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A Google comprou 115 MW e seis bancos injetaram US$ 421 milhões: por que os data centers de IA estão escolhendo a energia geotérmica em vez de solar e eólica

Escrito por Douglas Avila
Publicado em 30/04/2026 às 19:00
Atualizado em 30/04/2026 às 19:49
Usina de energia geotérmica em paisagem semiárida de Utah com turbinas e torres de resfriamento ao pôr do sol
Conceito visual de usina geotérmica tipo Cape Station
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Em Beaver County, Utah, uma startup vai entregar 500 MW de energia 24 horas por dia — e os contratos já vendidos para data centers de IA mostram por que big techs e bancos estão apostando bilhões em uma tecnologia esquecida há décadas

A energia geotérmica está vivendo seu momento de inflexão. Em 19 de março de 2026, a startup americana Fervo Energy fechou um financiamento de US$ 421 milhões para construir o Cape Station, no condado rural de Beaver, em Utah — primeiro projeto comercial de larga escala de sistemas geotérmicos avançados (EGS, na sigla em inglês) dos Estados Unidos.

O dinheiro vem de seis grandes bancos: Barclays, BBVA, HSBC, MUFG, RBC e Société Générale, com participação adicional de Bank of America, J.P. Morgan e Sumitomo Mitsui Trust Bank. É a primeira vez que energia geotérmica dessa categoria recebe financiamento de longo prazo no formato “non-recourse” — o mesmo usado em projetos de solar utility-scale e eólica offshore.

O contraste com a estratégia tradicional do setor é dramático. Solar e eólica produzem só quando há sol ou vento. Já a energia geotérmica entrega eletricidade firme, 24 horas por dia, sete dias por semana — exatamente o que data centers de inteligência artificial precisam.

Sonda de perfuração para energia geotérmica em Utah

O projeto Cape Station: como 500 MW serão extraídos da rocha

O Cape Station ocupa um terreno semiárido em Utah que, antes da Fervo, ninguém via como recurso energético. Em seguida, as primeiras turbinas começam a entregar eletricidade ainda em 2026.

Em comparação, a fase 1 atinge 100 MW operacionais no início de 2027, e o projeto inteiro escalará para 500 MW — com potencial autorizado de chegar a 2 GW.

Conforme o site oficial do projeto Cape Station, a tecnologia usa perfuração horizontal e estimulação multi-estágio — as mesmas técnicas que revolucionaram o petróleo de xisto no Texas há 15 anos.

Como reportou recentemente o Click Petróleo e Gás, a Fervo perfurou em Utah um poço lateral que ultrapassou 4,8 quilômetros de rocha dura, encontrando temperaturas próximas a 555 graus Celsius — calor suficiente para gerar eletricidade comercial.

Conforme detalhado no relatório técnico, o dado importa porque mostra que a energia geotérmica avançada não depende mais de áreas vulcânicas como Islândia ou Filipinas. Em outras palavras, a tecnologia funciona em qualquer ponto onde existam rochas quentes secas a profundidade suficiente — abrindo o jogo para regiões inteiras antes consideradas inviáveis.

Data center de IA alimentado com energia geotérmica firme 24h

Por que big techs preferem geotermia em vez de solar e eólica

O motivo é prático. Data centers de inteligência artificial consomem energia em ritmo constante — 24 horas por dia, 365 dias por ano. Solar entrega zero kWh à noite. Eólica varia conforme o vento.

Por consequência, a energia geotérmica gera no mesmo ritmo durante todas as horas do ano, eliminando o problema da intermitência sem depender de baterias caras.

Para grandes provedores de nuvem como Google, Microsoft e Amazon, contratos de longo prazo com fornecedores firmes valem mais por cada MWh do que solar ou eólica simples.

Isso porque eles podem ser contabilizados como energia limpa firme — uma categoria que satisfaz metas climáticas corporativas e, ao mesmo tempo, mantém uptime de servidores em níveis aceitáveis.

Já em 2021, a Fervo Energy assinou com a NV Energy um contrato de compra de 115 MW especificamente para alimentar data centers do Google em Nevada, sob a chamada Clean Transition Tariff. De fato, essa operação serviu de prova de conceito comercial para o setor inteiro.

A corrida pelos contratos firmes em energia geotérmica

No total, a Fervo já tem PPAs (acordos de compra de energia) fechados com Southern California Edison, Shell Energy e agregadores comunitários da Califórnia, além do contrato anterior com Google via NV Energy.

Em paralelo, a empresa fechou em 2026 um acordo com a italiana Turboden para fornecer 1,75 GW em turbinas de ciclo Rankine orgânico. Para entender, é a versão modernizada de tecnologia consagrada na Itália — e o volume é mais que dez vezes maior que o contrato original de 150 MW assinado em 2024.

De fato, o acordo com a Turboden mostra a escala da aposta. Para ter uma ideia, 1,75 GW equivalem a aproximadamente quatro reatores nucleares pequenos em capacidade firme. Em comparação, quando entrar em operação plena, esse volume sozinho atenderá a demanda de cerca de 1,3 milhão de residências americanas.

Sala de turbinas Turboden para projetos de energia geotérmica avançada

A “oil patch” do Texas que viraram a chave da energia geotérmica

O segredo da viabilidade comercial está em uma transferência tecnológica improvável. As mesmas técnicas que destravaram o xisto americano nos anos 2010 — perfuração horizontal, fraturamento hidráulico controlado e sensores de fibra ótica distribuída — agora destravam a energia geotérmica em rochas quentes secas.

O CEO da Fervo, Tim Latimer, é ex-engenheiro do setor de óleo e gás. A sede da empresa fica em Houston, no Texas, capital mundial do petróleo americano. A própria força de trabalho da empresa migrou de campos de petróleo decadentes para essa nova fronteira.

Conforme detalhado pela E&E News, “o Cape Station é teste-chave para gerar eletricidade 24 horas sem produzir emissões aquecedoras do planeta”. Em outras palavras, a aposta é que o sucesso do projeto destrave bilhões em capital privado para o setor inteiro.

A comparação com Islândia, Quênia e o resto do mundo

A Islândia é hoje o país com maior penetração relativa de energia geotérmica do mundo: cerca de 30% da eletricidade local vem do calor da Terra. O Quênia segue como segundo, gerando 47% de sua matriz elétrica via geotermia natural do Vale do Rift.

O caso americano é diferente. Antes da Fervo, geotermia nos Estados Unidos era sinônimo de Califórnia (campo Geysers) e Nevada — regiões com calor superficial natural. A nova geração de EGS muda o jogo, permitindo geotermia em Texas, Wyoming, Pensilvânia e até em locais como Reino Unido e Brasil.

Vale citar o paralelo. A IEA projeta que até 15% da demanda global de eletricidade pode ser atendida por geotermia até 2050, num cenário de transição energética acelerada. Hoje, o mundo todo gera apenas cerca de 1% via essa fonte.

A pressão dos data centers de IA muda o cálculo financeiro

Antes do boom da inteligência artificial generativa em 2023, geotermia era considerada cara demais para competir com gás natural ou solar com baterias. Hoje, o cálculo mudou. Data centers de IA pagam prêmio para garantir energia firme, 24/7, sem variação — porque cada minuto de downtime custa milhões em receita perdida.

Isso significa que a energia geotérmica, antes vista como nicho geográfico, virou peça-chave do roteiro climático corporativo. Conforme dados do Canary Media, o setor pode atrair mais de US$ 10 bilhões em investimentos até 2030, considerando apenas EGS nos Estados Unidos.

Em paralelo, o megaprojeto Stargate da OpenAI/Oracle no Texas, com investimento previsto de US$ 500 bilhões, também sinaliza demanda gigantesca por eletricidade firme nos próximos anos. Como mostrou recentemente o Click Petróleo e Gás, a obra do Stargate já mobiliza 6,4 mil operários e é considerada a maior em construção no planeta.

  • US$ 421 milhões — financiamento fechado em março de 2026 para Cape Station
  • 500 MW — capacidade total do projeto (potencial até 2 GW)
  • 100 MW — meta operacional para início de 2027
  • 4,8 km — profundidade dos poços laterais perfurados em Utah
  • 555 °C — temperatura das rochas no fundo dos poços
  • 1,75 GW — encomenda recente de turbinas com a Turboden

Riscos e ressalvas: nem tudo é tão limpo quanto parece

Apesar do otimismo, há ressalvas importantes. O fraturamento hidráulico em rochas quentes pode induzir tremores sísmicos de pequena magnitude — fenômeno já observado em projetos pilotos na Suíça e na Coreia do Sul. A Fervo afirma usar reservatórios fechados, mas o setor inteiro precisa monitorar.

Além disso, o uso de água é significativo. Para fraturar rocha e circular calor, projetos EGS consomem volumes parecidos com fracking de gás natural. Em regiões áridas como Utah ou Texas, isso pode virar gargalo regulatório.

Por outro lado, a indústria está em estágio inicial — a curva de aprendizado do shale americano levou cerca de 10 anos para reduzir custos pela metade. A energia geotérmica avançada está apenas começando esse caminho.

O que isso significa para o Brasil

O Brasil tem potencial geotérmico estimado em 37 GW, segundo levantamento do Ministério de Minas e Energia em parceria com o Serviço Geológico Brasileiro. Hoje, no entanto, o país não opera nenhuma usina geotérmica comercial — toda a base é hidrelétrica, eólica, solar e termelétrica.

Em paralelo, com a explosão prevista de data centers de IA também no Brasil, especialmente em São Paulo, a demanda por energia firme limpa vai crescer rapidamente nos próximos cinco anos. Pode ser a hora ideal para o país explorar o EGS de forma comercial.

Por fim, a pergunta que fica é incômoda. Se a maior empresa de tecnologia do mundo já decidiu que data centers de IA precisam de geotermia, e bancos europeus já injetam centenas de milhões nessa aposta, será que o Brasil vai assistir o trem passar mais uma vez? Ou vai surfar o ciclo enquanto ainda há janela?

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Douglas Avila

Trabalho com tecnologia há 16 anos, hoje 100% focado em IA. Atuo como CAIO (Chief AI Officer) em São Paulo, com foco em receita. Formado em Sistemas para Internet pelo Senac. No Click Petróleo e Gás escrevo sobre tecnologia e inovação aplicadas aos setores estratégicos da economia brasileira: energia, indústria, transporte marítimo, automotivo, ciência e engenharia

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