Poucos setores desafiam os juros altos como o etanol de milho. Mesmo com o custo do dinheiro nas alturas, os projetos de novas usinas anunciados no Brasil já somam R$ 23 bilhões em 21 unidades e prometem um salto de quase 50% na produção do país até a safra 2026/27.
O levantamento é do Itaú BBA e desenha um mapa impressionante: 12 usinas em construção e 9 em planejamento, que juntas vão consumir 14 milhões de toneladas de grãos por ano. Somando o capital de giro necessário, o investimento esperado chega perto de R$ 28 bilhões. É dinheiro grande entrando num momento em que a Selic elevada deveria, em tese, congelar aportes desse porte. Só entre 2025 e 2027, o desembolso previsto passa de R$ 15 bilhões.

O que faz o investimento acontecer mesmo com juro alto
O gatilho tem nome: margem. “O que levou as companhias a decidirem por novos investimentos foi a queda do preço do milho neste ano, que ampliou as margens”, explicou Guilherme Theodoro, gerente de crédito do Itaú BBA. Com a segunda safra, a famosa safrinha, despejando milho barato no Centro-Oeste, a matéria-prima ficou abundante justamente perto de onde as usinas querem se instalar.
E o milho tem uma vantagem estrutural sobre a cana que muda o jogo. O grão é estocável: dá para guardar e produzir etanol o ano inteiro, sem a sazonalidade da colheita canavieira. Cada tonelada rende de 380 a 410 litros de etanol, e o processo entrega ainda os subprodutos que ajudam a pagar a conta, como o DDG, ração animal rica em proteína, o óleo de milho e o biogás gerado a partir da biomassa. Cada tonelada de grão vira etanol, comida e energia ao mesmo tempo. A gente vê poucas cadeias tão eficientes em transformar um único insumo em três receitas.
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O efeito na geografia produtiva é radical. Municípios como Sorriso, no Mato Grosso, já produzem mais etanol do que o tradicional polo canavieiro de Ribeirão Preto. O que era coadjuvante da soja virou motor de uma nova indústria energética no coração do agronegócio, e a lógica é simples: onde há grão barato e sobrando, aparece uma usina para transformá-lo em combustível.
O mapa do dinheiro e os nomes por trás
A geografia do boom segue o milho. Mato Grosso lidera disparado, seguido por Goiás e Paraná, com fronteiras avançando pelo MATOPIBA. Entre os grandes nomes, a Inpasa anunciou cerca de R$ 3,5 bilhões em novas plantas no Mato Grosso e a primeira unidade em Goiás. A FS Bioenergia coloca R$ 2 bilhões na quarta fábrica em Campo Novo do Parecis, o Grupo Potencial investe R$ 2 bilhões no Paraná e a São Martinho amplia sua unidade em Quirinópolis. Coamo, 3Tentos, Be8 e Cerradinho engrossam a lista.

“Tivemos um paradigma de que o milho só fazia safrinha para a soja. O Paraná é o segundo maior produtor de milho do Brasil, temos matéria-prima em abundância”, contou Carlos Eduardo Hammerschmidt, vice-presidente do Grupo Potencial. O resultado consolidado é expressivo: a oferta total de etanol de cereais deve subir de 8,2 bilhões de litros na safra 2024/25 para 12,1 bilhões em 2026/27, alta de quase 50%.
Onde os juros ainda mordem
Nem tudo é aceleração. O mesmo levantamento aponta 11 projetos, cerca de R$ 7 bilhões, que ficaram na fila esperando condições melhores de financiamento. É a prova concreta de que o custo do capital pesa, só não foi suficiente para travar o bloco principal. Além disso, as novas usinas ainda precisam investir até R$ 7 bilhões em biomassa e cogeração de energia, um custo extra que também vira receita no fim da linha.
Por trás da demanda de longo prazo estão o aumento da mistura de etanol na gasolina, a Lei do Combustível do Futuro, que prevê teor de até 35%, e os créditos de descarbonização do RenovaBio. O etanol de milho “era tratado como um nicho e agora é um player robusto no mercado”, define Guilherme Nolasco, presidente da União Nacional do Etanol de Milho. Ele já responde por mais de um quarto de todo o etanol brasileiro, uma fatia impensável há poucos anos.
Do lado da demanda, o vento sopra a favor. A mistura obrigatória de etanol na gasolina subiu para 30%, e a imensa frota flex brasileira garante escoamento constante para o combustível. Os coprodutos ampliam o alcance: o DDG abastece a pecuária de corte e leite bem na região onde o gado se concentra, e parte da produção já mira a exportação. É um arranjo em que a usina não depende de uma única receita para fechar as contas, o que reduz o risco num setor historicamente volátil. Essa diversificação de receita é justamente o que dá segurança ao investidor para bancar a obra mesmo com o crédito caro, e explica por que tanta gente aposta no grão num momento de juros hostis.
Se as usinas na fila destravarem quando os juros cederem, o número de R$ 23 bilhões vira apenas o primeiro capítulo. A visão do setor fala em R$ 40 bilhões ao longo da década, com o parque saltando de 25 para mais de 33 biorrefinarias. Confesso que acompanhar essa virada é ver o mapa energético do país sendo redesenhado no interior do Centro-Oeste, longe dos holofotes. O grão que antes era só coadjuvante da soja virou protagonista de uma corrida bilionária, e o Brasil ganhou uma nova fábrica de combustível que roda o ano inteiro.
O etanol de milho vai destronar a cana como principal fonte do biocombustível brasileiro?
