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Vender gás de cozinha em porções menores e encher botijões de qualquer marca são propostas em análise na ANP que dividem o setor, com revendedores prometendo preços mais baratos ao consumidor e o Ministério de Minas e Energia alertando para riscos de fraude e infiltração de facções no mercado

Escrito por Bruno Teles
Publicado em 29/05/2026 às 22:12
Atualizado em 29/05/2026 às 22:17
Venda fracionada e fim das marcas no gás de cozinha dividem a ANP: revendedores prometem preço menor e o MME alerta para fraude e infiltração de facções.
Venda fracionada e fim das marcas no gás de cozinha dividem a ANP: revendedores prometem preço menor e o MME alerta para fraude e infiltração de facções.
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De um lado, a promessa de comprar só meio botijão e gastar menos, com mais empresas competindo. De outro, o temor de que botijões sem dono fixo virem terra de ninguém, abrindo brecha para adulteração, acidentes e até crime organizado. A decisão sobre abrir o debate à sociedade estava prevista para esta sexta-feira.

Vender gás de cozinha em porções menores e permitir que distribuidoras encham botijões de qualquer marca são propostas em análise na Agência Nacional do Petróleo, a ANP, que dividem profundamente o setor. De um lado, revendedores e parte da agência prometem preços mais baratos ao consumidor; de outro, o Ministério de Minas e Energia alerta para riscos de fraude e até de infiltração de facções criminosas no mercado.

O embate ganhou força em 29 de maio de 2026, quando a diretoria da ANP se reuniu para decidir se submetia as novas regras a consultas e audiências públicas. Dias antes, o Ministério de Minas e Energia, o MME, havia enviado à agência um ofício de 14 páginas questionando a revisão, sob o argumento de que as mudanças poderiam comprometer a segurança do consumidor e ameaçar o programa social Gás do Povo, uma das principais bandeiras do governo Lula.

O que está em discussão na ANP

A reforma do mercado de GLP, sigla para gás liquefeito de petróleo, o nosso gás de cozinha, prevê um conjunto de seis medidas, sendo duas as mais polêmicas. A primeira é o enchimento fracionado, que permitiria vender cargas menores que o botijão cheio de 13 quilos; a segunda é o chamado open access, que acabaria com a exclusividade de marca e deixaria qualquer distribuidora autorizada encher o botijão de qualquer outra.

Além dessas, estão na mesa novas diretrizes para o abastecimento de regiões deficitárias, a liberação de novos usos do GLP, como em caldeiras, saunas, aquecimento de piscinas e motores que não sejam de carros, e o fim da vinculação obrigatória entre distribuidores e revendedores. O processo está sob relatoria do diretor Daniel Maia e tem origem em um relatório de análise de impacto regulatório que vem sendo discutido desde 2024.

O argumento de quem defende a mudança

Para os defensores das propostas, entre eles parte da própria ANP e a Abragás, associação que reúne empresas de menor porte, a flexibilização traria mais concorrência e preços menores. O raciocínio central é logístico: permitir que botijões de qualquer marca sejam enchidos por empresas locais reduziria os custos de transporte, hoje altos porque os vasilhames precisam voltar vazios às bases de suas próprias marcas.

O Brasil tem cerca de 189 bases de distribuição de GLP, segundo a ANP, a maioria concentrada no Sul e no Sudeste, enquanto no Norte, Nordeste e Centro-Oeste elas se restringem praticamente às capitais. Os defensores argumentam que, com o open access, empresas menores poderiam abrir bases em locais hoje mal atendidos, encurtando distâncias e baixando o preço final do botijão para o consumidor, sobretudo no interior do país.

O alerta do governo e das distribuidoras

Do lado oposto, o MME, as grandes distribuidoras e o Sindigás, sindicato que as representa, veem riscos sérios. No ofício enviado à ANP, assinado pelo secretário nacional de Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis, Renato Cabral Dias Dutra, o ministério afirma que as mudanças tensionam a rastreabilidade, a responsabilização das empresas e a segurança do consumidor, podendo abrir espaço para fraudes, adulterações e até para o crime organizado.

O presidente do Sindigás, Sérgio Bandeira de Mello, defende que a marca estampada no botijão é o principal instrumento de rastreabilidade e de responsabilização em caso de acidente, já que se trata de um equipamento pressurizado e perigoso. Para ele, sem o vínculo entre marca e conteúdo, ficaria difícil saber quem responde por um botijão defeituoso. As grandes distribuidoras, como Copa Energia, Nacional Gás, Supergasbras, Ultragaz e Consigaz, ameaçam frear investimentos bilionários previstos em novos botijões caso as regras mudem.

O choque com o programa Gás do Povo

Um dos pontos centrais do ofício do MME é jurídico. O ministério sustenta que as propostas da ANP entram em conflito com a Lei 15.348, de 2026, que criou o programa Gás do Povo, sancionada pelo presidente Lula em fevereiro, e que determina que os botijões sejam vendidos lacrados, cheios e com selo de inviolabilidade, para evitar fraudes na distribuição do gás subsidiado a famílias de baixa renda.

O MME também cita a Resolução nº 3 do Conselho Nacional de Política Energética, o CNPE, que reforça a venda do botijão com carga total. Na prática, segundo fontes do setor ouvidas pela imprensa, o ministério usa esses dispositivos para pedir que a ANP retire ou suspenda os temas mais polêmicos do debate regulatório, alegando que eles seriam incompatíveis com a legislação já em vigor. É um raro embate público entre o governo e uma agência reguladora que deveria ter autonomia.

O fantasma do crime organizado

O temor da infiltração de facções é um dos argumentos mais fortes dos críticos, e ganhou respaldo acadêmico. Um estudo da Universidade de São Paulo, a USP, alerta que as mudanças em análise abririam espaço para a entrada de organizações criminosas na distribuição de GLP, comparando o cenário ao de outros países da região, como o México, com mais de 17 mil barris de combustível roubados por dia, e o Paraguai, onde mais de 80% dos vasilhames estariam vencidos.

Segundo o trabalho da USP, a combinação de um mercado atrativo com a limitada capacidade de fiscalização da ANP criaria um ambiente propício à expansão do crime organizado. O estudo recomenda que, antes de qualquer mudança, sejam estruturados mecanismos permanentes de cooperação entre Polícia Federal, Receita Federal, Ministério Público e Coaf, citando inclusive operações recentes contra fraudes no setor de combustíveis. Vale lembrar que esse risco é apresentado como alerta e projeção pelos críticos, e não como um fato já consumado.

Um mercado gigante e concentrado

Para entender o tamanho do que está em jogo, basta olhar os números. O mercado brasileiro de gás de cozinha é o sexto maior do mundo, com cerca de 400 milhões de botijões comercializados por ano, movimentando bilhões de reais e presente em praticamente todos os lares do país.

Desde que a Petrobras deixou a distribuição, com a venda da Liquigás, o setor ficou bastante concentrado: cinco empresas detêm quase 96% do mercado, lideradas por Copagaz, Ultragaz, Nacional Gás, Supergasbras e Consigaz, segundo o Sindigás. Críticos das regras atuais argumentam que essa concentração justamente sustenta preços altos, enquanto as distribuidoras afirmam que a estrutura atual é o que garante segurança e rastreabilidade. O debate, portanto, mistura interesses econômicos legítimos de todos os lados.

O que muda para o consumidor

No centro de toda a discussão está o brasileiro que precisa comprar o botijão todo mês. Se as mudanças forem aprovadas, a promessa é de preços menores e da possibilidade de comprar apenas a quantidade de gás que cabe no bolso naquele momento, em vez de desembolsar o valor do botijão cheio de uma só vez, o que pode aliviar o orçamento de famílias de baixa renda.

Por outro lado, se os temores dos críticos se confirmarem, o consumidor poderia ficar exposto a botijões adulterados, mal cheios ou inseguros, com menos clareza sobre quem responsabilizar em caso de acidente. É esse equilíbrio entre economia e segurança que a ANP, o governo e a sociedade terão de pesar nas próximas etapas, que incluem consultas e audiências públicas, caso o tema avance.

A disputa sobre a venda fracionada e o fim das marcas no gás de cozinha é um daqueles debates que parecem técnicos, mas chegam diretamente à cozinha de milhões de brasileiros. De um lado, a promessa de mais concorrência e preços menores; de outro, o alerta sobre segurança, fraude e crime organizado. Não há vilões óbvios: há interesses econômicos, argumentos legítimos e riscos reais nos dois lados. O desfecho dependerá de como a ANP, o governo e os órgãos de controle vão equilibrar a economia no bolso com a segurança de um produto que, mal manuseado, pode ser perigoso.

E você, o que acha da ideia de poder comprar gás de cozinha fracionado e mais barato? Vale o risco de flexibilizar as regras, ou a segurança do botijão lacrado deve falar mais alto? Deixe seu comentário, conte como o preço do gás pesa no seu orçamento e compartilhe a matéria com quem também sente o impacto do botijão no fim do mês.

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Bruno Teles

Falo sobre tecnologia, inovação, petróleo e gás. Atualizo diariamente sobre oportunidades no mercado brasileiro. Com mais de 7.000 artigos publicados nos sites CPG, Naval Porto Estaleiro, Mineração Brasil e Obras Construção Civil. Sugestão de pauta? Manda no brunotelesredator@gmail.com

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