Ucrânia atinge plataforma de petróleo no Mar Cáspio e intensifica campanha para reduzir receitas energéticas da Rússia. Ataques a refinarias, oleodutos, navios-tanque e terminais mostram nova fase da guerra energética.
A guerra entre Rússia e Ucrânia entrou em uma fase inédita. Agora, além do campo de batalha tradicional, surge uma ofensiva que mira diretamente o coração econômico do Kremlin: o petróleo.
Um ataque ucraniano contra uma plataforma petrolífera no Mar Cáspio revelou uma estratégia cada vez mais ousada. Kiev quer interromper o fluxo de receita energética que sustenta a máquina militar russa, ampliando sua lista de alvos em ritmo acelerado.
Embora o conflito tenha diversas frentes, a guerra energética se tornou central para o futuro da disputa. E, conforme dados recentes mostram, esse movimento não apenas cresce — ele se intensifica mês após mês.
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Primeiro ataque ucraniano no Mar Cáspio coloca produção de petróleo da Rússia em alerta
Nesta semana, a Ucrânia confirmou que seus drones de longo alcance atingiram a plataforma petrolífera Filanovsky, no Mar Cáspio, um dos principais ativos da russa Lukoil. A operação, até então mantida em sigilo, foi divulgada por uma fonte do Serviço de Segurança da Ucrânia.
“Este é o primeiro ataque da Ucrânia contra infraestrutura russa relacionada à produção de petróleo no Mar Cáspio”, afirmou a fonte, classificando a ação como “mais um lembrete para a Rússia de que todas as suas empresas que trabalham para a guerra são alvos legítimos”.
O campo Filanovsky é considerado o maior da Rússia na região, o que destaca o simbolismo da ofensiva. Com isso, Kiev amplia o alcance de seus drones a distâncias que antes pareciam improváveis.
Expansão da campanha: mais alvos e investimentos na guerra energética
A ofensiva que começou de forma tímida no início de 2024 se transformou, desde agosto, em uma campanha robusta.
O comissário de sanções da Ucrânia, Vladyslav Vlasiuk, definiu a estratégia como o início das “sanções de longo alcance” — um esforço para atingir diretamente a principal fonte de renda russa.
Os alvos, anteriormente concentrados em refinarias, agora incluem:
- infraestrutura de exportação de petróleo e gás;
- oleodutos estratégicos;
- navios-tanque;
- terminais no Mar Cáspio, no Mar Negro e no Báltico;
- plataformas de perfuração offshore.
Segundo o projeto ACLED e análises da CNN, novembro registrou o maior número de ataques a instalações energéticas desde o início da guerra. E o ritmo não mostra sinais de desaceleração.
Essa escalada ocorre em um momento crítico. Negociações lideradas pelos Estados Unidos fracassaram diante das exigências maximalistas de Moscou, e as tropas russas avançam em várias áreas da linha de frente.
Ao mesmo tempo, o mercado global enfrenta um excesso de oferta de petróleo, o que evita que os ataques provoquem altas expressivas nos preços. Diante desse cenário, países ocidentais reforçam o apoio às táticas ucranianas.
A economista Helima Croft, da RBC Capital Markets, resume a lógica: “Acho que a estratégia geral desde o verão é a ideia de que não se pode permitir que a Rússia retenha grande parte de sua receita energética crucial.”
Segundo ela, a arrecadação russa com energia financia salários e bônus de alistamento que reforçam a vantagem de Moscou na guerra. Por isso, cortar esse fluxo se tornou prioridade.
Ataques repetidos e danos cumulativos: a nova dinâmica da ofensiva energética
Os dados revelam que a Ucrânia dobrou sua intensidade. De agosto ao final de novembro, foram ao menos 77 ataques — quase duas vezes mais que nos sete meses anteriores.
Vários pontos estratégicos foram atingidos repetidamente. A refinaria de Saratov, da Rosneft, foi atacada pelo menos oito vezes desde agosto, sendo quatro apenas em novembro.
Segundo Nikhil Dubey, analista da Kpler, a tática mudou: “O que antes eram ataques ocasionais com o objetivo de causar danos se transformou em um esforço contínuo para impedir que as refinarias se estabilizem completamente.”
Além disso, a Ucrânia passou a mirar não apenas estruturas visíveis, mas “os principais pontos de obstrução no sistema de refino que produzem os combustíveis finais”, amplificando o impacto econômico.
Apesar da intensificação dos ataques, alguns analistas observam que os efeitos de curto prazo ainda são controláveis para Moscou. No entanto, especialistas alertam que os danos de longo prazo podem ser muito maiores.
Sergey Vakulenko, pesquisador do Carnegie Russia Eurasia Center, destaca que os incêndios causados pelos ataques comprometem estruturas metálicas sensíveis: “Os metais não toleram bem esse tipo de tratamento, e ninguém sabe ao certo quantos desses ciclos de aquecimento e resfriamento essas colunas poderiam sobreviver.”
Isso indica que parte das instalações pode enfrentar falhas irreversíveis no futuro, reduzindo a capacidade russa de processar petróleo de forma estável.
Infraestrutura de exportação se torna alvo prioritário e aumenta a tensão internacional
Desde agosto, a Ucrânia intensificou ataques a instalações de exportação, ampliando riscos no Mar Negro e no Mar Báltico.
Entre os alvos estão:
- Portos de Novorossiysk e Tuapse (Mar Negro);
- Porto de Ust-Luga (Mar Báltico);
- Oleoduto Druzhba, essencial para países europeus;
- Infraestrutura do Consórcio do Oleoduto do Cáspio.
O Druzhba já foi atingido cinco vezes, o que gerou protestos da Hungria. Já o Consórcio do Cáspio informou dois ataques em quatro dias — sinal de que a ofensiva se estende cada vez mais.
Vakulenko avalia que a estratégia busca instaurar “medo” no transporte de petróleo russo. No entanto, ele alerta que Kiev pode “não conquistar simpatia” caso provoque instabilidade excessiva no mercado.
Petroleiros também entram na mira e provocam reação do Kremlin e da Turquia
Os ataques não se limitam a infraestrutura fixa. No final de novembro, a Ucrânia realizou duas ações contra petroleiros sancionados no Mar Negro. Os ataques motivaram uma rara manifestação do presidente Vladimir Putin, que classificou as ações como “pirataria”.
A Turquia, preocupada com o risco de escalada regional, convocou os embaixadores da Rússia e da Ucrânia em protesto.
Mesmo assim, Kiev manteve o ritmo. Na quarta-feira (10), drones marítimos atacaram mais um navio cargueiro que seguia para Novorossiysk, reforçando que os petroleiros são agora parte central da ofensiva.
Para o diretor do Centro de Pesquisa da Indústria de Energia em Kiev, Oleksandr Kharchenko, não há alternativa: “Não temos outra ferramenta a não ser cortar o fluxo de dinheiro para a Rússia para evitar esta guerra pela sobrevivência.”
Para ele, a presença contínua de navios sancionados no Mar Negro mostra que as sanções ocidentais não estão sendo cumpridas. “Então, pessoal, se vocês não conseguem cumprir suas sanções, talvez alguém possa ajudá-los”, afirmou.
Essas declarações refletem a posição cada vez mais firme da Ucrânia: a guerra energética não é apenas uma tática. É parte da estratégia central para enfraquecer o poder militar russo.

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