Num único fórum da indústria de defesa da OTAN realizado em Ancara, na Turquia, os países aliados assinaram de uma só vez mais de US$ 10 bilhões em contratos de mísseis, drones de vigilância e aviões-radar, enquanto o Brasil segue investindo apenas 1,1% do seu PIB em defesa, com a maior parte desse dinheiro sumindo em salários e aposentadorias.
O contraste é daqueles que doem de olhar. Do outro lado do Atlântico, uma aliança militar fecha em um dia o equivalente a bilhões em poder de fogo. Aqui, o sistema de defesa do próprio céu ainda engatinha, preso a um orçamento que mal cobre o básico.
O que a OTAN comprou em um único dia
O fórum aconteceu em 7 de julho e reuniu os principais fabricantes de armas do Ocidente. Só ali, os países da aliança fecharam mais de US$ 10 bilhões em novos contratos de defesa, um volume que muitos países gastam ao longo de anos inteiros. A lista de compras dá a dimensão da ambição.
Entre os itens está a compra conjunta de drones de vigilância marítima Triton, fabricados pela americana Northrop Grumman, aparelhos capazes de patrulhar oceanos inteiros por horas a fio. Também entraram na conta os aviões-radar GlobeEye, da sueca Saab, que funcionam como olhos voadores enxergando ameaças a centenas de quilômetros de distância.
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Além disso, a frota multinacional da OTAN recebeu o décimo avião-tanque A330, um gigante que reabastece caças em pleno voo e multiplica o alcance de qualquer operação aérea. São peças que, somadas, transformam a capacidade militar da aliança num salto de escala difícil de acompanhar.
O tamanho do abismo com o Brasil
Agora a comparação que interessa a quem lê daqui. O Brasil investe apenas 1,1% do seu Produto Interno Bruto em defesa, uma das menores proporções entre países de porte semelhante. Para se ter uma ideia, os países da OTAN se comprometeram a gastar pelo menos o dobro disso, e muitos vão bem além.
Só que o problema não é apenas o tamanho do bolo, é como ele é fatiado. Cerca de 76% do orçamento militar brasileiro é consumido por salários e aposentadorias, sobrando muito pouco para comprar equipamento novo, modernizar frotas ou desenvolver tecnologia. Na prática, o país paga a folha, mas quase não investe no futuro da defesa.
Confesso que esse dado me deixou pensando. Não se trata de defender uma corrida armamentista nem de querer o Brasil comprando mísseis aos montes. Trata-se de reconhecer que um país continental, com uma costa gigantesca e riquezas como o pré-sal no meio do mar, mantém uma estrutura de defesa que anda no limite do improviso.

O sistema antiaéreo que ainda está no papel
O exemplo mais concreto desse atraso é a defesa aérea. O sistema antiaéreo brasileiro, orçado em até R$ 3,4 bilhões, só começou a ser contratado agora, em 2026, depois de anos de idas e vindas. Enquanto isso, os aliados da OTAN já operam camadas e mais camadas de proteção contra mísseis e drones.
A diferença de ritmo é gritante. Onde a aliança assina bilhões em um único fórum, o Brasil leva anos para tirar um único projeto do papel. Não por falta de competência dos militares ou da indústria nacional, que existe e é boa, mas por uma escolha de prioridade orçamentária que se arrasta governo após governo.
Fico imaginando o que significaria para a soberania nacional destravar parte desse investimento. Não em armas de ataque, mas em radares, satélites de vigilância e sistemas capazes de proteger fronteiras, plataformas de petróleo e rotas comerciais que sustentam a economia inteira do país.
O que está por trás da corrida da OTAN
Essa enxurrada de contratos não surge do nada. A guerra na Ucrânia acordou a Europa para uma realidade que ela havia esquecido: a de que conflitos de grande escala voltaram a ser possíveis no continente. Desde então, os países da aliança correm para repor estoques de munição, modernizar frotas envelhecidas e fechar lacunas de defesa que ficaram expostas.
Os drones mudaram as contas de todo mundo. Ver aparelhos baratos derrubarem tanques e navios caríssimos obrigou os exércitos a repensar o que comprar e em que quantidade. Daí a corrida por vigilância, defesa antiaérea e sistemas capazes de enfrentar tanto ameaças sofisticadas quanto enxames de drones improvisados.
O fórum de Ancara é, nesse sentido, um retrato do momento: a indústria de defesa vive seu maior ciclo de encomendas em décadas, e cada país quer garantir seu lugar na fila. Para o Brasil, que tem uma indústria de defesa competente mas subfinanciada, ficar de fora dessa onda significa perder tanto capacidade militar quanto oportunidade econômica.
Por que isso importa mesmo em tempos de paz
Pode parecer distante da vida cotidiana, mas defesa é como seguro: só se percebe a falta quando o problema já bateu à porta. Num mundo onde drones baratos derrubam aviões e mísseis viajam a velocidades supersônicas, ficar para trás na tecnologia militar é uma vulnerabilidade concreta, e não apenas uma questão de orgulho nacional.
Há ainda um efeito econômico que costuma passar despercebido. A indústria de defesa gera empregos altamente qualificados, patentes e tecnologia que transborda para o setor civil, do radar meteorológico ao GPS que você usa no celular. Investir em defesa, quando bem feito, é também investir em capacidade tecnológica nacional.
A gente acompanha esse tipo de notícia lá de fora e trata como coisa de outro mundo. Mas cada contrato bilionário assinado por uma aliança militar redesenha o equilíbrio de poder global, e países que não acompanham o passo simplesmente perdem peso nas mesas onde as decisões importantes são tomadas. O Brasil, queira ou não, está nessa disputa.
Você acha que o Brasil deveria investir mais na defesa do próprio território, ou o dinheiro faz mais falta em outras áreas?
