar às áreas inferiores das plataformas de gelo e intensificar o derretimento por baixo.

Joshua Lanham, autor principal do estudo e pesquisador do Departamento de Ciências da Terra de Cambridge, afirmou que o cenário é preocupante justamente pelo risco de desestabilização das plataformas de gelo. Até então, os cientistas não tinham observações consistentes suficientes para confirmar essa tendência de aquecimento nas profundezas do Oceano Antártico.

O estudo representa a primeira evidência clara de deslocamento de calor das profundezas oceânicas através do Oceano Antártico. A tendência já havia sido prevista por modelos climáticos relacionados ao aquecimento global, mas ainda não tinha sido observada diretamente nos dados analisados.

Plataformas de gelo da Antártida funcionam como barreiras naturais

As plataformas de gelo da Antártida têm papel importante porque atuam como barreiras que retardam o fluxo de geleiras e calotas polares em direção ao oceano. Quando essas estruturas perdem estabilidade, o gelo continental pode avançar com mais facilidade para o mar.

Essas reservas de gelo, juntas, contêm água doce suficiente para elevar o nível global do mar em cerca de 58 metros. Esse volume mostra por que mudanças na estabilidade das plataformas de gelo são acompanhadas com atenção por pesquisadores que estudam o clima e os oceanos.

O risco apontado no estudo está relacionado ao derretimento causado por baixo, quando a água quente alcança a base dessas plataformas. Esse processo pode enfraquecer estruturas que, na superfície, funcionam como uma contenção natural para o gelo que vem do interior do continente.

A aproximação da água profunda circumpolar também indica uma alteração na distribuição do calor ao redor da Antártida. Essa mudança não envolve apenas o gelo local, mas também os mecanismos que ajudam a regular a circulação oceânica em escala global.

Dados de navios e flutuadores ajudaram a preencher lacunas

Historicamente, as observações no Oceano Antártico dependiam de levantamentos feitos por navios de pesquisa aproximadamente a cada dez anos. Esses levantamentos registravam informações detalhadas sobre temperatura, salinidade e nutrientes, mas as longas lacunas entre uma medição e outra dificultavam o acompanhamento de mudanças de longo prazo.

Para ampliar a cobertura, os pesquisadores incorporaram dados da rede global de flutuadores autônomos Argo. Esses equipamentos robóticos flutuam na camada superior do oceano e coletam medições contínuas, oferecendo registros mais frequentes do que os levantamentos tradicionais feitos por navios.

Apesar da vantagem na frequência, os flutuadores Argo não estão em operação há tanto tempo quanto os navios usados em seções hidrográficas detalhadas. Por isso, os dois tipos de informação foram combinados para construir uma visão mais completa da evolução oceânica.

A equipe utilizou aprendizado de máquina para unir os dados dos flutuadores com as observações de longo prazo feitas por navios. O resultado foi um registro mensal detalhado que cobre os últimos 40 anos e revela o movimento gradual da água quente em direção à Antártida.

A professora Sarah Purkey, do Instituto Scripps de Oceanografia e uma das autoras principais do estudo, afirmou que as calotas polares eram protegidas por uma camada de água fria. Agora, a circulação oceânica parece ter mudado, permitindo que a água mais quente avance em direção a essas áreas.

Purkey também destacou que a expansão dessa água quente já era esperada, porque mais de 90% do excesso de calor associado ao aquecimento global fica armazenado no oceano. O Oceano Antártico absorve uma grande parte desse calor, o que reforça a importância da região no equilíbrio climático.

Mudança pode afetar circulação global, carbono e nutrientes

As implicações da mudança na distribuição do calor vão além da Antártida. O professor Ali Mashayek, de Cambridge, afirmou que o Oceano Antártico tem papel fundamental na regulação do calor global e no armazenamento de carbono.

Alterações nessa região podem influenciar a forma como calor, carbono e nutrientes circulam pelo oceano global. A redistribuição do calor nas profundezas, portanto, não representa apenas uma ameaça local às plataformas de gelo, mas também um sinal de mudanças no sistema climático.

Nas regiões polares, a água densa e congelada afunda até as profundezas do oceano. Esse movimento ajuda a impulsionar um sistema de circulação global frequentemente descrito como uma esteira rolante, responsável por transportar massas de água pelo planeta.

Esse sistema inclui a Circulação Meridional de Revolvimento do Atlântico, conhecida pela sigla AMOC. Ela movimenta água através do Oceano Atlântico e faz parte da dinâmica global que conecta regiões polares, oceanos profundos e padrões de transporte de calor.

Os modelos climáticos utilizados pelo IPCC sugerem que o aumento das temperaturas do ar e o acréscimo de água doce proveniente do derretimento do gelo estão reduzindo a formação de água densa no Atlântico Norte. Esse processo pode enfraquecer a AMOC.

Padrões semelhantes são esperados no Oceano Antártico. Os modelos indicavam que menos água fria e densa se formaria perto da Antártida, permitindo que a água profunda circumpolar, mais quente, avançasse e ocupasse esse espaço.

Lanham afirmou que esse cenário já aparece nas observações. Para o pesquisador, não se trata apenas de uma possibilidade futura sugerida por modelos climáticos, mas de um processo em andamento com impactos sobre a circulação de carbono, nutrientes e calor pelo oceano global.

A Antártida, portanto, aparece no centro de uma mudança observada nas profundezas oceânicas. A aproximação de águas excepcionalmente quentes reforça o alerta sobre plataformas de gelo, nível do mar e equilíbrio climático em uma região decisiva para a circulação global.

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Fabio Lucas Carvalho

Jornalista especializado em uma ampla variedade de temas, como carros, tecnologia, política, indústria naval, geopolítica, energia renovável e economia. Atuo desde 2015 com publicações de destaque em grandes portais de notícias. Minha formação em Gestão em Tecnologia da Informação pela Faculdade de Petrolina (Facape) agrega uma perspectiva técnica única às minhas análises e reportagens. Com mais de 10 mil artigos publicados em veículos de renome, busco sempre trazer informações detalhadas e percepções relevantes para o leitor.

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