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Até os especialistas ficaram assustados com o que a NASA captou do espaço no Ártico, e o que aparece na imagem pode ter um papel maior do que se imaginava

Escrito por Noel Budeguer
Publicado em 24/03/2026 às 20:08
Atualizado em 27/03/2026 às 23:55
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Fenômeno registrado no Ártico canadense mostra um remoinho visível do espaço, alimentado por degelo e sedimentos, com impacto direto na vida marinha e no gelo da região

Uma imagem feita sobre um fiorde remoto do Ártico canadense transformou um círculo escuro na água em assunto global. À primeira vista, a cena parece mostrar um buraco aberto na superfície.

O que aparece ali, porém, é um movimento natural do oceano. O desenho visível no mar revela como o verão na região reorganiza o gelo, espalha sedimentos e altera o funcionamento do ecossistema.

Esse tipo de registro também ajuda a entender algo maior. O degelo não muda apenas a paisagem. Ele interfere na circulação da água, carrega nutrientes e amplia sinais de transformação em uma das áreas mais sensíveis do planeta.

Cañon Fiord liga águas isoladas ao oceano Ártico

A cena foi registrada em Cañon Fiord, na ilha de Ellesmere, dentro do arquipélago ártico canadense. Esse trecho fica a cerca de 115 quilômetros ao sudeste da estação de pesquisa de Eureka.

As águas do fiorde seguem em direção a Nansen Sound e depois ao oceano Ártico. Isso torna a área importante para observar como gelo, sedimentos e correntes se misturam em grande escala.

Imagem de 9 de agosto de 2022 revelou o círculo escuro

Imagen satelital de la NASA que muestra un remolino oceánico en Cañon Fiord, en la isla de Ellesmere, Ártico canadiense, rodeado por hielo marino, sedimentos del deshielo y el casquete Agassiz Ice Cap.

O registro foi feito em 9 de agosto de 2022 com o sensor OLI, instalado no satélite Landsat 8. O equipamento observa faixas do visível e do infravermelho próximo, permitindo captar detalhes ambientais com alta definição.

Na prática, isso significa enxergar com clareza mudanças na água, no gelo e nos materiais carregados pelo degelo. Em regiões remotas, esse acompanhamento vira uma peça importante para entender o ritmo das transformações.

O chamado buraco é um remoinho de água marcado por gelo e partículas

O círculo escuro não é uma abertura real no mar. Trata se de um remoinho oceânico, formado quando a água muda de direção, encontra barreiras naturais ou passa a girar por diferenças de densidade e corrente.

Durante boa parte do ano, o gelo marinho cobre essas águas e pode chegar a 2 metros de espessura. Isso reduz a mistura causada pelo vento e mantém a água menos turva.

No verão, tudo muda rapidamente. O gelo se rompe, se desloca e passa a desenhar o giro da água, junto com partículas em suspensão. O resultado é um padrão circular que fica visível até do espaço.

Harina glaciar colore a água e leva nutrientes ao fiorde

Imagem de satélite destaca o remoinho formado em Cañon Fiord, no Ártico canadense, com o movimento da água desenhado por placas de gelo fragmentado na superfície.

A faixa turquesa que aparece ao redor do remoinho não indica contaminação. Ela é formada principalmente por harina glaciar, um pó muito fino de rocha gerado pelo atrito do glaciar com o solo e levado pela água do degelo.

Segundo NASA Earth Observatory, plataforma de observação da Terra da agência espacial, esse material pode funcionar como fonte crítica de nutrientes, com destaque para o ferro solúvel.

Esse detalhe tem peso enorme no mar. O fitoplâncton, base das cadeias alimentares marinhas, depende desse nutriente para crescer. Quando há mais alimento disponível na superfície, os efeitos podem alcançar peixes, aves e mamíferos marinhos.

Gelo vindo do Agassiz Ice Cap amplia o sinal climático

As imagens também mostram gelo proveniente do Agassiz Ice Cap, um dos grandes campos de gelo de Ellesmere. Isso reforça a ligação entre o remoinho visível, o volume de degelo e a quantidade de sedimentos lançada na água durante o verão.

A dinâmica não é isolada. Ela acompanha um sistema que vem perdendo massa de forma relevante e ajuda a explicar por que a circulação da água na região pode se tornar cada vez mais marcada por esse processo.

Perda de 61 ± 7 gigatoneladas por ano expõe escala da mudança

Medições científicas indicaram que o arquipélago ártico canadense perdeu 61 ± 7 gigatoneladas de gelo por ano entre 2004 e 2009. Nesse período, a contribuição para a elevação do nível do mar foi estimada em 0,17 ± 0,02 milímetros por ano.

Os dados também apontaram um salto importante no ritmo de perda entre 2004 e 2006 e 2007 e 2009, associado a verões mais quentes. Em escala global, glaciares fora da Groenlândia e da Antártida perderam em média 199 ± 32 gigatoneladas por ano entre 2002 e 2016.

Esse recorte mostra que a imagem não impressiona apenas pelo formato curioso. Ela ajuda a visualizar um processo que conecta degelo, nutrientes, circulação oceânica e aumento do nível do mar.

O efeito final vai além da estética da cena. O que parece apenas um círculo escuro no fiorde revela um ambiente em rápida mudança, com impacto sobre a vida marinha e sobre o equilíbrio do gelo na região.

Ao tornar esse movimento visível, o registro amplia a leitura sobre o Ártico e mostra que cada sinal do degelo carrega consequências muito maiores do que aparenta. É um quadro que pressiona a região.

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Noel Budeguer

Sou jornalista argentino baseado no Rio de Janeiro, com foco em energia e geopolítica, além de tecnologia e assuntos militares. Produzo análises e reportagens com linguagem acessível, dados, contexto e visão estratégica sobre os movimentos que impactam o Brasil e o mundo. 📩 Contato: noelbudeguer@gmail.com

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