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Depois da gigantesca muralha submarina de 80 km, cientistas estudam lançar bolhas de ar no fundo do mar para tentar bloquear a água quente que corrói a geleira do Juízo Final por baixo e ganhar tempo contra um colapso capaz de elevar o nível dos oceanos

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Escrito por Ana Alice Publicado em 23/06/2026 às 20:45 Atualizado em 23/06/2026 às 20:47
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Cientistas estudam bolhas de ar no fundo do mar para tentar proteger a geleira Thwaites do avanço da água quente. (Imagem: Ilustrativa)
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Pesquisadores avaliam técnicas para reduzir o contato da água quente com a geleira Thwaites, na Antártida, enquanto estudos testam limites, riscos ambientais e possíveis intervenções contra a elevação do nível do mar.

Cientistas que estudam a geleira Thwaites, na Antártida Ocidental, avaliam uma nova linha de pesquisa para tentar reduzir a chegada de água oceânica relativamente quente à base do gelo.

A proposta prevê liberar bolhas de ar no fundo do mar para provocar mistura entre camadas de água e diminuir o contato direto do calor com a geleira, segundo projetos e estudos sobre intervenção climática glacial.

A alternativa aparece ao lado da ideia de instalar cortinas submarinas ancoradas no leito oceânico, também em fase de avaliação científica e de engenharia.

Conhecida como “Geleira do Juízo Final”, a Thwaites é acompanhada por pesquisadores porque está entre as geleiras de retração mais acelerada da Antártida.

O bloco fica na Antártida Ocidental, tem área aproximada à da Flórida ou da Grã-Bretanha e perde mais de 50 bilhões de toneladas de gelo por ano, segundo a International Thwaites Glacier Collaboration e o National Snow and Ice Data Center, dos Estados Unidos.

O colapso completo da Thwaites poderia elevar o nível global do mar em cerca de 65 centímetros ao longo dos próximos séculos.

A atenção dos cientistas também se deve ao papel da geleira na contenção de outras massas de gelo da Antártida Ocidental.

Caso esse sistema perca estabilidade, a perda de gelo pode se somar a outros processos de elevação dos oceanos.

A proposta das bolhas de ar foi discutida por pesquisadores ligados a estudos de intervenção climática glacial.

Em vez de construir uma barreira física contínua, uma tubulação instalada no fundo do mar liberaria ar ou água fria em fluxo constante.

O objetivo seria modificar a circulação local e dificultar que a água mais quente alcance diretamente a parte inferior da geleira.

Como a água quente ameaça a geleira Thwaites

A Thwaites não perde gelo apenas pela influência da atmosfera.

No caso dessa geleira, a água do oceano tem papel relevante no derretimento por baixo da estrutura.

Estudos com dados de radar por satélite identificaram a entrada de água salgada e relativamente quente por vários quilômetros sob o gelo aterrado, em um processo associado às marés e à pressão da água no contato entre oceano, rocha e gelo.

A equipe liderada por Eric Rignot, da Universidade da Califórnia em Irvine, publicou em 2024 evidências de intrusões de água do mar sob a Thwaites.

Segundo a colaboração internacional que monitora a geleira, os dados obtidos entre março e junho de 2023 por satélites da missão ICEYE mostraram movimentos de subida, descida e flexão do gelo relacionados ao ciclo das marés.

Esse contato contribui para o derretimento basal, processo que ocorre na parte inferior da geleira.

A água circumpolar profunda é salgada e pode permanecer líquida em temperaturas abaixo do ponto de congelamento da água doce.

Essa condição favorece a erosão da base do gelo e reduz o apoio que ajuda a conter o avanço da geleira em direção ao oceano, de acordo com pesquisadores envolvidos no estudo.

Dados reunidos pela International Thwaites Glacier Collaboration indicam que a Thwaites já apresenta velocidade de superfície superior a 2 quilômetros por ano perto da linha de aterramento.

Desde os anos 1990, a quantidade de gelo que flui para fora da região praticamente dobrou, informação usada pelos cientistas para avaliar a possibilidade de retração mais rápida no futuro.

Plataforma de gelo Thwaites  • Alexandra Mazur/University of Gothenburg
Plataforma de gelo Thwaites • Alexandra Mazur/University of Gothenburg

Da cortina submarina às bolhas de ar

A proposta mais conhecida prevê cortinas flexíveis presas ao fundo do mar para redirecionar correntes quentes antes que elas alcancem geleiras vulneráveis.

No caso da Thwaites e da vizinha Pine Island, o projeto é discutido para áreas do Mar de Amundsen, onde a circulação oceânica influencia o derretimento do gelo.

O Seabed Curtain Project, iniciativa ligada à University of the Arctic, descreve uma rota gradual de pesquisa.

O plano inclui testes em tanques, estudos de ecossistemas em Svalbard, ensaios de campo em um fiorde norueguês e, apenas em uma etapa futura, avaliação de eventual aplicação perto da Thwaites.

O projeto afirma que qualquer implantação na Antártida dependeria de evidência científica, salvaguardas ambientais e acordo internacional.

A alternativa com bolhas de ar busca reduzir a dependência de uma estrutura física de grande escala.

A lógica se aproxima da usada em barreiras de bolhas aplicadas em obras marítimas para conter sedimentos ou reduzir impactos acústicos.

No ambiente antártico, porém, a escala seria maior e exigiria fornecimento contínuo de energia em uma região polar de difícil acesso.

Pesquisadores tratam a ideia como experimental.

Até o momento, não há demonstração pública de que uma cortina de bolhas consiga proteger uma geleira do porte da Thwaites.

Também permanecem em aberto os possíveis efeitos sobre a circulação oceânica, os nutrientes, a vida marinha e a formação de gelo marinho em uma área ambientalmente sensível.

Geoengenharia glacial divide pesquisadores

O avanço dessas propostas ocorre dentro de um debate mais amplo sobre geoengenharia climática.

Um documento de visão científica publicado em 2024, “Glacial Climate Intervention: A Research Vision”, defende a ampliação de estudos sobre intervenções glaciais.

O texto afirma, no entanto, que esse tipo de pesquisa não reduz a necessidade de cortar o uso de combustíveis fósseis.

O relatório aponta que as duas grandes camadas de gelo do planeta, na Antártida e na Groenlândia, continuam em processo de deterioração mesmo sob cenários otimistas de emissões.

Segundo o documento, a humanidade talvez não consiga impedir a elevação do nível do mar, mas pode estudar formas de desacelerar o processo enquanto reduz emissões de carbono.

Esse é um dos pontos em debate entre pesquisadores da área.

Parte dos cientistas considera que intervenções desse tipo poderiam ganhar tempo para cidades costeiras e países vulneráveis.

Outros especialistas avaliam que projetos de geoengenharia podem criar a percepção equivocada de que a redução de emissões pode ser adiada.

A discussão ganhou novos elementos após estudos recentes apresentarem cenários diferentes para a evolução da Thwaites.

Um trabalho publicado na Nature Climate Change em 2023 concluiu que a oportunidade de preservar a camada de gelo da Antártida Ocidental em seu estado atual provavelmente já passou, e que governos devem se preparar para vários metros de elevação do mar ao longo dos séculos.

Em outra frente, uma pesquisa liderada por Mathieu Morlighem e publicada em 2024 indicou que um dos cenários mais extremos de colapso rápido por instabilidade de penhascos de gelo pode ser menos provável neste século do que alguns modelos anteriores sugeriam.

A International Thwaites Glacier Collaboration resumiu o achado como uma perspectiva menos severa para esse mecanismo específico, mas ressaltou que a perda de gelo polar segue como uma ameaça relevante.

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O que falta saber sobre a intervenção no gelo polar

Entre os pontos ainda em avaliação estão a viabilidade técnica, a segurança ambiental e a governança internacional de uma intervenção desse tipo.

Instalar cortinas no fundo do mar, manter tubulações em funcionamento sob condições polares e operar sistemas de energia perto de geleiras exigiria logística complexa, altos custos e regras de supervisão entre países.

Também falta definir como essas intervenções poderiam alterar a circulação oceânica.

Alguns pesquisadores avaliam que redirecionar água quente de uma região pode deslocar calor para outras áreas vulneráveis.

Além disso, a elevação do nível do mar não depende apenas da Thwaites: expansão térmica dos oceanos, derretimento de outras geleiras, perda de gelo na Groenlândia e subsidência do solo em áreas costeiras também entram na conta.

O Centro de Reparação Climática da Universidade de Cambridge afirma pesquisar abordagens de “reparo climático” com base em diferentes métodos.

A instituição descreve esse campo como algo além da redução de emissões, por envolver remoção de gases de efeito estufa, preservação de gelo e, em algumas hipóteses, técnicas de resfriamento planetário.

Enquanto isso, o Seabed Curtain Project prevê estudos de análogos naturais em Svalbard, testes de engenharia e eventuais pilotos em ambientes mais acessíveis antes de qualquer discussão concreta sobre uma obra na Antártida.

Um relatório sobre comparações ecológicas em fiordes de Svalbard é esperado para setembro de 2026.

O cenário atual indica que não há uma intervenção pronta para ser aplicada no “Glaciar do Juízo Final”.

O que existe, segundo os projetos e estudos disponíveis, é uma agenda de pesquisa para verificar se alguma tecnologia poderia reduzir riscos sem produzir efeitos ambientais ou climáticos indesejados.

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Ana Alice

Redatora e analista de conteúdo. Escreve para o site Click Petróleo e Gás (CPG) desde 2024 e é especialista em criar textos sobre temas diversos como economia, empregos e forças armadas.

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