Em uma rede de 119 cavernas no Novo México, cientistas encontraram cianobactérias que usam luz fora do espectro visível para viver. A descoberta reforça a hipótese de vida em ambientes extremos e redefine onde procurar biossinais no Universo.
Em uma alcova totalmente escura no Parque Nacional das Cavernas de Carlsbad, no deserto de Chihuahua, no sul do Novo México, uma parede brilhou em verde iridescente. O que parecia improvável ganhou forma quando a bióloga de cavernas Hazel Barton, da Universidade do Alabama, e o microbiólogo Lars Behrendt, da Universidade de Uppsala, observaram cianobactérias aderidas à rocha. Naquele ambiente sem Sol, os micróbios realizavam fotossíntese no escuro.
Segundo Barton, o local “era verde brilhante” apesar da escuridão absoluta. A cena intriga porque a fotossíntese, em geral, depende da luz visível, mas ali a energia vinha de outra faixa do espectro. Para os pesquisadores, o achado amplia o horizonte da astrobiologia e indica que mundos iluminados por estrelas anãs vermelhas podem abrigar vida.
O parque, Patrimônio Mundial da Unesco, abriga cavernas formadas entre quatro e 11 milhões de anos pelo ácido sulfúrico que dissolveu o calcário. A principal atração é a caverna de Carlsbad, onde o Grande Salão mede quase 1.220 metros de comprimento por 191 metros de largura. Embora receba quase 350 mil visitantes por ano e tenha trechos com escadas e até acesso para cadeira de rodas, poucos conhecem o laboratório natural oculto nas sombras.
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Caverna turística vira laboratório natural e revela micróbios que usam luz invisível para nós
Behrendt concluiu o doutorado em 2018 e, com um prêmio acadêmico, financiou a ida a Carlsbad com Barton. Eles caminharam pela trilha dos turistas, viraram uma esquina e entraram em uma alcova completamente escura. Ao acenderem as lanternas, surgiram os pigmentos verdes dos micróbios agarrados à parede.
Exames mostraram que eram cianobactérias, organismos unicelulares que, como as plantas, fazem fotossíntese. A diferença é que, na caverna, elas não usavam a luz visível. Em vez da clorofila convencional, essas linhagens dependiam de versões especiais, adaptadas a outro tipo de radiação.
De acordo com Barton, conforme a equipe avançava para trechos onde “não se via a própria mão sem lanterna”, o pigmento verde seguia presente. O cenário eliminava a hipótese de luz solar direta e apontava para uma fonte energética mais sutil, porém abundante no ambiente subterrâneo.
Para Behrendt, a descoberta explica a persistência de biofilmes fotossintetizantes em pontos profundos e isolados do parque. Em visitas a outras cavernas fora do roteiro turístico, os pesquisadores relataram o mesmo padrão, reforçando que não se tratava de um caso isolado.
O papel do infravermelho próximo e do calcário, como a rocha vira um salão de espelhos
As cianobactérias de Carlsbad usam clorofila d e f, pigmentos capazes de capturar o infravermelho próximo, uma luz de comprimento de onda maior que a visível e imperceptível ao olho humano. Enquanto a luz visível penetra pouco nas cavernas, o infravermelho próximo se espalha melhor pelas paredes calcárias, que refletem essa radiação.
Segundo Barton, a rocha calcária “absorve quase toda a luz visível, mas para o infravermelho próximo as cavernas são como um salão de espelhos”. Medições no fundo da caverna, onde é mais escuro, detectaram níveis de infravermelho próximo 695 vezes mais concentrados que na entrada. Não por acaso, as comunidades com clorofila d e f se acumulavam nos trechos mais profundos.
Evidências se somam, de Vinogradskii a Yellowstone e ao mar, e consolidam a fotossíntese fora da luz visível
A ideia de micróbios prosperando sem luz comum não é nova. Em 1890, o microbiólogo Sergei Nikolaevich Vinogradskii demonstrou que certos micróbios vivem de matéria inorgânica por quimiossíntese, obtendo energia de reações químicas com compostos como metano e sulfeto de hidrogênio. Esses processos explicam ecossistemas inteiros longe do Sol.
No campo específico da fotossíntese além do visível, o pesquisador Hideaki Miyashita, durante pós-doutorado na Nasa, descreveu em 1996 a cianobactéria marinha Acaryochloris marina, capaz de usar luz visível e infravermelho próximo. O achado abriu uma frente de estudos sobre limites espectrais da fotossíntese.
Avanços vieram também em 2018, quando cientistas do Imperial College de Londres identificaram cianobactérias que realizam fotossíntese em condições de sombra extrema. Elas foram encontradas em esteiras bacterianas no Parque Nacional de Yellowstone, nos Estados Unidos, e no interior de rochas em praias da Austrália, e cresceram em laboratório sob LEDs de infravermelho.
Nesses experimentos, os micróbios alternavam a clorofila a para a faixa visível e a clorofila f para o infravermelho próximo. O padrão coincide com o observado em Carlsbad, onde a presença de clorofilas d e f nas zonas mais escuras indica adaptação fina ao espectro disponível.
Segundo Behrendt, as comunidades fotossintéticas em ambientes protegidos podem ter permanecido praticamente intocadas por cerca de 49 milhões de anos. Essa escala de tempo sugere resiliência ecológica em nichos estáveis e fortalece a ideia de que ambientes subterrâneos preservam pistas valiosas sobre a evolução microbiana.
Implicações para exoplanetas, por que anãs vermelhas e mundos escuros entram no mapa da vida
Estrelas anãs vermelhas, as mais comuns da galáxia, emitem proporcionalmente mais luz no infravermelho próximo. Se cianobactérias conseguem explorá-la em cavernas terrestres, cresce a chance de ecossistemas fotossintéticos funcionarem em exoplanetas com iluminação fraca ou filtrada. Para a astrobiologia, isso amplia o catálogo de ambientes potencialmente habitáveis.
Além disso, cavernas em outros mundos podem proteger micróbios de radiação e variações térmicas, reproduzindo a estabilidade vista em Carlsbad. A combinação de rochas que refletem o infravermelho e pigmentos como clorofila d e f criaria bolsões de energia suficientes para sustentar cadeias simples de vida, um alvo concreto para futuras missões e telescópios.
De acordo com as evidências reunidas por equipes universitárias nos Estados Unidos, na Europa e na Austrália, a fotossíntese não depende exclusivamente da luz visível. Ao cruzar dados de campo, medições espectrais e cultivo em LEDs, os estudos desenham um quadro coerente de como micróbios captam energia onde a visão humana enxerga apenas escuridão.
Em termos práticos, isso impacta a busca por biossinais em atmosferas e superfícies de exoplanetas. Estratégias de detecção precisam considerar assinaturas espectrais deslocadas para o infravermelho e possíveis biofilmes em cavernas ou sob rochas, onde a luz visível é rara, mas a energia refletida no infravermelho próximo persiste.
As cavernas de Carlsbad, com acesso simples e infraestrutura turística, mostram como locais visitáveis podem abrigar ciência de fronteira. Enquanto turistas percorrem degraus e passarelas, a poucos metros comunidades invisíveis aprimoram há milhões de anos a arte de transformar luz oculta em vida.
O que você acha dessa descoberta desafiar o senso comum sobre onde a vida pode existir? Os micróbios de Carlsbad aumentam a chance de encontrarmos biossinais sob estrelas anãs vermelhas ou em cavernas de outros mundos, ou isso ainda é otimismo em excesso? Deixe seu comentário e debata a força dessa evidência, os limites da fotossíntese no escuro e como ela deve guiar a próxima geração de buscas por vida fora da Terra.

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