A tentativa de reduzir os gastos com combustíveis foi interrompida pela nova pressão externa sobre o petróleo, levando o governo a preservar uma subvenção estimada em R$ 1,2 bilhão por mês enquanto calcula os riscos para inflação, abastecimento e preços pagos pelos motoristas.
A guerra mudou os planos.
O governo se preparava para começar a desmontar as medidas criadas para conter a alta dos combustíveis quando o petróleo voltou a subir no mercado internacional. Com o barril novamente próximo de US$ 80, a retirada do benefício concedido à gasolina foi adiada.
O valor mantido é de R$ 0,44 por litro de gasolina A, combustível puro vendido às distribuidoras antes da mistura com etanol. Na comparação com os R$ 2,61 cobrados pela Petrobras, o benefício equivale a quase 17% do preço nas refinarias.
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Ao mesmo tempo, o governo decidiu manter por mais 60 dias o Imposto de Exportação de 12% sobre o petróleo bruto. A medida atinge empresas que vendem parte da produção brasileira para outros países e já provocou reação entre grandes petroleiras.
Petróleo voltou a subir quando retirada estava sendo preparada

A equipe econômica vinha avaliando a redução gradual dos incentivos depois que o petróleo Brent recuou para aproximadamente US$ 72 por barril. A queda abriu espaço para diminuir o custo das medidas sem provocar uma pressão imediata sobre gasolina e diesel.
O cenário, porém, mudou rapidamente.
Com novos ataques envolvendo Estados Unidos e Irã e ameaças relacionadas ao Estreito de Ormuz, o Brent retornou à faixa de US$ 78 a US$ 80. A região é estratégica para o transporte mundial de petróleo, e qualquer risco de interrupção aumenta preços, fretes e seguros.
Segundo o Poder360, o ministro da Fazenda, Dario Durigan, afirmou que o mercado passou a ser acompanhado diariamente. O governo poderá retirar, reduzir ou manter o benefício, dependendo da evolução da crise e da cotação internacional.
Benefício de R$ 0,44 conteve reajuste nas refinarias
A subvenção da gasolina foi regulamentada em maio de 2026 e destinada a produtores e importadores. Para receber o pagamento, as empresas precisam demonstrar que o valor foi descontado do preço cobrado na comercialização do combustível.
O mecanismo ficou evidente no reajuste anunciado pela Petrobras no fim de maio.
A estatal calculou um aumento bruto de cerca de R$ 0,48 por litro na gasolina A. Depois da aplicação do benefício de R$ 0,44, o reajuste líquido ficou limitado a R$ 0,04 por litro nas refinarias.
Nas bombas, entretanto, o consumidor não recebe automaticamente um desconto de R$ 0,44. A gasolina vendida nos postos contém etanol anidro, e o preço final também inclui ICMS, transporte, estoques e margens de distribuidoras e revendedores.
A Band destacou que o efeito percebido pelos motoristas foi menor que o valor nominal da subvenção. Mesmo assim, a retirada do benefício em um momento de petróleo mais caro poderia criar uma nova pressão sobre os preços.
Imposto de 12% continuará atingindo petróleo exportado
Enquanto preservou o apoio à gasolina, o governo decidiu manter o Imposto de Exportação de 12% sobre o petróleo bruto por mais 60 dias, a partir de 10 de julho de 2026.
A cobrança ajuda a compensar parte do custo dos subsídios e reduz a vantagem de direcionar a produção ao mercado externo durante um período de instabilidade. Quando o barril é exportado por US$ 80, por exemplo, a alíquota representa US$ 9,60 em imposto.
O setor privado contesta essa estratégia. Petroleiras afirmam que a cobrança reduz a rentabilidade dos projetos, aumenta a insegurança jurídica e pode afastar novos investimentos no país.
Shell, TotalEnergies, PRIO e Repsol aparecem entre as empresas que se opuseram à medida. A Petrobras, que também exporta petróleo e será afetada pelo imposto, adotou posição favorável.
Governo tenta conter preços sem ampliar rombo fiscal
O custo estimado do benefício à gasolina é de R$ 1,2 bilhão por mês. No período inicial de dois meses, a previsão chegava a R$ 2,4 bilhões.
Manter essa despesa por mais tempo protege temporariamente o consumidor, mas aumenta a pressão sobre as contas públicas. Por isso, a cobrança sobre o petróleo exportado tornou-se uma peça central da estratégia econômica.
O governo tenta atravessar uma combinação difícil: petróleo em alta, risco de inflação, combustíveis sensíveis ao câmbio e empresas pressionando contra novos tributos.
A decisão revela que uma guerra travada a milhares de quilômetros pode alterar rapidamente o preço calculado nas refinarias brasileiras, a arrecadação federal e o orçamento de milhões de motoristas. O benefício pode ser temporário, mas a disputa sobre quem deve pagar pela instabilidade internacional está longe de terminar.
