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Investiram US$ 12 bilhões em data centers de IA no semidesértico estado mexicano, mas 17 dos 18 municípios secaram e moradores agora recebem água só 3 dias por semana

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Escrito por Maria Heloisa Barbosa Borges Publicado em 23/06/2026 às 23:51 Atualizado em 23/06/2026 às 23:53
Assista o vídeoUS$ 12 bilhões em data centers de inteligência artificial secam Querétaro: o consumo de água agravou o estresse hídrico e moradores têm água 3 dias por semana.
US$ 12 bilhões em data centers de inteligência artificial secam Querétaro: o consumo de água agravou o estresse hídrico e moradores têm água 3 dias por semana.
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No estado semidesértico de Querétaro, no centro do México, gigantes como Microsoft, Google e Amazon fizeram da região um polo de data centers desde 2022. Enquanto a inteligência artificial avança, comunidades vizinhas convivem com o estresse hídrico e recebem água apenas três dias por semana, segundo investigação da Context.

Tem um novo símbolo da sede do mundo moderno, e ele não é uma plantação nem uma fábrica. São galpões cheios de servidores que sustentam a inteligência artificial, os chamados data centers, que precisam de rios de água para não superaquecer. No estado mexicano de Querétaro, terra semidesértica que vive em alerta de seca, esses prédios se multiplicaram a ponto de a região ganhar o apelido de vale dos data centers. O problema é que, enquanto o dinheiro jorra, a água some das torneiras. A apuração é da Context, ligada à Thomson Reuters Foundation.

O contraste é brutal. De um lado, US$ 12 bilhões em investimento estrangeiro desde 2022, vindos de empresas como Microsoft, Google e Amazon. Do outro, famílias que abrem a torneira e não veem nada sair. Em comunidades vizinhas aos data centers, moradores relatam receber água só três dias por semana, e alguns passam semanas sem abastecimento. É a versão em litros de uma pergunta incômoda: a quem pertence a água quando a inteligência artificial chega para ficar?

O vale dos data centers num estado que seca

Imagem aérea de um dos centros de dados da Microsoft localizado no município de Colón, em Querétaro, México, em 17 de junho de 2024. Thomson Reuters Foundation/Miguel Tovar
Imagem aérea de um dos centros de dados da Microsoft localizado no município de Colón, em Querétaro, México, em 17 de junho de 2024. Thomson Reuters Foundation/Miguel Tovar

Querétaro virou o queridinho das gigantes de tecnologia. O próprio governo estadual trata isso como conquista. “Querétaro está se tornando o vale dos data centers”, resumiu Marco del Prete, secretário de Desenvolvimento Sustentável do estado, em fala que vira propaganda de atração de investimento. A lógica é clássica: emprego, modernização e a promessa de colocar a região no mapa global da inteligência artificial.

Os números do boom impressionam, ainda que variem conforme a fonte. As contagens vão de cerca de uma dúzia de data centers já em operação a dezenas em construção ou anunciados, dependendo de quem mede e quando. O que ninguém contesta é a direção: o ritmo de chegada desses empreendimentos só acelera, e Querétaro lidera essa corrida no México.

O detalhe que costuma escapar é onde tudo isso acontece. Querétaro é um estado semidesértico, historicamente sujeito à seca. Instalar uma indústria sedenta como a dos data centers, que dependem de água para resfriar máquinas que funcionam 24 horas por dia, num lugar que já sofre para abastecer a população, é a contradição que move toda a história. A inteligência artificial chegou, mas a água que ela exige não brota do nada.

17 dos 18 municípios em seca

Uma fonte permanece quase vazia, exceto por um fio de água que sai de uma torneira e que serve de bebedouro para pássaros, em Querétaro, México. Fotografia: Alejandra Rajal/The Guardian.
Uma fonte permanece quase vazia, exceto por um fio de água que sai de uma torneira e que serve de bebedouro para pássaros, em Querétaro, México. Fotografia: Alejandra Rajal/The Guardian.

A dimensão da crise hídrica não é exagero de ativista, está nos dados oficiais. Segundo o Monitor de Sequía da Conagua, a comissão nacional de água do México, 17 dos 18 municípios de Querétaro enfrentam algum grau de seca. Em picos recentes, entre fevereiro e março, os 18 municípios chegaram a ser classificados nos níveis de seca extrema e excepcional, os mais graves da escala. O estresse hídrico ali é estrutural, não um azar passageiro.

O alerta, aliás, é antigo. Já em 2015, a própria Conagua havia apontado que os aquíferos da área estavam em déficit e recomendou não conceder mais licenças de uso de água. A recomendação ficou no papel. Desde então, as empresas não pararam de chegar, e a pressão sobre o lençol freático só cresceu, agravando o estresse hídrico de quem mora na região.

É esse o pano de fundo que torna o avanço dos data centers tão polêmico em Querétaro. Não se trata de uma região com água sobrando que poderia compartilhar um pouco. É um território onde cada gota já é disputada, e onde a chegada de um consumidor industrial gigante muda a conta para todo mundo.

Água só 3 dias por semana

Um reservatório de água é esvaziado no centro de Querétaro, México. Fotografia: Alejandra Rajal/The Guardian
Um reservatório de água é esvaziado no centro de Querétaro, México. Fotografia: Alejandra Rajal/The Guardian

Para quem vive ali, a crise tem cara, nome e rotina. Em comunidades próximas aos data centers, o abastecimento virou loteria. Há relatos de famílias que recebem água apenas três dias por semana, e situações piores ainda, de gente que fica oito, quinze dias ou até um mês inteiro sem uma gota chegar pela rede. A agricultura, que sustentava muita gente, definhou junto.

As histórias colhidas pela reportagem da Context dão o tom do drama. Em comunidades do município de Colón, moradores contaram que a água chega de forma cada vez mais espaçada, obrigando famílias a se virar como podem. O líder do movimento Antorchista no estado, Jerónimo Gurrola, descreveu cenas de gente desesperada atrás do básico. “As empresas usam volumes enormes de água, milhões de litros, para produzir seus produtos”, afirmou, enquanto moradores, segundo ele, são obrigados a caminhar horas entre os morros em busca de pequenas nascentes.

O abismo entre os dois mundos é o que mais revolta. Enquanto se diz à população que não há água e que os cortes vão continuar, o governo segue convidando empresas que precisam de muita água para operar. A conta do estresse hídrico, na prática, recai sobre quem tem menos, e o consumo de água dos novos vizinhos industriais aparece como o fiel da balança.

Quanta água um data center realmente bebe

Aqui mora a parte mais difícil de medir, e isso não é por acaso. O consumo de água dos data centers é cercado de opacidade. Estimativas do setor indicam que um data center de 1 megawatt pode consumir cerca de 25 milhões de litros de água por ano quando usa sistema de refrigeração convencional. Multiplique isso pela quantidade de unidades que Querétaro abriga e o tamanho do problema fica claro.

Os casos concretos reforçam a preocupação. Segundo a Context, uma das unidades da Microsoft em Colón chegaria a consumir o equivalente a quase um quarto de toda a água destinada ao uso público e urbano daquele município. O problema, denunciam pesquisadores, é que esses números raramente são divulgados de forma transparente. “Há evidências concretas que ainda não foram quantificadas, mas esse é justamente o objetivo da opacidade, impedir que a gente saiba”, criticou Paola Ricaurte, pesquisadora do Tecnológico de Monterrey, em apuração reproduzida pela La Jornada.

Parte da névoa é proposital, segundo os críticos. Muitos data centers se registram como indústrias de serviço, categoria que enfrenta regras ambientais mais brandas, e não como o que de fato são, instalações que geram muito calor e demandam muito consumo de água. Sem transparência, fica difícil até para o poder público dimensionar o impacto da inteligência artificial sobre o lençol freático.

“Não é seca, é saque”: a resistência e as ameaças

No meio dessa disputa, surgiram vozes que não aceitam o discurso oficial. Grupos de moradores e ativistas saíram às ruas com uma frase que virou símbolo do movimento: “Não é seca, é saque”, no original em espanhol “No es sequía, es saqueo”. A ideia por trás do cartaz é direta: a falta de água, dizem eles, não é só fruto do clima, mas de uma escolha sobre quem tem prioridade no uso do recurso.

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Uma das figuras centrais dessa resistência é Teresa Roldán, integrante do grupo Voceras de la Madre Tierra. Ela cobra transparência e questiona a prioridade dada aos data centers num estado sedento. “Se não há água para a população, muito menos haverá água para as empresas”, afirmou. Em outra fala, foi além: “Enfrentamos uma grave seca em Querétaro, é uma das primeiras cidades que devem ficar sem água.” O grupo dela chegou a protocolar pedidos de acesso à informação para saber quanta água vai para os data centers, sem obter resposta.

O ativismo, porém, cobrou um preço alto. Teresa Roldán passou a sofrer ameaças de morte e assédio on-line por causa da sua atuação contra os data centers. O caso expõe um lado sombrio do conflito: quando dinheiro e água entram em rota de colisão, quem denuncia vira alvo. Mesmo assim, a pressão dos moradores segue, mirando justamente a opacidade sobre o consumo de água das empresas.

O alerta que chega ao Brasil

O drama de Querétaro não é distante, é um espelho do que o Brasil começa a viver. Em fevereiro de 2026, a Câmara dos Deputados aprovou o Redata, o regime especial de incentivos para data centers, que oferece desoneração de impostos para atrair esses investimentos ao país. A promessa é transformar o Brasil num polo da inteligência artificial, com a mesma lógica de geração de empregos e modernização que seduziu o México.

A diferença é que o Brasil tenta aprender com o erro dos outros. O texto do Redata condiciona os benefícios ao uso de energia 100% limpa ou renovável e exige índices de eficiência no consumo de água para resfriamento dos equipamentos. A intenção é evitar que a corrida dos data centers repita aqui o estresse hídrico mexicano. O risco existe, e é concreto, já que parte dos novos projetos mira regiões como as bacias do Alto-Tietê e do PCJ, entre as mais pressionadas do país em recursos hídricos.

Por isso a história de Querétaro importa tanto para o leitor brasileiro. Ela mostra, em tempo real, o que acontece quando a sede da inteligência artificial encontra um território sem água de sobra. O Brasil ainda está a tempo de escolher um caminho diferente, exigindo transparência sobre o consumo de água e planejando onde cada data center pode, ou não, ser instalado.

O caso de Querétaro coloca na mesa uma escolha que o mundo inteiro vai ter que fazer. Os data centers movem a inteligência artificial que já faz parte do nosso dia a dia, mas o consumo de água deles cobra um preço real de comunidades que já vivem em estresse hídrico. Não dá para fingir que a nuvem é leve: ela bebe água, e muita.

E você, acha que o Brasil deveria frear a instalação de data centers em regiões com pouca água, mesmo que isso afaste bilhões em investimento? Ou dá para conciliar a chegada da inteligência artificial com a garantia de água para a população? Conta aqui nos comentários como você equilibraria essa conta.

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Maria Heloisa Barbosa Borges

Falo sobre construção, mineração, minas brasileiras, petróleo e grandes projetos ferroviários e de engenharia civil. Diariamente escrevo sobre curiosidades do mercado brasileiro.

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