Mudança na rotina de funcionamento dos supermercados capixabas coincidiu com alterações no faturamento, na distribuição das compras ao longo da semana e no desempenho de diferentes formatos de loja, segundo levantamento da Scanntech sobre março e abril de 2026 no Espírito Santo.
O fechamento de supermercados e atacarejos aos domingos no Espírito Santo, iniciado em 1º de março de 2026, coincidiu com uma queda de 1,3% no faturamento do varejo alimentar em março e abril, enquanto o mercado brasileiro avançou 0,7% no período.
O resultado, identificado em levantamento da Scanntech, interrompeu o desempenho observado no começo do ano, quando o setor capixaba havia registrado crescimento de 3% em janeiro e fevereiro, acima da expansão nacional de 2,3% na comparação com o ano anterior.
Embora os números revelem uma mudança relevante após o início da restrição, o levantamento não comprova isoladamente que o fechamento dominical provocou toda a retração, pois outros fatores econômicos e comerciais também podem influenciar as vendas do setor.
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Ainda assim, a diferença entre o desempenho capixaba e o resultado nacional chegou a dois pontos percentuais no bimestre analisado, ampliando em 2,7 pontos percentuais o distanciamento registrado nos dois primeiros meses do ano.
Fechamento de supermercados aos domingos começou com acordo coletivo
A suspensão do funcionamento aos domingos está prevista na Convenção Coletiva de Trabalho 2025–2027, negociada entre representantes dos empregados e dos empregadores, e deve permanecer em vigor inicialmente até 31 de outubro de 2026, quando a regra poderá ser reavaliada.
Segundo o Sindicato dos Comerciários de São Paulo, que divulgou informações sobre o acordo capixaba, a medida alcança mais de 1.500 estabelecimentos localizados nos 78 municípios do Espírito Santo e afeta diretamente cerca de 70 mil trabalhadores do segmento.
A escala de trabalho continua seguindo o modelo 6×1, mas o descanso semanal passou a ocorrer de forma fixa aos domingos, diferentemente do sistema anterior, no qual parte dos funcionários trabalhava nesse dia conforme escalas organizadas pelas empresas.
Entre as razões apresentadas para a negociação estão a dificuldade enfrentada pelos supermercados para contratar trabalhadores, os obstáculos para organizar as equipes e o faturamento considerado mais baixo aos domingos, conforme informações divulgadas pelas entidades sindicais.
Compras nos supermercados migraram para outros dias da semana

A base utilizada pela Scanntech reúne vendas captadas diretamente em supermercados e atacarejos e, segundo Felipe Passareli, responsável pela área de Inteligência de Mercado da companhia, representa aproximadamente 64% do mercado capixaba dentro do canal alimentar.
Os dados indicam que uma parcela das compras antes realizadas aos domingos foi redistribuída ao longo da semana, embora esse deslocamento não tenha sido suficiente para impedir a redução do faturamento estadual durante os dois meses avaliados pela empresa.
Em março, primeiro mês completo de aplicação da nova regra, as vendas cresceram 15% nas segundas-feiras e 25,3% nas terças, sinalizando uma concentração das compras logo depois do período em que os estabelecimentos permaneceram fechados.
No mês seguinte, a movimentação mudou novamente: as quartas-feiras tiveram alta de 14,8%, enquanto as quintas avançaram 34,3%, comportamento interpretado pela Scanntech como uma adaptação rápida dos consumidores à nova rotina de funcionamento do comércio alimentar.
Algumas redes também ampliaram o horário de atendimento às sextas-feiras e aos sábados, buscando absorver parte da demanda que antes se concentrava no domingo e oferecer mais alternativas aos clientes durante os dias permitidos pelo acordo.
Categorias do varejo alimentar sentiram impactos diferentes
A retração não ocorreu de maneira uniforme entre os produtos vendidos, porque categorias facilmente encontradas em estabelecimentos especializados apresentaram diferenças maiores na comparação entre o desempenho do Espírito Santo e o resultado registrado no restante do país.
A cesta de perfumaria apresentou distância negativa de 8,8 pontos percentuais em relação ao mercado nacional, enquanto carnes registraram diferença de 4,4 pontos e bebidas não alcoólicas ficaram 0,4 ponto percentual abaixo do desempenho brasileiro.
Passareli afirmou que, quando o domingo deixa de ser uma opção, parte do público procura açougues, farmácias e lojas especializadas, movimento que ajuda a explicar os maiores descolamentos encontrados em produtos como azeite, frios industrializados e café.
Esse comportamento sugere uma redistribuição não apenas dos dias escolhidos para as compras, mas também dos locais frequentados pelos consumidores, especialmente quando determinados produtos podem ser adquiridos em comércios que permanecem autorizados a funcionar aos domingos.
Atacarejos e supermercados menores tiveram maior retração
Entre os formatos avaliados, o atacarejo apresentou o resultado mais negativo: o faturamento caiu 5,8% no Espírito Santo, diante de uma retração de 0,7% registrada pelo mesmo canal no Brasil, diferença de 5,1 pontos percentuais.
O tamanho dos estabelecimentos também influenciou os resultados, pois supermercados com um a quatro caixas ficaram 6,1 pontos percentuais abaixo da média nacional, enquanto unidades com cinco a nove caixas apresentaram distância negativa de 2,1 pontos.
Nas lojas com dez ou mais caixas, a diferença caiu para somente 0,2 ponto percentual, cenário que levou Passareli a classificar o efeito como regressivo, resumido por ele na afirmação de que “quanto menor a loja, maior o efeito”.
A Associação Capixaba de Supermercados e a Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo do Espírito Santo foram procuradas por A Gazeta para comentar os resultados apresentados pela Scanntech, mas não responderam até a publicação da reportagem.
Com o acordo previsto para ser reavaliado após outubro, a redistribuição das compras ao longo da semana conseguirá recuperar o faturamento perdido ou o consumidor capixaba continuará dividindo suas despesas entre supermercados e estabelecimentos alternativos?
