Num teste feito com ogiva de verdade, e não de treino, a Turquia acertou em cheio o alvo designado com o seu míssil de cruzeiro SOM-J, confirmando que a arma está pronta e dando mais um passo na jornada do país para deixar de comprar tecnologia militar e passar a fabricar e exportar a sua própria.
Quem acompanha o setor de defesa já percebeu que a Turquia deixou de ser coadjuvante. Nas últimas duas décadas, o país construiu uma indústria militar própria que hoje exporta para o mundo inteiro, com destaque para os drones que apareceram em vários conflitos recentes. Agora, a vez é de um míssil, o SOM-J, que acaba de passar por um teste decisivo.
O que torna esse ensaio diferente é o detalhe da ogiva real. Muitos testes de míssil são feitos com cargas inertes, apenas para validar trajetória e sistemas. Disparar com a ogiva ativa e acertar o alvo em condições operacionais é o tipo de prova que confirma que a arma não é mais um protótipo, é um sistema pronto para entrar em serviço. E o SOM-J acertou.
O que é um míssil de cruzeiro stand-off
Vale explicar a categoria, porque ela diz muito sobre a estratégia por trás da arma. O SOM-J é um míssil de cruzeiro do tipo lançado a distância, o chamado stand-off. A ideia é simples e poderosa, em vez de o caça precisar voar até perto do alvo para atacar, ele dispara o míssil de longe e dá meia-volta, deixando que a própria arma percorra o resto do caminho até o destino. Isso mantém o piloto longe das defesas inimigas, reduzindo drasticamente o risco da missão.
-
O avião espacial militar que quase levou a Guerra Fria para a órbita: Boeing X-20 Dyna-Soar foi projetado para reentrar acima de Mach 20, voar por até 40 horas, pousar como avião e transformar foguetes Titan em porta de entrada para uma nova era de guerra orbital
-
FAB aposta em drones nacionais e amplia investimentos para fortalecer a indústria aeroespacial brasileira
-
Seis vezes, um crescente luminoso do tamanho da Lua assustou o céu soviético ao entardecer: parecia uma onda de OVNIs, mas era uma arma orbital secreta criada para atacar os Estados Unidos pelo Polo Sul e escapar dos radares da Guerra Fria
-
O governo dos Estados Unidos aprovou uma possível venda de 100 mísseis antiaéreos portáteis Stinger ao Exército Brasileiro, em um pacote estimado em cerca de 330 milhões de dólares que ainda depende de negociação entre os dois países
Mísseis assim são peças valiosas em qualquer força aérea moderna, porque mudam o cálculo do combate. Eles permitem atingir alvos importantes sem expor a aeronave e o piloto, e por isso costumam ser tecnologias guardadas a sete chaves pelos países que as dominam. A Turquia desenvolver um SOM-J próprio e prová-lo em teste real é entrar nesse clube por mérito tecnológico.

A ascensão silenciosa da indústria turca
A trajetória da Turquia em defesa é uma das histórias mais interessantes da geopolítica recente, e quase sempre passa batida. O país fez uma escolha estratégica clara, a de reduzir a dependência de armamento importado e investir pesado em desenvolver tecnologia em casa. O resultado aparece agora, com drones, mísseis, caças e navios saindo de fábricas turcas, muitos deles já no mercado de exportação.
O caso mais famoso dessa virada são os drones turcos, que ganharam fama mundial ao aparecer em conflitos recentes mostrando que armas relativamente baratas e bem feitas podiam mudar o rumo de um combate. Eles transformaram a Turquia, quase da noite para o dia, num nome respeitado e cobiçado no mercado de defesa, com fila de países querendo comprar. O SOM-J caminha para repetir essa lógica num outro segmento, o dos mísseis, ampliando o catálogo de uma indústria que aprendeu a vender autonomia para nações que também não querem depender das grandes potências. É um modelo de negócio e de poder ao mesmo tempo, e o mais notável é que tudo isso foi erguido em pouco tempo, por um país que há uma geração era apenas mais um comprador na fila dos grandes fornecedores mundiais.
Confesso que é impressionante ver um país que há poucas décadas comprava quase tudo de fora virar fornecedor de tecnologia militar para outras nações. Essa virada dá à Turquia não só autonomia, mas também influência, porque quem vende armas ganha aliados e abre portas diplomáticas. O SOM-J é mais uma peça nesse tabuleiro de afirmação de um país que quer ser potência por conta própria.

Por que um míssil turco importa para o mundo
Pode parecer um assunto distante, mas a ascensão militar turca afeta o equilíbrio de uma região inteira e além dela. Quando um país emergente passa a dominar e exportar armas sofisticadas, ele muda a lógica de poder do seu entorno e oferece a outras nações uma alternativa aos grandes fornecedores tradicionais, como Estados Unidos, Rússia e potências europeias. Isso torna o mercado de defesa menos concentrado e mais disputado.
É a mesma tendência que se vê em outros lugares do mundo, países que decidem não depender mais de ninguém para garantir a própria segurança e que investem para fabricar em casa o que antes importavam. A Turquia é, hoje, um dos exemplos mais bem-sucedidos dessa estratégia, e cada teste como o do SOM-J reforça essa posição.

Um recado disparado a distância
Fico imaginando o peso simbólico de um teste como esse para a Turquia. Não é só uma arma que funcionou, é a confirmação de um projeto de país, o de virar uma potência tecnológica e militar que não precisa pedir nada a ninguém. Cada míssil bem-sucedido é também um argumento diplomático, uma demonstração de que o país entrega o que promete.
O SOM-J agora caminha para entrar plenamente em serviço e, muito provavelmente, para a lista de produtos que a Turquia oferece a aliados ao redor do mundo. É mais um capítulo de uma ascensão que vem acontecendo de forma discreta, mas constante, e que está redesenhando o mapa de quem fabrica o armamento do século, num movimento que pega de surpresa quem ainda imaginava a Turquia apenas como compradora.
Você imaginava que a Turquia já estava tão avançada a ponto de exportar mísseis e drones para o mundo?

-
1 pessoa reagiu a isso.