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Enquanto a onda de frio polar congela o Sul nesta semana, a arqueologia lembra como os Kaingang cavavam casas subterrâneas no planalto de Santa Catarina para sobreviver às geadas há milênios

Escrito por Bruno Teles
Publicado em 22/06/2026 às 00:20
Atualizado em 22/06/2026 às 08:25
A onda de frio congela o Sul, e a arqueologia lembra como os Kaingang cavavam casas subterrâneas em Santa Catarina para sobreviver às geadas há milênios.
A onda de frio congela o Sul, e a arqueologia lembra como os Kaingang cavavam casas subterrâneas em Santa Catarina para sobreviver às geadas há milênios.
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Muito antes do aquecedor, os ancestrais dos Kaingang tinham uma solução para o frio extremo do planalto: cavar a casa fundo na terra. Essas casas subterrâneas usavam o solo como isolante térmico contra as geadas. Agora, com a onda de frio mais forte do ano sobre o Sul, a arqueologia mostra centenas de vestígios delas em Santa Catarina.

O Sul do Brasil entrou na semana mais gelada do ano. Segundo o Clima ao Vivo, uma forte massa de ar polar avança sobre a região entre os dias 22 e 26 de junho de 2026, na primeira grande onda de frio do inverno, com possibilidade de neve nas serras de Santa Catarina e do Rio Grande do Sul e geada ampla nas madrugadas seguintes. É o tipo de frio que faz qualquer um correr para o cobertor.

Pois bem: muito antes de existir aquecedor, lareira ou casaco térmico, os povos que viveram nesse mesmo planalto gelado já tinham uma resposta engenhosa para o problema. Os ancestrais dos Kaingang não lutavam contra o frio na superfície, eles desciam para baixo dela. Cavavam casas subterrâneas, usando a própria terra como isolante, e é justamente em Santa Catarina que a arqueologia encontra hoje os vestígios dessa sabedoria milenar, bem debaixo do chão que agora amanhece coberto de geada.

O frio de agora é o mesmo de milênios atrás

A onda de frio congela o Sul, e a arqueologia lembra como os Kaingang cavavam casas subterrâneas em Santa Catarina para sobreviver às geadas há milênios.
onda de frio que assusta os gaúchos e catarinenses em 2026 não é novidade para aquelas terras altas.

Conforme o Clima ao Vivo, o centro da massa polar passa pela região Sul entre os dias 24 e 26 de junho, justamente o período de maior risco de geada generalizada, antes de o ar frio começar a deixar o Brasil. São os Campos de Cima da Serra e o planalto catarinense, áreas elevadas onde o inverno sempre bateu mais forte.

Foi exatamente esse cenário que moldou a vida dos povos antigos da região. As elevadas regiões do planalto meridional são cortadas por ventos gelados e castigadas por invernos rigorosos, e quem morava ali há milhares de anos precisava de uma estratégia para não morrer de frio. A solução não veio de tecnologia importada, veio de observar a natureza: a terra, alguns metros abaixo da superfície, mantém uma temperatura muito mais estável do que o ar lá fora.

É essa continuidade que torna a história tão interessante para quem está tremendo de frio agora. A mesma geada que a arqueologia associa às antigas casas subterrâneas volta a cair, pontual, sobre Santa Catarina, como se o passado e o presente compartilhassem o mesmo termômetro.

A engenharia ancestral: a terra como aquecedor natural

A sacada dos antigos moradores do planalto era transformar o solo em isolante térmico. Em vez de erguer paredes contra o vento, eles escavavam a casa para dentro do chão, vários metros abaixo do nível da superfície, de modo que a terra ao redor barrasse o ar gelado e segurasse o calor. Por baixo, o frio do planalto perdia boa parte da força.

Sobre o poço cavado, erguia-se uma cobertura. A estrutura de madeira sustentava um teto de palha e folhas que protegia da chuva e do vento, enquanto um fogo interno aquecia o ambiente, com pequenas aberturas de ventilação para a fumaça sair sem deixar o calor escapar. Era, na prática, uma casa semienterrada pensada para o conforto térmico, séculos antes de alguém falar em eficiência energética.

E não eram abrigos improvisados de uma estação. Segundo reportagem do Jornal da USP, pesquisas arqueológicas mostram que essas casas subterrâneas eram ocupadas por gerações, ao longo de cerca de dois séculos cada uma, com reformas periódicas do piso de argila. Ou seja, eram lares duradouros, e não tocas temporárias.

Quem era o “Povo das Casas Subterrâneas”

Por trás dessas construções estão os chamados povos Proto-Jê do Sul do Brasil. De acordo com o Jornal da USP, eles são identificados por uma cultura material compartilhada, a tradição Taquara-Itararé, que reúne cerâmica, pedra trabalhada e arte rupestre, e são reconhecidos como ancestrais dos atuais grupos Jê do Sul, os Kaingang e os Xokleng. Não é folclore solto, é uma linhagem que chega aos povos indígenas de hoje.

Esses grupos ocuparam o planalto meridional por um tempo impressionante, espalhando suas aldeias semienterradas pela paisagem de araucárias. A floresta de pinheiros, aliás, era o ambiente preferido desses povos, e os sítios arqueológicos ligados a eles aparecem do interior de São Paulo até o Rio Grande do Sul, sempre associados a esse cenário de altitude e frio.

A imagem que a arqueologia monta é a de uma sociedade adaptada ao extremo. Enquanto a história costuma pintar o Brasil indígena apenas em chave tropical, os Kaingang e seus antepassados mostram um outro Brasil, de gente que enfrentava neve e geada e que respondeu a isso com uma solução de moradia tão simples quanto eficaz.

Centenas escondidas no planalto de Santa Catarina

O mais surpreendente é quantas dessas marcas continuam ali, à espera de quem souber olhar. Os arqueólogos já registraram centenas de depressões circulares no terreno do planalto sul, cada uma o vestígio de uma antiga casa subterrânea, e boa parte delas está em Santa Catarina. Quem passa por um campo de altitude pode estar pisando, sem saber, sobre uma aldeia milenar.

O trabalho de mapeamento tem nome e instituição. Conforme o Jornal da USP, o arqueólogo Rafael Corteletti, do Museu de Arqueologia e Etnologia da USP, e o pesquisador Jonas Gregorio de Souza, da Universidade de Exeter, estão entre os que reconstituíram a trajetória desses povos, em estudos que cobriram cerca de 200 quilômetros quadrados em quatro frentes de pesquisa no estado, incluindo a região de Urubici e Campo Belo do Sul, no alto da serra catarinense.

No fim, a lição atravessa o tempo. Numa semana em que o Sul se enrola em cobertor por causa da onda de frio, vale lembrar que a resposta dos antigos moradores de Santa Catarina ao mesmo problema, usar a terra como isolante, é praticamente um manual de bioconstrução que a engenharia moderna redescobre agora, em casas enterradas e telhados verdes.

onda de frio que congela o Sul nesta semana é um lembrete vivo de um problema antigo, e de uma solução genial que ficou enterrada, literalmente, no planalto de Santa Catarina. Os ancestrais dos Kaingang não tinham aquecedor, mas tinham a terra, e com ela construíram casas subterrâneas que a arqueologia ainda encontra às centenas.

E você, moraria numa casa enterrada para escapar do frio extremo, ou acha que essa sabedoria dos povos antigos ficou no passado? Conta aí nos comentários.

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Bruno Teles

Falo sobre tecnologia, inovação, petróleo e gás. Atualizo diariamente sobre oportunidades no mercado brasileiro. Com mais de 7.000 artigos publicados nos sites CPG, Naval Porto Estaleiro, Mineração Brasil e Obras Construção Civil. Sugestão de pauta? Manda no brunotelesredator@gmail.com

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