Existe um terminal privado no norte do Rio de Janeiro que, sozinho, movimenta mais de 48% de todo o petróleo cru que o Brasil exporta a partir de terminais. É o T-Oil, no Porto do Açu, e ele acaba de fechar com a Petrobras o primeiro contrato de longo prazo que garante o uso dessa infraestrutura por anos.
O número parece exagero, mas está nos dados da Antaq: quase metade do petróleo cru que sai do Brasil pelos terminais passa por um único ponto do litoral fluminense. O T-Oil, no Porto do Açu, em São João da Barra, é o único terminal privado do país capaz de receber os gigantescos navios da classe VLCC, e virou a espinha dorsal do escoamento do pré-sal brasileiro para o mundo.
O contrato que muda o jogo
No dia 6 de julho, a Vast Infraestrutura, que opera o terminal, e a Petrobras assinaram o primeiro contrato na modalidade take-or-pay da parceria. O nome técnico esconde algo simples: a Petrobras se compromete a usar um volume mínimo do terminal e paga pela capacidade reservada, mesmo que não a utilize por inteiro. Em troca, ganha previsibilidade e garantia de espaço para escoar sua produção.
As duas empresas já trabalhavam juntas em contratos de transbordo desde 2019, mas sempre de forma avulsa. Este acordo, segundo a Vast, “marca uma nova fase da parceria” e assegura mais eficiência para as operações de exportação. Os valores não foram divulgados. Confesso que, quando li a notícia, o que me prendeu não foi o contrato em si, mas o dado que ele revelou de passagem sobre a concentração da nossa exportação de petróleo.
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Como um terminal escoa quase metade do cru exportado
A explicação está numa manobra chamada transbordo, ou operação navio a navio. Petroleiros menores, chamados aliviadores, recolhem o óleo diretamente das plataformas do pré-sal e o transferem, no mar, para navios da classe VLCC, capazes de carregar até 2 milhões de barris. Esses colossos seguem então para os grandes mercados, sobretudo a Ásia. Consolidar a carga em um navio gigante reduz o custo do frete por barril, e como pouquíssimos terminais no Brasil recebem VLCC, tudo se concentra ali.
Em 2025, o T-Oil realizou 229 operações de transbordo, um salto de 20% sobre o ano anterior, e exportou 30,15 milhões de toneladas de cru, recorde desde o início das operações. O terminal é licenciado para movimentar até 1,8 milhão de barris por dia e, a partir deste ano, até o berço Sul, antes restrito a navios menores, passa a receber os VLCC, o que amplia ainda mais a capacidade.

Onze gigantes do petróleo no mesmo cais
A lista de clientes do terminal é um retrato do mercado global de energia. Passam por ali onze operadoras, entre elas Shell, ExxonMobil, Equinor, TotalEnergies e PetroChina, além de Petrobras, Galp, Prio, CNOOC, Petronas e BW Energy. O Porto do Açu, controlado pela Prumo Logística e pelo grupo americano EIG, é o maior complexo portuário-industrial privado em operação no Brasil, reúne cerca de 30 empresas e emprega mais de 7 mil pessoas, a maioria moradora da própria região.
O peso do terminal no mapa nacional é enorme. Em 2025, o T-Oil foi o segundo maior do país em movimentação de petróleo cru e ficou entre os dez maiores terminais de carga do Brasil, considerando qualquer tipo de mercadoria. Para o presidente da Vast, Victor Snabaitis Bomfim, o novo contrato “reflete a confiança mútua” construída com a Petrobras ao longo dos anos e reforça o papel estratégico do complexo no escoamento do pré-sal.

De onde vem tanto petróleo
Nada disso faria sentido sem o pré-sal a todo vapor. A produção nacional bateu recorde em 2025, com 3,77 milhões de barris por dia, e o pré-sal já responde por quase 80% de tudo o que o país extrai. O campo de Búzios, o maior do Brasil, superou a marca de 1,1 milhão de barris diários em junho deste ano, produzindo por oito unidades e com meta de longo prazo de chegar a 2 milhões de barris por dia. É esse cru que abastece o carrossel de navios no Açu.
Há também uma lógica ambiental por trás da concentração. Reunir a carga de vários petroleiros menores num único navio gigante reduz o número de viagens de longo curso e, com isso, a intensidade de emissões por barril transportado. Num mercado internacional cada vez mais atento à pegada de carbono do petróleo, esse tipo de eficiência virou argumento de venda, e não apenas economia de frete. Poucos países conseguem oferecer uma estrutura assim, e é isso que ajuda a explicar por que tantas gigantes estrangeiras escolheram o mesmo cais no norte fluminense.
No ano passado, o Brasil exportou mais de 700 milhões de barris de petróleo, o maior volume da história, e o produto liderou a pauta de exportação nacional pelo segundo ano seguido, com US$ 44,6 bilhões em vendas. Boa parte dessa fatia passou pelo mesmo funil no norte fluminense.
E o terminal já se prepara para crescer mais. Está em construção o Terminal de Líquidos do Açu, um novo parque de tanques para derivados e biocombustíveis, com contratos de longo prazo já assinados e operação prevista para o fim de 2026. Fico imaginando o tamanho que esse pedaço de litoral fluminense ainda vai alcançar, sustentando praticamente sozinho boa parte da conta de exportação de petróleo do país.
Faz sentido o Brasil concentrar quase metade da exportação de cru em um único terminal privado?
