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Um único terminal no Porto do Açu já escoa quase metade de todo o petróleo que o Brasil exporta ao mundo

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Escrito por Paulo Nogueira Publicado em 13/07/2026 às 21:06 Atualizado em 13/07/2026 às 21:08
Um único terminal no Porto do Açu já escoa quase metade de todo o petróleo que o Brasil exporta ao mundo
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Existe um terminal privado no norte do Rio de Janeiro que, sozinho, movimenta mais de 48% de todo o petróleo cru que o Brasil exporta a partir de terminais. É o T-Oil, no Porto do Açu, e ele acaba de fechar com a Petrobras o primeiro contrato de longo prazo que garante o uso dessa infraestrutura por anos.

O número parece exagero, mas está nos dados da Antaq: quase metade do petróleo cru que sai do Brasil pelos terminais passa por um único ponto do litoral fluminense. O T-Oil, no Porto do Açu, em São João da Barra, é o único terminal privado do país capaz de receber os gigantescos navios da classe VLCC, e virou a espinha dorsal do escoamento do pré-sal brasileiro para o mundo.

O contrato que muda o jogo

No dia 6 de julho, a Vast Infraestrutura, que opera o terminal, e a Petrobras assinaram o primeiro contrato na modalidade take-or-pay da parceria. O nome técnico esconde algo simples: a Petrobras se compromete a usar um volume mínimo do terminal e paga pela capacidade reservada, mesmo que não a utilize por inteiro. Em troca, ganha previsibilidade e garantia de espaço para escoar sua produção.

As duas empresas já trabalhavam juntas em contratos de transbordo desde 2019, mas sempre de forma avulsa. Este acordo, segundo a Vast, “marca uma nova fase da parceria” e assegura mais eficiência para as operações de exportação. Os valores não foram divulgados. Confesso que, quando li a notícia, o que me prendeu não foi o contrato em si, mas o dado que ele revelou de passagem sobre a concentração da nossa exportação de petróleo.

Dois petroleiros lado a lado realizando transbordo de petróleo em alto-mar
O transbordo entre navios permite consolidar a carga em petroleiros gigantes da classe VLCC.

Como um terminal escoa quase metade do cru exportado

A explicação está numa manobra chamada transbordo, ou operação navio a navio. Petroleiros menores, chamados aliviadores, recolhem o óleo diretamente das plataformas do pré-sal e o transferem, no mar, para navios da classe VLCC, capazes de carregar até 2 milhões de barris. Esses colossos seguem então para os grandes mercados, sobretudo a Ásia. Consolidar a carga em um navio gigante reduz o custo do frete por barril, e como pouquíssimos terminais no Brasil recebem VLCC, tudo se concentra ali.

Em 2025, o T-Oil realizou 229 operações de transbordo, um salto de 20% sobre o ano anterior, e exportou 30,15 milhões de toneladas de cru, recorde desde o início das operações. O terminal é licenciado para movimentar até 1,8 milhão de barris por dia e, a partir deste ano, até o berço Sul, antes restrito a navios menores, passa a receber os VLCC, o que amplia ainda mais a capacidade.

Petroleiros gigantes atracados para operação de transbordo no mar
Em 2025, o T-Oil fez 229 operações de transbordo, 20% a mais que no ano anterior.

Onze gigantes do petróleo no mesmo cais

A lista de clientes do terminal é um retrato do mercado global de energia. Passam por ali onze operadoras, entre elas Shell, ExxonMobil, Equinor, TotalEnergies e PetroChina, além de Petrobras, Galp, Prio, CNOOC, Petronas e BW Energy. O Porto do Açu, controlado pela Prumo Logística e pelo grupo americano EIG, é o maior complexo portuário-industrial privado em operação no Brasil, reúne cerca de 30 empresas e emprega mais de 7 mil pessoas, a maioria moradora da própria região.

O peso do terminal no mapa nacional é enorme. Em 2025, o T-Oil foi o segundo maior do país em movimentação de petróleo cru e ficou entre os dez maiores terminais de carga do Brasil, considerando qualquer tipo de mercadoria. Para o presidente da Vast, Victor Snabaitis Bomfim, o novo contrato “reflete a confiança mútua” construída com a Petrobras ao longo dos anos e reforça o papel estratégico do complexo no escoamento do pré-sal.

Operação de transbordo entre dois petroleiros vista de cima em mar aberto
O T-Oil foi o segundo maior terminal do país em movimentação de petróleo cru em 2025.

De onde vem tanto petróleo

Nada disso faria sentido sem o pré-sal a todo vapor. A produção nacional bateu recorde em 2025, com 3,77 milhões de barris por dia, e o pré-sal já responde por quase 80% de tudo o que o país extrai. O campo de Búzios, o maior do Brasil, superou a marca de 1,1 milhão de barris diários em junho deste ano, produzindo por oito unidades e com meta de longo prazo de chegar a 2 milhões de barris por dia. É esse cru que abastece o carrossel de navios no Açu.

Há também uma lógica ambiental por trás da concentração. Reunir a carga de vários petroleiros menores num único navio gigante reduz o número de viagens de longo curso e, com isso, a intensidade de emissões por barril transportado. Num mercado internacional cada vez mais atento à pegada de carbono do petróleo, esse tipo de eficiência virou argumento de venda, e não apenas economia de frete. Poucos países conseguem oferecer uma estrutura assim, e é isso que ajuda a explicar por que tantas gigantes estrangeiras escolheram o mesmo cais no norte fluminense.

No ano passado, o Brasil exportou mais de 700 milhões de barris de petróleo, o maior volume da história, e o produto liderou a pauta de exportação nacional pelo segundo ano seguido, com US$ 44,6 bilhões em vendas. Boa parte dessa fatia passou pelo mesmo funil no norte fluminense.

E o terminal já se prepara para crescer mais. Está em construção o Terminal de Líquidos do Açu, um novo parque de tanques para derivados e biocombustíveis, com contratos de longo prazo já assinados e operação prevista para o fim de 2026. Fico imaginando o tamanho que esse pedaço de litoral fluminense ainda vai alcançar, sustentando praticamente sozinho boa parte da conta de exportação de petróleo do país.

Faz sentido o Brasil concentrar quase metade da exportação de cru em um único terminal privado?

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Paulo Nogueira

Técnico em Elétrica desde 2008, formado pelo Instituto Federal Fluminense (IFF), antigo CEFET, uma das mais tradicionais instituições de ensino técnico do Brasil. Atuou por diversos anos nas áreas de petróleo e gás offshore, energia e construção, experiência que hoje aplica na produção de conteúdo especializado sobre o setor energético. Com mais de 8 mil publicações em revistas e portais online, dedica-se à cobertura do mercado de trabalho, petróleo e gás, energia, economia, renováveis e empreendedorismo. Para dúvidas, sugestões ou correções, entre em contato pelo e-mail paulohsnogueira@gmail.com. Este canal não recebe currículos.

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