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O etanol de milho atrai R$ 23 bilhões em 21 novas usinas e prepara um salto de quase 50% na produção brasileira até 2027, mesmo com os juros nas alturas

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Escrito por Paulo Nogueira Publicado em 09/07/2026 às 19:18 Atualizado em 09/07/2026 às 19:20
O etanol de milho atrai R$ 23 bilhões em 21 novas usinas e prepara um salto de quase 50% na produção brasileira até 2027
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Poucos setores desafiam os juros altos como o etanol de milho. Mesmo com o custo do dinheiro nas alturas, os projetos de novas usinas anunciados no Brasil já somam R$ 23 bilhões em 21 unidades e prometem um salto de quase 50% na produção do país até a safra 2026/27.

O levantamento é do Itaú BBA e desenha um mapa impressionante: 12 usinas em construção e 9 em planejamento, que juntas vão consumir 14 milhões de toneladas de grãos por ano. Somando o capital de giro necessário, o investimento esperado chega perto de R$ 28 bilhões. É dinheiro grande entrando num momento em que a Selic elevada deveria, em tese, congelar aportes desse porte. Só entre 2025 e 2027, o desembolso previsto passa de R$ 15 bilhões.

Usina de etanol de milho em construção no Centro-Oeste brasileiro
São 21 novas usinas anunciadas, entre unidades em obras e em planejamento.

O que faz o investimento acontecer mesmo com juro alto

O gatilho tem nome: margem. “O que levou as companhias a decidirem por novos investimentos foi a queda do preço do milho neste ano, que ampliou as margens”, explicou Guilherme Theodoro, gerente de crédito do Itaú BBA. Com a segunda safra, a famosa safrinha, despejando milho barato no Centro-Oeste, a matéria-prima ficou abundante justamente perto de onde as usinas querem se instalar.

E o milho tem uma vantagem estrutural sobre a cana que muda o jogo. O grão é estocável: dá para guardar e produzir etanol o ano inteiro, sem a sazonalidade da colheita canavieira. Cada tonelada rende de 380 a 410 litros de etanol, e o processo entrega ainda os subprodutos que ajudam a pagar a conta, como o DDG, ração animal rica em proteína, o óleo de milho e o biogás gerado a partir da biomassa. Cada tonelada de grão vira etanol, comida e energia ao mesmo tempo. A gente vê poucas cadeias tão eficientes em transformar um único insumo em três receitas.

O efeito na geografia produtiva é radical. Municípios como Sorriso, no Mato Grosso, já produzem mais etanol do que o tradicional polo canavieiro de Ribeirão Preto. O que era coadjuvante da soja virou motor de uma nova indústria energética no coração do agronegócio, e a lógica é simples: onde há grão barato e sobrando, aparece uma usina para transformá-lo em combustível.

O mapa do dinheiro e os nomes por trás

A geografia do boom segue o milho. Mato Grosso lidera disparado, seguido por Goiás e Paraná, com fronteiras avançando pelo MATOPIBA. Entre os grandes nomes, a Inpasa anunciou cerca de R$ 3,5 bilhões em novas plantas no Mato Grosso e a primeira unidade em Goiás. A FS Bioenergia coloca R$ 2 bilhões na quarta fábrica em Campo Novo do Parecis, o Grupo Potencial investe R$ 2 bilhões no Paraná e a São Martinho amplia sua unidade em Quirinópolis. Coamo, 3Tentos, Be8 e Cerradinho engrossam a lista.

Planta industrial de etanol de milho com tanques e silos
A oferta de etanol de cereais deve saltar de 8,2 para 12,1 bilhões de litros até 2026/27.

“Tivemos um paradigma de que o milho só fazia safrinha para a soja. O Paraná é o segundo maior produtor de milho do Brasil, temos matéria-prima em abundância”, contou Carlos Eduardo Hammerschmidt, vice-presidente do Grupo Potencial. O resultado consolidado é expressivo: a oferta total de etanol de cereais deve subir de 8,2 bilhões de litros na safra 2024/25 para 12,1 bilhões em 2026/27, alta de quase 50%.

Onde os juros ainda mordem

Nem tudo é aceleração. O mesmo levantamento aponta 11 projetos, cerca de R$ 7 bilhões, que ficaram na fila esperando condições melhores de financiamento. É a prova concreta de que o custo do capital pesa, só não foi suficiente para travar o bloco principal. Além disso, as novas usinas ainda precisam investir até R$ 7 bilhões em biomassa e cogeração de energia, um custo extra que também vira receita no fim da linha.

Por trás da demanda de longo prazo estão o aumento da mistura de etanol na gasolina, a Lei do Combustível do Futuro, que prevê teor de até 35%, e os créditos de descarbonização do RenovaBio. O etanol de milho “era tratado como um nicho e agora é um player robusto no mercado”, define Guilherme Nolasco, presidente da União Nacional do Etanol de Milho. Ele já responde por mais de um quarto de todo o etanol brasileiro, uma fatia impensável há poucos anos.

Do lado da demanda, o vento sopra a favor. A mistura obrigatória de etanol na gasolina subiu para 30%, e a imensa frota flex brasileira garante escoamento constante para o combustível. Os coprodutos ampliam o alcance: o DDG abastece a pecuária de corte e leite bem na região onde o gado se concentra, e parte da produção já mira a exportação. É um arranjo em que a usina não depende de uma única receita para fechar as contas, o que reduz o risco num setor historicamente volátil. Essa diversificação de receita é justamente o que dá segurança ao investidor para bancar a obra mesmo com o crédito caro, e explica por que tanta gente aposta no grão num momento de juros hostis.

Se as usinas na fila destravarem quando os juros cederem, o número de R$ 23 bilhões vira apenas o primeiro capítulo. A visão do setor fala em R$ 40 bilhões ao longo da década, com o parque saltando de 25 para mais de 33 biorrefinarias. Confesso que acompanhar essa virada é ver o mapa energético do país sendo redesenhado no interior do Centro-Oeste, longe dos holofotes. O grão que antes era só coadjuvante da soja virou protagonista de uma corrida bilionária, e o Brasil ganhou uma nova fábrica de combustível que roda o ano inteiro.

O etanol de milho vai destronar a cana como principal fonte do biocombustível brasileiro?

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Paulo Nogueira

Técnico em Elétrica desde 2008, formado pelo Instituto Federal Fluminense (IFF), antigo CEFET, uma das mais tradicionais instituições de ensino técnico do Brasil. Atuou por diversos anos nas áreas de petróleo e gás offshore, energia e construção, experiência que hoje aplica na produção de conteúdo especializado sobre o setor energético. Com mais de 8 mil publicações em revistas e portais online, dedica-se à cobertura do mercado de trabalho, petróleo e gás, energia, economia, renováveis e empreendedorismo. Para dúvidas, sugestões ou correções, entre em contato pelo e-mail paulohsnogueira@gmail.com. Este canal não recebe currículos.

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