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Aldeões escavam estrada à mão em penhasco de 1.200 metros na China após décadas de isolamento extremo criando um dos túneis mais perigosos e impressionantes do mundo

Escrito por Bruno Teles
Publicado em 15/06/2026 às 13:42
Atualizado em 15/06/2026 às 13:45
Treze aldeões escavaram à mão o Túnel Guoliang na China, 1.200 metros num penhasco nas Montanhas Taihang, para escapar de séculos de isolamento. Obra levou cinco anos.
Treze aldeões escavaram à mão o Túnel Guoliang na China, 1.200 metros num penhasco nas Montanhas Taihang, para escapar de séculos de isolamento. Obra levou cinco anos.
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Sem ajuda do governo, sem engenheiros e com pouquíssimas ferramentas, treze moradores da vila de Guoliang decidiram em 1972 escavar um corredor na rocha viva das Montanhas Taihang, na China. Levaram cinco anos. Alguns morreram durante a obra. Em 1º de maio de 1977, o túnel abriu para os carros pela primeira vez na história da vila.

A vila de Guoliang ficava no topo de um penhasco nas Montanhas Taihang, no noroeste da província de Henan, na China. Durante séculos, a única forma de chegar lá era escalar uma passagem perigosa esculpida na rocha, chamada de Escada do Céu. Suprimentos entravam com dificuldade. Comunicação com o mundo exterior era praticamente inexistente. Em 1972, o chefe da vila, Shen Mingxin, reuniu treze moradores e propôs algo que beirava o impossível: escavar um túnel inteiro na encosta do penhasco usando martelos, ferramentas de aço e, possivelmente, alguns explosivos comprados com o dinheiro da venda das cabras e ervas da comunidade, conforme registra o relato preservado no Internet Archive (Wayback Machine).

Cinco anos depois, em 1º de maio de 1977, o Túnel Guoliang abriu ao tráfego. Com 1.200 metros de comprimento, cerca de 5 metros de altura e 4 metros de largura, a passagem conectou pela primeira vez uma comunidade inteira ao mundo moderno. O custo humano foi alto: alguns dos trabalhadores morreram em acidentes durante a construção. Os que sobreviveram terminaram a obra. O túnel tem mais de trinta janelas abertas para o abismo, esculpidas inicialmente para jogar os escombros para fora do penhasco. Hoje, quem olha por elas vê o fundo do vale centenas de metros abaixo.

Uma vila isolada por séculos no topo do mundo

Treze aldeões escavaram à mão o Túnel Guoliang na China, 1.200 metros num penhasco nas Montanhas Taihang, para escapar de séculos de isolamento. Obra levou cinco anos.
Túnel Guoliang

Guoliang não era apenas remota. Era estruturalmente separada do resto.

A vila ficava a mais de 1.200 metros de altitude, no topo de um penhasco rodeado por montanhas nas Taihang, no norte da China.

A única entrada existia havia gerações: uma trilha íngreme escavada na rocha, a Escada do Céu, usada por moradores que precisavam descer ao vale para buscar qualquer coisa que a comunidade não produzisse ali. Levar sacos de grãos, ferramentas ou materiais de construção por esse caminho era um exercício de força e equilíbrio que poucos conseguiam fazer mais de uma vez por dia.

A história da vila remonta à Dinastia Han Ocidental, entre 206 a.C. e 24 d.C., quando um líder camponês chamado Guo Liang teria se estabelecido ali.

Por mais de dois mil anos, o isolamento foi a condição permanente de quem nasceu em Guoliang. Não havia telefone. Provavelmente não havia eletricidade. 

A aldeia era, na prática, uma ilha no topo de pedra, com cerca de 300 habitantes que viviam numa economia de subsistência quase completamente desconectada do restante do país, segundo os relatos coletados pelo pesquisador Rick Archer e preservados pelo Internet Archive.

A decisão da China que mudou tudo

Treze aldeões escavaram à mão o Túnel Guoliang na China, 1.200 metros num penhasco nas Montanhas Taihang, para escapar de séculos de isolamento. Obra levou cinco anos.
Túnel Guoliang

Em 1972, Shen Mingxin tomou uma decisão que os moradores chamaram de aposta de vida ou morte.

Convenceu a comunidade de que a única saída real para o isolamento era uma obra que nenhum governo havia proposto e que eles mesmos teriam que executar: abrir um túnel horizontal na parede do penhasco, criando uma estrada que carros pudessem percorrer.

Sem projeto de engenharia. Sem empresa de construção. Sem verba pública. O financiamento saiu da venda das cabras e das ervas medicinais que as famílias criavam e colhiam.

Treze homens começaram o trabalho. A rocha das Montanhas Taihang é um xisto vermelho duro, e perfurá-la com ferramentas manuais exigia força, resistência e uma paciência que faz sentido apenas quando a alternativa é continuar isolado para sempre.

Os explosivos, se foram usados, vieram com o que sobrou das vendas dos animais.

O processo de escavar, detonar e remover escombros pelos vãos abertos na parede da rocha levou cinco anos consecutivos de trabalho. 

Alguns homens morreram durante esse período em acidentes de obra. Os outros continuaram.

Como o túnel foi escavado na prática

Treze aldeões escavaram à mão o Túnel Guoliang na China, 1.200 metros num penhasco nas Montanhas Taihang, para escapar de séculos de isolamento. Obra levou cinco anos.
Túnel Guoliang

A estrutura do Túnel Guoliang é diferente de qualquer outro corredor rodoviário do mundo.

Por ser cavado diretamente na parede de um penhasco, ele não é retilíneo: tem curvas, irregularidades e variações de largura que refletem o caminho mais fácil pela rocha, não um traçado planejado por engenheiros.

As paredes internas são brutas, cheias de marcas de ferramentas e de explosões controladas. A iluminação natural vem pelas mais de trinta janelas abertas para o exterior, que alternadamente deixam entrar luz e vento e revelam o precipício do lado de fora.

Essas janelas não foram planejadas como elemento estético. Eram a forma mais eficiente de jogar os escombros para fora durante a construção, abrindo espaço para continuar cavando sem precisar transportar toneladas de rocha pelo interior do túnel de volta para a entrada.

O resultado acidental é uma passagem que ora está no escuro total, ora recebe raios de sol oblíquos que atravessam a abertura e iluminam o chão de rocha, num efeito visual que nenhum arquiteto projetou. 

Visitantes descrevem a experiência de caminhar pelo Túnel Guoliang como atravessar um labirinto vivo, onde o som de um motor distante pode surgir sem aviso.

Aberto em 1977, o slogan surgiu junto

Treze aldeões escavaram à mão o Túnel Guoliang na China, 1.200 metros num penhasco nas Montanhas Taihang, para escapar de séculos de isolamento. Obra levou cinco anos.
Túnel Guoliang

Em 1º de maio de 1977, o túnel foi oficialmente aberto ao tráfego. Era a primeira vez que um veículo motorizado subia até Guoliang.

Para os moradores que haviam passado décadas carregando tudo nas costas pela Escada do Céu, ver um carro entrar na vila deve ter sido algo difícil de assimilar.

A obra tinha custado cinco anos, pelo menos algumas vidas e praticamente todo o patrimônio animal e vegetal que as famílias possuíam.

Os moradores criaram um slogan para o túnel logo na abertura: “A estrada que não tolera erros”.

A frase descreve o que qualquer motorista percebe nos primeiros metros: a passagem tem 4 metros de largura, o que torna o cruzamento entre dois veículos extremamente difícil, e as janelas abertas para o abismo não têm grade de proteção.

Um erro de direção numa curva fechada dentro do túnel pode ter consequências irreversíveis. 

A estrada que os aldeões construíram para conectar a vila ao mundo é, ao mesmo tempo, uma das entradas mais perigosas para qualquer comunidade habitada da China.

Do isolamento ao turismo: o impacto inesperado na China

Treze aldeões escavaram à mão o Túnel Guoliang na China, 1.200 metros num penhasco nas Montanhas Taihang, para escapar de séculos de isolamento. Obra levou cinco anos.
Túnel Guoliang

Por volta do ano 2000, quando a China começou a abrir o interior do país ao turismo doméstico e internacional, funcionários do governo visitaram a região de Guoliang e concluíram que o túnel incomum e a paisagem ao redor formavam uma atração singular.

A vila que havia sido ignorada durante décadas passou a receber visitantes de várias partes do mundo. Hotéis foram construídos no local já em 2009. Passarelas e pontes modernas foram instaladas para facilitar a circulação pela região.

A área virou também destino de artistas. Grupos de pintores e fotógrafos passaram a subir regularmente até Guoliang para trabalhar com a paisagem de penhascos vermelhos, vales profundos e arquitetura de pedra que caracteriza a vila.

A comunidade de 83 famílias e 329 habitantes, segundo registros de viajantes citados pelo Internet Archive, mantém uma estrutura inteiramente construída em pedra: portões, estradas, pontes, casas, mesas e utensílios. 

A mesma rocha que os treze aldeões perfuraram para escapar do isolamento se tornou o elemento central da identidade que atrai visitantes para Guoliang.

O que sobrou dos treze que começaram tudo

A história dos construtores do Túnel Guoliang tem poucos registros detalhados disponíveis em fontes ocidentais.

O que se sabe vem de relatos de viajantes, blogs de turistas e informações de guias locais compilados ao longo dos anos.

Shen Mingxin é o nome mais documentado: chefe da vila na época, foi ele quem articulou o projeto e convenceu os moradores de que a aposta valia o risco.

Os nomes dos outros doze homens que trabalharam com ele são menos conhecidos, assim como as circunstâncias exatas dos acidentes que mataram alguns deles durante a construção.

Essa lacuna de documentação é ela mesma um reflexo do isolamento de Guoliang.

Uma obra realizada por aldeões sem instrução formal, longe de qualquer centro urbano, sem cobertura jornalística e num período em que a China estava fechada para o mundo, não gerou registro sistemático.

O que ficou foi a estrutura em si: 1.200 metros de pedra perfurada à mão, com curvas, janelas abertas para o vazio e marcas de ferramentas nas paredes

A prova do que foi feito não está em nenhum arquivo, está no próprio penhasco.

Treze pessoas sem treinamento técnico escavaram durante cinco anos um túnel de mais de um quilômetro numa rocha viva para conectar a própria vila ao mundo. Essa é uma das histórias de engenharia popular mais impressionantes da história recente ou existem outras que merecem a mesma atenção? Você toparia atravessar o Túnel Guoliang de carro? Deixe sua opinião nos comentários.

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Bruno Teles

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