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A 4.400 metros de altitude no Himalaia, onde o ar é tão rarefeito que dificulta até respirar, a estatal de petróleo da Índia perfurou mil metros de rocha para chegar a um subsolo de 240 graus e erguer a primeira usina geotérmica do país

Escrito por Douglas Avila
Publicado em 27/05/2026 às 22:21
Atualizado em 27/05/2026 às 22:23
Vale e montanhas de Lamayuru, em Ladakh, no Himalaia indiano
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A mais de 4.400 metros de altitude no Himalaia, onde o ar é tão rarefeito que cansa só de andar, a estatal de petróleo da Índia perfurou mil metros de rocha até encontrar um subsolo de 240 graus, e agora quer transformar esse calor escondido na primeira usina geotérmica que o país já teve.

O feito aconteceu no Vale de Puga, na região de Ladakh, um dos cantos mais isolados e inóspitos da Índia, encravado entre montanhas geladas perto da fronteira com a China. Foi ali que a ONGC, gigante estatal mais conhecida por bombear petróleo, cravou o poço geotérmico mais profundo já feito no país. E não foi de uma vez: um furo exploratório havia parado em 405 metros em 2025, e nesta temporada de 2026 a perfuração desceu até os 1.000 metros.

Mil metros de rocha no telhado do mundo

Perfurar em qualquer lugar já é difícil, mas fazer isso a 4.400 metros de altitude é outro nível de problema. O oxigênio rarefeito derruba o rendimento de gente e de máquina, o inverno fecha o acesso por meses, e cada parafuso precisa subir por estradas de montanha que mais parecem trilhas. Confesso que, das histórias de perfuração que já contei aqui, essa é das que mais me fazem respeitar quem opera a sonda. Não é só furar fundo, é furar fundo no teto do planeta.

Sítio de perfuração geotérmica com torre de sonda
Uma sonda geotérmica fura a rocha em busca do calor profundo. No Vale de Puga, a operação enfrenta ainda o desafio extra da altitude de mais de 4.400 metros.

Calor de 240 graus debaixo do gelo

O que torna Puga especial é um paradoxo bonito. Na superfície, o lugar é um dos mais frios da Índia, com noites de muitos graus negativos. Logo abaixo, porém, a rocha guarda temperaturas que passam de 240 graus, calor de sobra para girar uma turbina. Esse contraste não é acaso: Ladakh fica sobre o chamado cinturão geotérmico do Himalaia, formado pelo choque das placas que ergueu a própria cordilheira, e há séculos a região exibe fontes de água fervente brotando do chão gelado.

O potencial de Puga não é novidade para os cientistas. O serviço geológico indiano mapeia a área desde os anos 1970, e por décadas o vale foi tratado como a aposta número um do país em geotermia, sem nunca sair do papel de estudo. O que mudou foi a decisão de uma estatal do porte da ONGC entrar de fato com a sonda pesada, transformando relatório antigo em furo de verdade.

Fonte de água quente natural na região de Ladakh, no Himalaia
Fontes de água fervente brotam naturalmente no alto de Ladakh há séculos. São o sinal de superfície do calor que a ONGC foi buscar mil metros abaixo.

Por que a Índia quer tanto esse calor

A vantagem da energia geotérmica é que ela não tira folga. Diferente do sol, que se põe, e do vento, que falta, o calor da Terra está lá o tempo todo, entregando eletricidade limpa 24 horas por dia, com pegada de carbono baixa e ocupando muito menos espaço que um parque solar ou uma hidrelétrica. Para um lugar remoto como Ladakh, onde levar combustível custa caro, isso é quase um sonho. A primeira usina-piloto, de 1 megawatt, deve ficar pronta entre 2026 e 2027, e estudos apontam um potencial de cerca de 10 gigawatts de energia geotérmica espalhados pela Índia, um país que hoje não tem nenhuma usina desse tipo em operação.

Essa primeira usina não vai jogar a água do poço direto numa turbina gigante. O modelo previsto aproveita o calor do fluido geotérmico, que chega à superfície perto de 200 graus, para girar um gerador compacto de 1 megawatt, o bastante para abastecer um vilarejo inteiro. É pouco diante dos 10 gigawatts de potencial do país, mas serve como prova de conceito: se funcionar no lugar mais difícil, funciona em quase qualquer outro.

Há também um peso estratégico no projeto. A Índia é um dos maiores queimadores de carvão do planeta e prometeu zerar suas emissões líquidas até 2070, uma meta que exige fontes limpas e constantes, não só painéis e turbinas reféns do tempo. E Ladakh não é uma região qualquer, encravada na fronteira tensa com a China, onde abastecer bases e vilarejos com energia gerada no próprio local tem um valor que vai muito além da conta de luz.

Não é só a Índia que acordou para isso. A geotermia profunda virou aposta global, com empresas como a Fervo levantando centenas de milhões de dólares para alimentar data centers de inteligência artificial com calor do subsolo. A diferença é que a Índia escolheu começar pelo lugar mais difícil que tinha no mapa.

O obstáculo que não é geológico

O calor está lá, a tecnologia existe, mas o caminho ainda é cheio de pedra. Falta no país uma política dedicada à geotermia, como já existe para solar e eólica, e o custo alto de explorar somado ao prazo longo de desenvolvimento afasta o investimento privado. Não por acaso, o acordo entre a ONGC e o governo de Ladakh para tocar o projeto acabou de ser estendido por mais cinco anos, sinal de que ninguém espera atalho. A corrida por brocas melhores também avança lá fora, com startups testando perfuração por ondas para chegar a rochas ainda mais quentes.

Fico imaginando o dia em que uma vila perdida no alto do Himalaia acender a luz com o calor que sempre esteve fervendo embaixo dos pés dela, sem queimar nada. É o tipo de energia que estava ali o tempo inteiro, esperando alguém ter coragem de furar fundo o suficiente para alcançá-la.

Se há calor de sobra fervendo sob as montanhas, por que ainda dependemos tanto de queimar combustível para acender uma lâmpada?

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Douglas Avila

Trabalho com tecnologia há 16 anos, hoje 100% focado em IA. Atuo como CAIO (Chief AI Officer) em São Paulo, com foco em receita. Formado em Sistemas para Internet pelo Senac. No Click Petróleo e Gás escrevo sobre tecnologia e inovação aplicadas aos setores estratégicos da economia brasileira: energia, indústria, transporte marítimo, automotivo, ciência e engenharia

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