Célio Reis saiu de Morrinhos, no interior de Goiás, sem herança e sem família empreendedora, abriu uma sorveteria de apenas 39 metros quadrados em Brasília e hoje comanda a Gelattos, a rede que projeta faturar R$ 100 milhões em 2026 vendendo picolé a R$ 1, com 32 lojas próprias e parceiras e 1.500 pontos de venda no Distrito Federal, em Goiás e em Minas Gerais.
Segundo a Exame, Célio Reis começou com uma única loja de 39 metros quadrados no bairro Cruzeiro Velho e transformou a Gelattos em um dos maiores fabricantes de sorvete do Centro-Oeste. Segundo o ND Mais, a Gelattos deve faturar R$ 100 milhões em 2026, produzindo cerca de 1,3 milhão de picolés por mês fora do verão, número que dobra nos meses mais quentes. A trajetória da pequena sorveteria que virou gigante do picolé começou longe dos holofotes, numa cidade goiana de poucas oportunidades.
De Morrinhos ao Distrito Federal: a origem de quem não tinha a quem imitar

Célio Reis nasceu em Morrinhos, no interior de Goiás, uma cidade que ele próprio descreve como limitada em oportunidades. Na sua família não havia tradição empreendedora, nenhum negócio para herdar nem um exemplo próximo de quem tivesse levantado uma empresa do zero. O ponto de partida da Gelattos não foi capital de família nem sobrenome influente, e sim a vontade de sair de um lugar pequeno para tentar algo maior.
Antes de pensar em sorvete, o goiano construiu carreira na hotelaria. Passou oito anos no grupo Rio Quente Resorts, administrando um hotel em Brasília, período que lhe deu régua de gestão e a rotina de quem cuida de números, equipe e clientes. Foi nessa fase, longe de Morrinhos e já no Distrito Federal, que começou a enxergar a chance de ter o próprio negócio.
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A virada veio de uma parceria. Um representante comercial do segmento de sorvetes cruzou o caminho de Célio Reis e, juntos, decidiram abrir uma sorveteria. Não era um plano grandioso, tampouco uma franquia consolidada com manual e marca famosa. Era uma loja pequena, quase improvisada, mas com um nome que resistiria ao tempo: Gelattos. Ali nascia, sem alarde, o embrião de um império do picolé.
A primeira sorveteria de 39 metros quadrados no Cruzeiro Velho

A primeira loja da Gelattos tinha 39 metros quadrados e ficava no Cruzeiro Velho, bairro tradicional de Brasília. Foi nesse espaço apertado que a Gelattos abriu as portas há cerca de 28 anos, vendendo sorvete no varejo para a vizinhança e apostando que qualidade e preço justo construiriam, com o tempo, uma clientela fiel.
Naqueles primeiros anos, a loja funcionava no modo sobrevivência. Célio Reis conta que as condições eram complicadas, com margem curta, concorrência grande e a necessidade de reinvestir cada centavo. Não havia rede, não havia franquia, não havia fábrica moderna. Havia um negócio de bairro tentando se firmar num mercado em que gigantes nacionais já dominavam as gôndolas e o imaginário do consumidor.
Mesmo assim, a marca foi crescendo devagar. De uma loja, passou a algumas. O sorvete de palito, item mais barato e democrático da vitrine, se destacou como o produto capaz de atrair um público amplo, das crianças aos trabalhadores que queriam um docinho barato no calor de Brasília. A ideia de vender sorvete a preço popular, que anos depois viraria a marca registrada da Gelattos, já dava sinais ali, na sorveteria minúscula do Cruzeiro Velho.
Sete lojas e uma fábrica no subsolo: os anos que quase não deram certo
Antes da pandemia, depois de quase duas décadas de trabalho, a rede tinha chegado a sete lojas e uma fábrica de 300 metros quadrados no subsolo da Asa Norte. Era um negócio de porte médio, respeitável para quem havia começado numa loja de 39 metros quadrados, mas ainda muito longe do império que viria depois. Por quase 20 anos, Célio Reis tocou a operação praticamente sozinho, acumulando funções e decisões.
Esse período foi de aprendizado duro. Manter sete lojas e uma fábrica exigia caixa, logística e disciplina financeira, sem margem para erro. O negócio não era mais a lojinha de bairro, mas não tinha escala para enfrentar as marcas nacionais. A Gelattos vivia num meio-termo perigoso: grande demais para ser artesanal, pequena demais para ser gigante.
O sorvete continuava sendo o carro-chefe, o produto que girava rápido e cabia no bolso de qualquer cliente. Mas faltava um modelo que multiplicasse o alcance da rede sem multiplicar os custos. A resposta viria do pior cenário possível para o comércio: uma pandemia que fecharia as lojas e empurraria o fundador para dentro de um caminhão.
A pandemia e o dono ao volante: quando a Gelattos quase quebrou
Quando a pandemia chegou, em 2020, e o comércio fechou as portas, a Gelattos entrou em zona de risco. Com as lojas paradas e o faturamento despencando, Célio Reis tomou uma decisão drástica para cortar despesas: afastou parte dos funcionários e assumiu pessoalmente o volante do caminhão de entregas. O dono da empresa passou a rodar Brasília carregando e distribuindo sorvete para os pontos que ainda compravam.
“Se deixasse, ia morrer muito rápido”, resumiu o fundador, ao explicar por que decidiu colocar a mão na massa em vez de esperar a tempestade passar. Aquela escolha, dura e solitária, evitou a falência. Enquanto muitos negócios do setor fechavam, a empresa encolhia custos e buscava vender mais barato para um público com menos dinheiro no bolso.
Foi no meio desse aperto que nasceu a virada de chave. Em vez de recuar, a Gelattos partiu para o ataque e abriu cinco novas lojas ainda em 2020, no mesmo ano em que quase todo mundo fechava. A aposta era clara: transformar o sorvete barato em produto de volume, vendido em grande quantidade e autoatendimento, o embrião do que a empresa batizaria de atacadão de sorvete.
O produto de R$ 1 e o “atacadão de sorvete”
O grande golpe de mestre da rede foi transformar o sorvete em um produto de preço imbatível. O picolé a R$ 1 virou o símbolo da marca, o item que puxa o cliente para dentro da loja e cabe em qualquer orçamento. Não é um artigo de luxo, é a guloseima do dia a dia, aquela que a criança pede na saída da escola e que o trabalhador compra sem pensar duas vezes no calor do Distrito Federal.
Em torno desse produto de R$ 1, a empresa montou o conceito de atacadão de sorvete. A ideia é simples e poderosa: variedade enorme, hoje cerca de 210 itens, da versão de R$ 1 a potes de R$ 47,50, em autoatendimento no qual o cliente leva o quanto quiser. Em vez de vender pouco e caro, a marca vende muito e barato.
Os números impressionam. Fora do verão, a produção fica em torno de 1,3 milhão de unidades por mês, quantidade que dobra nos meses mais quentes. É volume de fábrica, sustentado pela lógica do preço baixo e do giro rápido. O sorvete de R$ 1, que parecia barato demais para dar lucro, se revelou a engrenagem central de um negócio milionário.
A fábrica de R$ 11 milhões e os 1.500 pontos de venda
Para bancar essa explosão de volume, a rede precisava de uma estrutura industrial de verdade. Em dezembro de 2024, a Gelattos inaugurou uma nova fábrica de 3.800 metros quadrados, fruto de um investimento de R$ 11 milhões, feito majoritariamente com recursos próprios. Foi um salto brutal em relação à antiga fábrica de 300 metros quadrados do subsolo da Asa Norte.
A nova planta industrial deu à empresa capacidade para abastecer uma rede muito maior. Hoje, além das 32 lojas próprias e parceiras, a marca está presente em 1.500 pontos de venda em três estados: Distrito Federal, Goiás e Minas Gerais. São mercados, padarias, conveniências e parceiros que revendem os produtos da marca, ampliando o alcance muito além do que uma loja faria sozinha.
Esses 1.500 pontos de venda são a espinha dorsal da operação. Cada ponto é uma porta a mais para o produto de R$ 1 chegar ao consumidor, e é essa capilaridade que sustenta a produção milionária da fábrica. A lógica é simples: mais pontos significam mais volume, e mais volume permite à Gelattos produzir e vender ainda mais barato.
R$ 100 milhões e o modelo de franquia da Gelattos
Todo esse crescimento aponta para um número que virou manchete: a projeção de faturamento de R$ 100 milhões em 2026. Para uma empresa que começou numa sorveteria de 39 metros quadrados, alcançar os R$ 100 milhões é a prova de que o modelo de baixo preço e alto volume funciona. E boa parte desse resultado passa pelo modelo de franquia e parcerias que a rede foi construindo ao longo dos anos.
Das 32 unidades atuais, parte são lojas próprias e parte são lojas parceiras, que operam sob a lógica de uma franquia: o parceiro leva a marca, o produto e o conceito de atacadão de sorvete para a sua região. Esse formato de franquia foi decisivo para a rede se espalhar sem que Célio Reis precisasse bancar sozinho cada novo ponto. A franquia, nesse sentido, virou o motor da expansão pelo Distrito Federal, por Goiás e por Minas Gerais.
Depois de quase 20 anos tocando quase tudo sozinho, Célio Reis passou a dividir decisões: o irmão do sócio entrou no negócio e formou-se um trio à frente da estratégia. Com mais gente pensando a expansão, o modelo de franquia ganhou tração e a marca passou a atrair interessados em abrir a própria unidade. Para muita gente, ter uma franquia da Gelattos virou sinônimo de entrar num negócio validado.
O apelo é compreensível. Uma franquia que vende sorvete a R$ 1 tem giro alto e ticket acessível, o que reduz o medo do cliente e aumenta a frequência de compra. Enquanto muitas redes apostam em produtos caros, a marca foi na direção oposta, e é justamente essa contramão que fez o negócio crescer.
Da sorveteria minúscula ao império do picolé: o que a história da Gelattos ensina
A trajetória da Gelattos condensa uma lição que soa clichê, mas que aqui é literal: dá para sair de uma sorveteria de 39 metros quadrados e chegar a um faturamento projetado de R$ 100 milhões. O goiano não tinha família empreendedora nem um cofre cheio para bancar erros. Teve disposição para trabalhar, sensibilidade para entender o cliente e coragem para, no pior momento, assumir o volante do caminhão.
O sorvete de R$ 1, que muita gente veria como um produto pobre demais para sustentar uma empresa, foi exatamente a peça que faltava. Ao apostar no barato, no volume e na capilaridade dos 1.500 pontos de venda, a Gelattos transformou centavos em milhões. A loja que quase quebrou na pandemia virou uma rede com fábrica de 3.800 metros quadrados, dezenas de unidades e um modelo de franquia replicável.
O mais interessante é que nada disso dependeu de um produto sofisticado, e sim de método, resistência e uma leitura precisa do que o brasileiro quer: qualidade a preço que cabe no bolso. A marca provou que um picolé de R$ 1, vendido em escala e com inteligência, pode valer uma fortuna.
Se um sorvete de um real ergueu um negócio de R$ 100 milhões a partir de uma sorveteria de 39 metros quadrados, quantos outros impérios ainda estão escondidos dentro das ideias mais simples que a gente insiste em achar pequenas demais?
