Fundação japonesa já atuou em cerca de dez países, mas o Vietnã segue sendo o destino mais visitado pela equipe desde o início da missão voluntária, em 1993
Em um canto tranquilo do Delta do Mekong, no Vietnã, uma equipe de médicos, dentistas e enfermeiros japoneses realiza, há 34 anos, uma missão voluntária para oferecer cirurgias gratuitas a pessoas nascidas com lábio leporino ou fenda palatina. Segundo reportagem do The Japan Times, com informações do Chunichi Shimbun, neste ano a Japan Cleft Palate Foundation — organização sem fins lucrativos sediada em Nagoya — enviou uma equipe de 58 profissionais de saúde de diferentes regiões do Japão para a província rural de Vinh Long, a cerca de 90 quilômetros ao sul de Ho Chi Minh, entre os dias 21 e 29 de março.
34 anos de missão: como a força-tarefa japonesa atua no Vietnã
Depois de enfrentar o trânsito da cidade e atravessar o rio Mekong em um trajeto de três horas, os membros da equipe chegaram ao Hospital Geral Nguyen Dinh Chieu, uma unidade com 1.400 leitos que serve de base para a missão anual dos japoneses.
Para Natsume, de 69 anos, diretor executivo da fundação e professor da Escola de Odontologia da Universidade Aichi Gakuin, em Nagoya, o Vietnã já é como um segundo lar — um sentimento que, segundo ele, se renova a cada nova viagem ao país. A fundação já realizou missões internacionais em cerca de dez países, incluindo Mianmar, Mongólia e Laos, mas o Vietnã segue sendo o destino mais visitado pela equipe.
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A missão voluntária no país começou em 1993, atendendo a um pedido de moradores locais que haviam ouvido falar das atividades internacionais da fundação. Na época, o Vietnã contava com poucos especialistas em tratamento de fissuras labiopalatinas e dependia fortemente de apoio técnico estrangeiro.
No Japão, pessoas nascidas com lábio leporino ou fenda palatina costumam levar uma vida normal, desde que recebam o tratamento adequado da infância à adolescência. Em muitos países em desenvolvimento, porém, o tratamento costuma ser adiado por dificuldades financeiras e pelo acesso limitado a cuidados especializados — o que faz com que alguns pacientes cheguem à vida adulta sem operar, podendo resultar em discriminação no mercado de trabalho e no casamento.
Ao longo de décadas de atuação, os cirurgiões bucomaxilofaciais japoneses — profissionais altamente qualificados — já realizaram com sucesso mais de 3.000 cirurgias no Vietnã. Muitos pacientes vietnamitas e suas famílias aguardam ansiosamente a visita anual da equipe.
Na tarde do dia 22 de março, com temperaturas acima de 30°C, a equipe japonesa transformou um corredor do hospital em uma clínica improvisada de triagem. Mesas, cadeiras e ventiladores elétricos foram distribuídos pelo corredor enquanto cerca de 50 famílias se reuniam na esperança de que seus filhos pudessem finalmente ser operados.
Pais e pacientes expressaram suas esperanças um após o outro — alguns pediam que não restasse cicatriz visível, outros apenas queriam melhorar a própria aparência. Natsume examinou cuidadosamente cada paciente, avaliando as condições bucais e a saúde geral antes de decidir se a cirurgia poderia ser realizada.
Na manhã seguinte, o trabalho começou às 7h em três salas cirúrgicas equipadas com instrumentos trazidos do Japão. Cirurgiões bucomaxilofaciais e enfermeiros operaram os pacientes enquanto médicos japoneses mais jovens e estudantes observavam para aprender as técnicas especializadas.
Em uma das salas, um cirurgião marcou as linhas de incisão ao redor do lábio superior de um menino de 5 anos, sob anestesia geral. Com precisão meticulosa, a equipe reparou músculos e tecidos que haviam permanecido separados desde o nascimento. Três horas depois, o menino acordou e foi levado a uma sala de recuperação, onde a mãe esperava ansiosa. O pediatra Reizo Baba, professor de 69 anos da Universidade Chubu, recebeu o garoto com um sorriso tranquilizador, garantindo que estava tudo bem. Ao final do primeiro dia, oito cirurgias haviam sido concluídas.
O drama das famílias vietnamitas e o caso da pequena história de Le Thi Be Trang
Lábio leporino e fenda palatina são condições congênitas que ocorrem quando partes do rosto do feto não se fundem completamente durante a gestação, deixando uma abertura no lábio, no palato ou em ambos. A condição pode afetar a alimentação, o desenvolvimento da fala e a audição, e acredita-se que ocorra em aproximadamente 1 a cada 500 a 700 nascimentos — sendo mais comum na Ásia do que na Europa ou na América do Norte.
Entre os pacientes atendidos pela equipe japonesa neste ano estava um menino de apenas 3 meses. Sua mãe, Le Thi Be Trang, de 31 anos, ficou visivelmente aliviada depois que a cirurgia do filho terminou com sucesso.
“Correu tudo bem. Estou muito grata”, disse ela, encostando o rosto no filho adormecido logo após a operação.
Durante o exame pré-natal, os médicos haviam descoberto que o bebê teria lábio leporino e fenda palatina. Parentes do lado paterno chegaram a pressionar a família para que interrompesse a gravidez.
Le e o marido vivem do cultivo de frutas, e as finanças da família são apertadas. Ainda assim, ela decidiu seguir com a gestação, temendo não conseguir arcar com o tratamento — e afirmou se sentir profundamente grata por médicos japoneses terem realizado a cirurgia gratuitamente.
No Vietnã, os avanços no diagnóstico pré-natal reduziram o número de bebês nascidos com condições congênitas visíveis. Muitos pais optam pelo aborto ao saber que o filho terá uma fissura labiopalatina, frequentemente por causa de sistemas de apoio médico insuficientes e da crença equivocada de que a condição não pode ser corrigida. Mesmo quando os casais decidem seguir com a gravidez, o acesso ao tratamento continua sendo um desafio nas áreas rurais do país.
Microcrédito e o desafio de manter o tratamento acessível no interior do Vietnã
Enquanto as grandes cidades vietnamitas vivem um rápido crescimento econômico, muitas áreas rurais ainda enfrentam escassez de médicos e de cuidados especializados. O Hospital Geral Nguyen Dinh Chieu é a única unidade da região capaz de tratar lábio leporino e fenda palatina — e conta com apenas um cirurgião bucomaxilofacial, Tran Le Duy, de 41 anos.
Tran estudou por quatro anos, a partir de 2015, na Escola de Odontologia da Universidade Aichi Gakuin, período em que ganhou experiência cirúrgica. Ainda assim, desde que retornou ao Vietnã há mais de cinco anos, realizou apenas cerca de 20 cirurgias de fissura labiopalatina por conta própria. O número de pacientes que procuram tratamento no hospital caiu para aproximadamente metade dos níveis registrados antes da pandemia de Covid-19.
Segundo Tran, famílias com recursos financeiros costumam optar por hospitais de grande porte nas áreas urbanas, enquanto pacientes de regiões rurais enfrentam mais dificuldade para receber tratamento especializado de longo prazo. Na província de Vinh Long, o salário mínimo mensal é inferior à metade do custo de uma internação hospitalar — e despesas com remédios, alimentação e transporte tornam o tratamento ainda mais inacessível para famílias de baixa renda.
Como integrante da própria Japan Cleft Palate Foundation, Tran costuma orientar os pacientes a aguardar a missão médica anual dos japoneses como uma das alternativas mais viáveis.
Para ajudar famílias que hesitam em buscar tratamento por causa de restrições financeiras, a fundação mantém, desde 1997, um programa de microcrédito com juros de cerca de 0,7% ao mês. Segundo uma associação local de mulheres que administra o programa, mais de 1.200 pessoas já foram beneficiadas. Ao longo de 29 anos, o fundo cresceu para mais de 800 milhões de dongs vietnamitas (cerca de ¥4,8 milhões), ampliando sua capacidade de apoiar famílias de baixa renda.
Nesta primavera, com o objetivo de reduzir o número de abortos relacionados a fissuras labiopalatinas, a fundação também introduziu um novo incentivo: famílias cujos filhos foram tratados pela missão médica japonesa passam a ter direito a um limite maior de empréstimo.
Ao observar os rostos sorridentes de pais e filhos após as cirurgias bem-sucedidas, Natsume resumiu o propósito por trás de décadas de trabalho voluntário: o desejo de que mais crianças possam crescer sentindo-se felizes por terem nascido.
