Por trás da imagem chamativa divulgada pela NASA, existe um problema que se arrasta há décadas: poluição por nutrientes, plantas invasoras e um reservatório cada vez mais próximo do colapso ambiental.
Uma imagem captada por satélite chamou a atenção de especialistas e voltou os olhos do mundo para um problema ambiental grave na África do Sul. Do espaço, a NASA registrou uma extensa mancha verde cobrindo parte da superfície da represa de Hartbeespoort, um reservatório localizado perto de Pretória.
À primeira vista, a cena pode até parecer apenas um fenômeno natural ou uma mudança comum na coloração da água. Mas, segundo os especialistas, o que aparece na imagem é sinal de um desequilíbrio antigo e perigoso, com impactos diretos sobre a vida aquática, a qualidade da água e até a saúde pública.
O que a NASA observou no reservatório
A imagem divulgada pelo Observatório da Terra da NASA mostra grandes áreas verdes espalhadas sobre a lâmina d’água. Esse aspecto intenso e chamativo revela um ambiente sobrecarregado por nutrientes, condição que favorece o crescimento acelerado de organismos na superfície.
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Esse processo é conhecido como hipereutrofização. Em termos simples, ele ocorre quando a água recebe quantidades excessivas de substâncias como nitrogênio e fósforo, criando um cenário ideal para a multiplicação descontrolada de algas, cianobactérias e plantas aquáticas.
Segundo Bridget Seegers, cientista ligada ao Centro Espacial Goddard, o efeito é comparável ao de um jardim que recebe fertilizante em excesso: quanto mais nutrientes, maior tende a ser o crescimento biológico. O problema é que, em ambientes aquáticos, esse “excesso de vida” pode causar danos severos ao ecossistema.
Não são apenas algas: plantas invasoras também avançam
A massa verde observada sobre a represa não é formada somente por algas. Ela também inclui espécies invasoras de plantas aquáticas, como Pontederia crassipes e Salvinia minima, conhecidas por formar camadas densas sobre a água.
Quando essas plantas se espalham, elas criam uma espécie de tapete vegetal na superfície. Isso reduz a entrada de luz em camadas mais profundas, interfere na circulação natural da água e prejudica a oxigenação do ambiente.
Com o tempo, esse bloqueio afeta todo o equilíbrio ecológico do reservatório. A água deixa de sustentar adequadamente várias formas de vida, e organismos mais sensíveis passam a sofrer as consequências primeiro.
Falta de oxigênio ameaça peixes e outras espécies
Um dos efeitos mais preocupantes desse processo é a formação das chamadas zonas mortas. Nessas áreas, o nível de oxigênio dissolvido na água cai tanto que peixes e outros animais aquáticos têm dificuldade para sobreviver.
Como os peixes dependem do oxigênio presente na água para respirar pelas brânquias, qualquer alteração brusca nesse equilíbrio pode gerar episódios de sufocamento em massa. Sem áreas seguras para migrar, muitos acabam presos em um ambiente cada vez mais hostil.
Esse risco já deixou de ser apenas uma hipótese. Em abril de 2023, parte do reservatório registrou uma queda de oxigênio associada à morte de grande quantidade de peixes, incluindo centenas de carpas de grande porte.
Meses depois, em novembro de 2025, novos sinais de crise foram relatados, com peixes buscando ar perto da superfície. O padrão indica que o problema continua ativo e reaparece em diferentes momentos, reforçando a gravidade da situação.

Um problema antigo que já dura décadas
A represa de Hartbeespoort não enfrenta esse quadro há pouco tempo. Construída na década de 1920, a cerca de 40 quilômetros de Pretória, ela convive com episódios persistentes de hipereutrofização há quase meio século.
Houve uma melhora temporária nos anos 1990, quando foi implementado um programa de biorremediação para tentar recuperar a qualidade da água. Os resultados foram considerados positivos, mas a iniciativa acabou interrompida por causa do alto custo.
Desde então, o reservatório voltou a apresentar sinais contínuos de degradação. O acúmulo de nutrientes, somado à presença de plantas invasoras, mantém a represa em um estado de desequilíbrio difícil de controlar.
De onde vem a contaminação
Um estudo publicado em 2022 analisou dados de várias décadas e apontou o rio Crocodile como principal fonte do material que alimenta essa degradação. O curso d’água leva até a represa resíduos ricos em nutrientes provenientes de atividades humanas.
Entre as principais origens estão áreas agrícolas e campos de golfe, onde o uso frequente de fertilizantes contribui para elevar a concentração de compostos como fósforo e nitrogênio. Ao chegarem ao reservatório, esses elementos impulsionam ainda mais o crescimento de algas e plantas aquáticas.
Esse tipo de poluição é especialmente difícil de combater porque não depende de um único ponto de despejo. Ela se espalha por diferentes áreas da paisagem e vai sendo carregada lentamente pela água até atingir o lago.
Impactos vão além da fauna aquática
Os efeitos do problema não se limitam aos peixes. Quando a água sofre esse tipo de deterioração, o abastecimento humano também pode ser afetado, já que se torna necessário remover toxinas e impurezas adicionais antes do consumo.
Além disso, o contato com essa água pode representar riscos para pessoas e animais. Especialistas alertam para a possibilidade de irritações na pele em praticantes de esportes aquáticos e até casos de intoxicação em cães expostos ao ambiente contaminado.
A imagem vista do espaço, portanto, é mais do que um retrato impressionante. Ela funciona como um alerta visível de um processo silencioso que compromete um ecossistema inteiro e exige atenção contínua.

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