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13 pesquisadores dos EUA, Itália, Alemanha, Reino Unido e Espanha encontraram novas cicatrizes da megainundação que ressuscitou o Mediterrâneo: há 5,33 milhões de anos, a Inundação Zancleana abriu um canal submarino de 20 km de largura, deixou mais de 300 cristas gigantes e teve vazão até 500 vezes maior que a do Amazonas em uma catástrofe geológica que ainda desafia a ciência

Escrito por Valdemar Medeiros
Publicado em 30/05/2026 às 17:10
Atualizado em 30/05/2026 às 17:15
Assista o vídeo13 pesquisadores dos EUA, Itália, Alemanha, Reino Unido e Espanha encontraram novas cicatrizes da megainundação que ressuscitou o Mediterrâneo
reconstrução da Inundação Zancleana – imagem meramente ilustrativa
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Estudo reconstrói a Inundação Zancleana, evento que encheu o Mediterrâneo há 5,33 milhões de anos com vazão até 500 vezes maior que a do Amazonas.

Segundo a Universidade de Southampton, um estudo publicado em janeiro de 2025 na revista Communications Earth & Environment reuniu a cadeia de evidências mais completa já produzida sobre a Inundação Zancleana, o evento geológico que encerrou a Crise de Salinidade Messiniana e devolveu o Mar Mediterrâneo ao mapa há 5,33 milhões de anos. A pesquisa foi liderada por Aaron Micallef, do Monterey Bay Aquarium Research Institute, com participação de cientistas da própria Universidade de Southampton, da Universidade de Malta e de outras instituições.

A equipe identificou mais de 300 cristas assimétricas alinhadas na direção da inundação em um corredor que cruza o Sill da Sicília, além de um canal em forma de W com 20 quilômetros de largura no platô continental a leste da estrutura. Segundo o estudo, a descarga variou entre 68 e 100 Sverdrups, o equivalente a 340 a 500 vezes a vazão do rio Amazonas, com velocidades de até 32 metros por segundo, ou 115 km/h.

Crise de Salinidade Messiniana secou o Mediterrâneo por 640 mil anos

Segundo a Universidade de Southampton, a Crise de Salinidade Messiniana começou entre 5,97 e 5,33 milhões de anos atrás, quando a conexão entre o Oceano Atlântico e o Mar Mediterrâneo foi gradualmente bloqueada por movimentos tectônicos na região do atual Estreito de Gibraltar. Sem reposição suficiente de água atlântica, a evaporação passou a superar a entrada de água de rios e chuvas.

Com isso, o Mediterrâneo começou a encolher. As áreas rasas secaram primeiro, enquanto o sal dissolvido na água foi ficando para trás e formando depósitos cada vez mais espessos. No auge da crise, a bacia mediterrânea se transformou em um deserto de sal com alguns lagos hipersalinos isolados nas partes mais profundas.

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A mudança não afetou apenas a paisagem. Segundo o estudo, o clima da Europa e do Norte da África ficou mais seco e mais extremo, enquanto muitas espécies marinhas do Mediterrâneo desapareceram ou sobreviveram apenas em oceanos conectados.

As 300 cristas da Sicília são a prova física da Inundação Zancleana

Segundo a Universidade de Southampton, o grande diferencial do estudo de Aaron Micallef foi conectar evidências em terra e no fundo do mar de forma muito mais completa do que pesquisas anteriores. As 300 cristas assimétricas identificadas no sudeste da Sicília funcionam como marcas hidrodinâmicas preservadas do fluxo que atravessou a região.

Essas cristas apresentam um lado inclinado, de onde a água teria vindo, e um lado abrupto, para onde a água escoou. O topo delas contém material rochoso erodido e redepositado pela força da corrente, indicando um evento com energia suficiente para mover blocos de grande massa.

A preservação dessas formas por 5 milhões de anos também chamou atenção dos pesquisadores. Segundo a equipe, isso sugere que a inundação foi tão intensa que enterrou rapidamente essas estruturas sob sedimentos protetores, reduzindo a destruição por erosão posterior.

Canal em W no Sill da Sicília mostra como a água foi funilada para o Mediterrâneo oriental

Segundo a Universidade de Southampton, o canal em forma de W encontrado no platô continental ao leste do Sill da Sicília é a peça que conecta as cristas em terra ao Cânion de Noto, já no mar profundo. A geometria incomum revela como a água escavou o terreno ao avançar em alta velocidade.

O canal tem 20 quilômetros de largura, dimensão superior à do Estreito de Gibraltar atual, e se formou porque o fluxo aprofundou mais rapidamente as áreas mais frágeis do fundo, criando dois vales paralelos separados por uma crista central. Ao chegar à borda do platô, a água despencou pelo cânion submarino em direção à bacia oriental.

13 pesquisadores dos EUA, Itália, Alemanha, Reino Unido e Espanha encontraram novas cicatrizes da megainundação que ressuscitou o Mediterrâneo
reconstrução da Inundação Zancleana – imagem meramente ilustrativa

Segundo os modelos computacionais do estudo, a inundação foi autoacelerante. Quanto mais o fluxo erodia o canal, mais largo e fundo ele ficava, o que aumentava a vazão e ampliava ainda mais a erosão. Foi nesse processo que a velocidade máxima de 115 km/h teria sido atingida.

Inundação Zancleana moveu mais água do que todos os rios da Terra juntos

Segundo a Universidade de Southampton, o volume total despejado pelo Atlântico no Mediterrâneo foi de cerca de 1,7 milhão de quilômetros cúbicos, valor comparável ao volume atual do próprio Mediterrâneo. Para transportar tudo isso em um intervalo entre dois e 16 anos, a descarga precisou atingir entre 68 e 100 Sverdrups.

A comparação mais impressionante é com os rios do planeta. O estudo afirma que todos os maiores rios da Terra juntos movem cerca de 1,2 Sverdrup, o que significa que a Inundação Zancleana teria escoado entre 57 e 83 vezes mais água do que todos os rios do mundo combinados ao mesmo tempo.

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Essa escala explica por que a inundação não apenas encheu o Mediterrâneo, mas também transformou o ecossistema marinho da bacia em um intervalo geologicamente instantâneo. À medida que as águas subiram, espécies marinhas recolonizaram a região e novos sedimentos oceânicos passaram a recobrir os antigos sais messinianos.

Estudo da Universidade de Southampton reforça que o fim do Mediterrâneo seco foi catastrófico

Segundo a Universidade de Southampton, a descoberta vai além da geologia regional porque mostra a persistência de formas de relevo extremas ao longo de milhões de anos. Para Aaron Micallef, as evidências revelam um momento crítico da história geológica da Terra e ajudam a explicar como processos de altíssima energia deixam assinaturas duradouras na paisagem.

Estudo reconstrói a Inundação Zancleana, evento que encheu o Mediterrâneo há 5,33 milhões de anos com vazão até 500 vezes maior que a do Amazonas.
Inundação Zancleana ilustração

A equipe também destaca que essas marcas podem servir de comparação para outros contextos planetários, como os grandes canais de Marte, muitas vezes interpretados como vestígios de inundações catastróficas antigas.

Nesse sentido, o Mediterrâneo funciona como um análogo terrestre raro para eventos extremos de escala planetária.

No centro do debate, porém, está uma conclusão mais direta. Segundo o estudo, quando a barreira que isolava o Mediterrâneo finalmente cedeu, o que veio em seguida não foi apenas um reabastecimento gradual, mas o maior evento hídrico que a Terra produziu nos últimos 10 milhões de anos.

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Valdemar Medeiros

Formado em Jornalismo e Marketing, é autor de mais de 20 mil artigos que já alcançaram milhões de leitores no Brasil e no exterior. Já escreveu para marcas e veículos como 99, Natura, O Boticário, CPG – Click Petróleo e Gás, Agência Raccon e outros. Especialista em Indústria Automotiva, Tecnologia, Carreiras (empregabilidade e cursos), Economia e outros temas. Contato e sugestões de pauta: valdemarmedeiros4@gmail.com. Não aceitamos currículos!

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