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Tampa de aço de 900 kg desapareceu durante teste nuclear subterrâneo em Nevada em 1957 e o físico Brownlee calculou que ela foi lançada a 66 km por segundo mas acredita que a tampa vaporizou antes de chegar ao espaço

Escrito por Bruno Teles
Publicado em 05/05/2026 às 21:41
Atualizado em 05/05/2026 às 21:44
Tampa de 900 kg desapareceu em teste nuclear de 1957 a 66 km/s. Brownlee calculou 6x a velocidade de escape, mas acredita que vaporizou. Entenda o caso.
Tampa de 900 kg desapareceu em teste nuclear de 1957 a 66 km/s. Brownlee calculou 6x a velocidade de escape, mas acredita que vaporizou. Entenda o caso.
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Uma tampa de 900 kg desapareceu durante o teste nuclear Pascal-B em Nevada em 27 de agosto de 1957 e o físico Brownlee do Laboratório de Los Alamos calculou velocidade de 66 km/s, seis vezes a de escape da Terra, mas acredita que a tampa vaporizou por atrito antes de alcançar o espaço.

Em 27 de agosto de 1957, dois meses antes do lançamento do Sputnik soviético, uma tampa de aço de 900 quilos desapareceu da boca de um poço em pleno deserto de Nevada, arremessada para cima por uma explosão nuclear de 300 toneladas de TNT detonada a 152 metros de profundidade. O físico Robert Brownlee, astrofísico do Laboratório Nacional de Los Alamos e responsável pelo teste nuclear subterrâneo conhecido como Pascal-B, havia posicionado uma câmera de alta velocidade apontada para a boca do poço, registrando 1.000 quadros por segundo, e quando o filme foi revelado a tampa apareceu em apenas um quadro, parcialmente visível, antes de sumir completamente do enquadramento para nunca mais ser encontrada. Brownlee calculou que a velocidade da tampa na saída do poço chegou a até 66 quilômetros por segundo, ou cerca de 240 mil quilômetros por hora, velocidade seis vezes superior à necessária para escapar da gravidade terrestre, número que alimenta há quase 70 anos uma das curiosidades mais discutidas da história da Guerra Fria: teria aquela tampa se tornado o primeiro objeto humano a chegar ao espaço?

A resposta do próprio cientista que fez o cálculo é menos romântica do que a lenda sugere. “Eu não tenho ideia do que aconteceu com a tampa, mas sempre presumi que ela foi provavelmente vaporizada antes de chegar ao espaço”, declarou Brownlee em entrevista reproduzida por publicações científicas e de história militar. Cálculos atualizados em 2019 reforçam a hipótese de vaporização: o formato pouco aerodinâmico da tampa teria gerado compressão e atrito tão intensos com a atmosfera que a peça de aço provavelmente se desintegrou nos primeiros segundos após a saída do poço, antes de atingir altitude suficiente para escapar da camada de ar que envolve o planeta. A história é real, os números são verificáveis, mas a conclusão mais provável é que a tampa virou vapor, não satélite.

O que foi a Operação Plumbbob e como a tampa entrou na história

Tampa de 900 kg desapareceu em teste nuclear de 1957 a 66 km/s. Brownlee calculou 6x a velocidade de escape, mas acredita que vaporizou. Entenda o caso.

O teste que lançou a tampa fazia parte de programa muito maior de desenvolvimento nuclear norte-americano. A Operação Plumbbob foi uma série de 29 testes nucleares conduzidos entre maio e outubro de 1957 no Nevada Test Site, envolvendo 21 laboratórios e agências governamentais e cerca de 18 mil militares das Forças Armadas dos EUA nos exercícios Desert Rock VII e VIII, com objetivo de desenvolver ogivas para mísseis intercontinentais, defesas aéreas e armas antissubmarinas. A operação não era secreta: foi divulgada à imprensa, contou com observadores militares de várias nacionalidades e teve seus nomes publicados oficialmente pela Comissão de Energia Atômica dos Estados Unidos, embora detalhes técnicos dos rendimentos e cálculos fossem classificados.

O Pascal-B foi o segundo teste nuclear subterrâneo da história americana e nasceu de surpresa ocorrida um mês antes. Em 26 de julho de 1957, o teste Pascal-A, primeiro experimento subterrâneo dos EUA, gerou rendimento de cerca de 55 toneladas de TNT, 50 mil vezes maior que o esperado, e a tampa que cobria aquele poço foi arremessada enquanto um jato de fogo subiu centenas de metros no céu noturno de Nevada, resultado que despertou a curiosidade científica de Brownlee sobre a mecânica das tampas sob pressão nuclear. Para o Pascal-B, um mês depois, Brownlee decidiu filmar o que acontecia com a tampa na boca do poço, decisão que produziria um dos registros mais comentados da história da física experimental.

Como a tampa de 900 kg foi lançada pelo teste nuclear Pascal-B

Tampa de 900 kg desapareceu em teste nuclear de 1957 a 66 km/s. Brownlee calculou 6x a velocidade de escape, mas acredita que vaporizou. Entenda o caso.

A configuração do experimento Pascal-B transformou o poço de teste em canhão gigantesco apontado para o céu. A bomba nuclear de 300 toneladas de TNT foi enterrada a 152 metros de profundidade, com um plug de concreto de 2 toneladas sobre ela para direcionar a energia da explosão para cima através do poço cilíndrico, e na boca do poço foi soldada a tampa de aço de 900 quilos e cerca de 10 centímetros de espessura, que funcionaria como vedação até o momento da detonação. Brownlee posicionou a câmera de alta velocidade apontada para a boca do poço, não para a explosão em si (que aconteceu a 152 metros abaixo do solo), registrando 1.000 quadros por segundo para capturar o instante em que a tampa seria ejetada pela pressão dos gases da detonação nuclear.

O resultado superou qualquer previsão. Às 22h35 de 27 de agosto de 1957, a bomba detonou, e quando o filme da câmera foi revelado a tampa apareceu em um único quadro, parcialmente visível e já em movimento ascendente, desaparecendo completamente do enquadramento no quadro seguinte, o que significa que em menos de um milissegundo a tampa de 900 kg acelerou de zero a uma velocidade que Brownlee calculou em até 66 quilômetros por segundo. O Institute of Physics do Reino Unido documenta o cálculo e confirma que a velocidade estimada é seis vezes a velocidade de escape da Terra (cerca de 11,2 km/s), número que fez Brownlee comentar que a tampa saiu “como um morcego escapando do inferno” e que alimentou a especulação de que ela poderia ter precedido o Sputnik no espaço.

Por que a maioria dos físicos acredita que a tampa não chegou ao espaço

Apesar dos números impressionantes, os argumentos contra a hipótese de que a tampa alcançou o espaço são sólidos e vêm do próprio cientista que conduziu o experimento. Brownlee declarou que sempre presumiu a vaporização, e cálculos atualizados em 2019 reforçam essa conclusão: uma peça de aço de formato pouco aerodinâmico atravessando a atmosfera a 66 km/s geraria compressão e atrito tão extremos que a temperatura da tampa ultrapassaria o ponto de fusão do aço em frações de segundo, desintegrando-a muito antes de atingir a altitude onde a atmosfera se torna rarefeita o suficiente para cessar o efeito. Físicos contemporâneos argumentam que a tampa teria desacelerado abaixo da velocidade de escape antes de deixar a atmosfera, tornando a chegada ao espaço fisicamente improvável mesmo que ela não tivesse sido completamente vaporizada.

Do lado oposto da discussão estão os argumentos que mantêm a especulação viva. A tampa nunca foi encontrada em terra, e alguns cálculos sugerem que dada a massa e velocidade inicial a peça não teria tempo de ser completamente destruída antes de sair da atmosfera, cenário que a deixaria viajando em trajetória interplanetária pelo espaço, não em órbita estável como o Sputnik, mas em rota silenciosa para o vazio entre os planetas. A diferença conceitual é importante: o Sputnik, lançado em 4 de outubro de 1957, 38 dias depois do Pascal-B, entrou em órbita controlada ao redor da Terra, enquanto a tampa, mesmo se tivesse alcançado o espaço, teria seguido em linha reta sem possibilidade de retorno, distinção que separa satélite de projétil e que impede qualquer equivalência real entre os dois eventos.

O que o caso da tampa significou para a ciência nuclear e espacial

O episódio da tampa do Pascal-B não ficou restrito à categoria de curiosidade: teve consequências reais para a ciência. A série Pascal contribuiu para o desenvolvimento de testes nucleares subterrâneos seguros, padrão que se tornaria obrigatório após o Tratado de Proibição Parcial de Testes Nucleares de 1963, que vetou explosões na atmosfera, no espaço e debaixo d’água, e o conceito de usar explosões nucleares para propulsão de objetos inspirou o Projeto Orion nos anos 1950 e 1960, que estudou a possibilidade de impulsionar naves espaciais por meio de detonações nucleares pequenas e sucessivas. O Projeto Orion não saiu do papel justamente por causa do tratado de 1963, mas seus princípios continuam sendo discutidos em propostas teóricas de propulsão interplanetária que a NASA e agências espaciais revisitam periodicamente.

A história da tampa entrou para a cultura pop científica e continua gerando debate quase 70 anos depois. Pode existir, em algum lugar do espaço interplanetário, uma tampa metálica viajando em silêncio desde 1957, ou pode ser que ela tenha se dissolvido em vapor de aço nos primeiros segundos após a explosão, e a verdade é que ninguém sabe com certeza. É justamente a falta de resposta definitiva que mantém o caso vivo: improvável que tenha chegado ao espaço, sim, mas tecnicamente impossível de descartar por completo, combinação que faz da tampa do Pascal-B uma das peças mais procuradas e nunca encontradas da história da física.

E você, acha que a tampa chegou ao espaço ou vaporizou na atmosfera? Deixe sua opinião nos comentários.

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Jose
Jose
06/05/2026 20:35

Se a tampa foi vaporizada, isso ocorreu em menos de 2 segundos (caso tenha sido ejetada em um ângulo reto. Pois acima dos 100km de altura praticamente nao existe atrito com a atmosfera. Com 2 segundos a tampa estaria a mais de 120 km de altura.

W. M. S.
W. M. S.
06/05/2026 11:01

A peça valorizou, com certeza

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Bruno Teles

Falo sobre tecnologia, inovação, petróleo e gás. Atualizo diariamente sobre oportunidades no mercado brasileiro. Com mais de 7.000 artigos publicados nos sites CPG, Naval Porto Estaleiro, Mineração Brasil e Obras Construção Civil. Sugestão de pauta? Manda no brunotelesredator@gmail.com

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