Massa subterrânea formada por gordura e resíduos voltou a chamar atenção em Londres após ser encontrada sob Whitechapel, reacendendo o debate sobre descarte doméstico e impactos na rede de esgoto da capital britânica.
Uma massa solidificada de gordura, óleo e outros resíduos foi identificada em um túnel de esgoto sob o bairro de Whitechapel, no leste de Londres, segundo informações divulgadas pelas autoridades responsáveis pelo sistema local.
Responsável pela gestão da rede de água e esgoto da capital britânica, a Thames Water informou que o bloqueio tem cerca de 100 toneladas e aproximadamente 100 metros de extensão, ocupando uma área significativa da tubulação subterrânea.
Em comunicado oficial, a empresa afirmou que o episódio funciona como um “lembrete de que o que desce pelo cano não desaparece”, ao destacar os efeitos do descarte inadequado de resíduos.
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Apesar de o termo “iceberg” ser empregado apenas como descrição visual, o fenômeno representa um risco concreto ao funcionamento do sistema de esgoto, conforme avaliação da concessionária.
De acordo com a Thames Water, o despejo incorreto de gordura e óleo contribui para a formação de grandes blocos sólidos que se desenvolvem gradualmente dentro das tubulações.
Ao se agregarem a outros resíduos, esses blocos reduzem a capacidade de escoamento e elevam o risco de entupimentos e transbordamentos.
O que é um fatberg e como ele se forma nos esgotos
O material localizado em Whitechapel é classificado como “fatberg”, termo criado no Reino Unido a partir da junção das palavras em inglês “fat” (gordura) e “iceberg”.
Essa denominação é usada para identificar grandes acúmulos de gordura, óleo e graxa que se solidificam no interior das redes de esgoto.

Com o tempo, essas massas aumentam de tamanho ao reter outros resíduos que circulam pelas tubulações.
Segundo especialistas em saneamento citados pela própria companhia de água, o processo costuma ter origem em cozinhas domésticas e comerciais.
Mesmo quando descartadas em estado líquido, gorduras podem endurecer ao esfriar, sobretudo ao entrar em contato com as paredes frias dos canos.
À medida que se solidifica, o material passa a se fixar na tubulação, criando uma base para a adesão de novos resíduos.
Entre os itens que se acumulam com frequência estão lenços umedecidos e restos de alimentos, apontados como agravantes do problema.
A Thames Water informou que o fatberg recém-descoberto é composto majoritariamente por gordura, óleo e graxa solidificados, além de materiais que não deveriam ser descartados na rede de esgoto.
Em estruturas desse porte, a retirada exige planejamento técnico, já que o trabalho ocorre em túneis subterrâneos e demanda equipamentos específicos e equipes especializadas.
Remoção do bloqueio exige semanas de trabalho
Segundo a empresa, a remoção do bloqueio deve se estender por semanas em razão do tamanho e do peso do material acumulado.
O procedimento envolve a fragmentação gradual do fatberg e a retirada controlada dos resíduos, medida adotada para preservar a integridade da infraestrutura.
Além da complexidade operacional, a Thames Water destacou que ocorrências desse tipo impactam diretamente os custos de manutenção da rede.
Conforme dados divulgados pela concessionária, os gastos com limpeza de entupimentos aumentam em determinados períodos do ano e afetam o orçamento do sistema.
Em um intervalo de dois meses, os custos relacionados a esse tipo de serviço chegaram a 2,1 milhões de libras na área atendida pela empresa.
Além do impacto financeiro, bloqueios desse porte ampliam o risco de retorno de esgoto em imóveis e de extravasamentos em vias públicas.
Esses problemas tendem a ocorrer quando o fluxo normal do sistema é interrompido por obstruções extensas.
Pesquisa aponta hábitos domésticos ligados ao problema
Uma pesquisa encomendada pela Thames Water identificou práticas comuns dentro de casa associadas ao acúmulo de gordura nas tubulações.
Entre os entrevistados, mais de 40% afirmaram já ter descartado sucos de carne diretamente pela pia.
Outros 39% relataram o despejo de molhos do tipo “gravy”, enquanto 28% mencionaram o descarte de cremes.
Além disso, 21% disseram já ter jogado sobremesas à base de leite no ralo.
Segundo a companhia, substâncias com alto teor de gordura podem se solidificar ao longo do percurso nos canos, especialmente quando encontram outros resíduos.
De acordo com técnicos da empresa, essa combinação favorece a formação de bloqueios de grandes proporções dentro da rede.
Com base nesses dados, a Thames Water reforçou orientações preventivas direcionadas à população.
Entre as recomendações estão retirar restos de comida dos pratos antes da lavagem e utilizar protetores de ralo nas pias.
A empresa também orienta evitar o descarte de líquidos gordurosos, mesmo quando parecem diluídos.
Nesses casos, a indicação é deixar óleos e gorduras esfriarem antes do descarte no lixo doméstico ou em pontos de coleta específicos, quando disponíveis.
Whitechapel já registrou um fatberg maior em 2017
O episódio recente não é isolado na região de Whitechapel.
Em 2017, trabalhadores localizaram no mesmo bairro um fatberg ainda maior, segundo registros divulgados à época.
A estrutura tinha cerca de 130 toneladas e mais de 250 metros de comprimento, tornando-se um dos maiores já encontrados na cidade.

A remoção daquele bloqueio levou várias semanas e exigiu uma operação semelhante à atual.
Parte do material retirado foi preservada e exibida ao público no então Museum of London.
Desde 2024, a instituição passou a adotar o nome London Museum.
A exposição teve como objetivo demonstrar como hábitos cotidianos podem gerar impactos significativos na infraestrutura urbana subterrânea.
Efeitos dos fatbergs na rede de esgoto e na cidade
Especialistas em saneamento explicam que o funcionamento da rede de esgoto depende de fluxo contínuo para evitar sobrecarga nas tubulações.
Quando gordura e resíduos se solidificam e formam barreiras, a passagem da água é comprometida, gerando pressão excessiva em alguns trechos.
Em áreas urbanas densas, como Londres, esse efeito tende a ser ampliado pelo alto volume diário de descartes.
A presença de materiais não biodegradáveis também contribui para tornar os bloqueios mais rígidos e difíceis de remover.
Para lidar com essas situações, equipes precisam acessar túneis subterrâneos, identificar o ponto exato da obstrução e retirar o material de forma controlada.
A Thames Water afirma empregar ferramentas manuais e equipamentos de alta pressão, respeitando os limites da infraestrutura mais antiga da cidade.
Em comunicados recentes, a concessionária voltou a reforçar que itens descartados na pia ou no vaso sanitário não desaparecem ao entrar no sistema.
Segundo a empresa, episódios como esse evidenciam como práticas domésticas têm efeitos diretos sobre o funcionamento da rede de esgoto urbana.

