Você já se imaginou vivendo em um mundo onde o suco de laranja, essa bebida tão comum no café da manhã, se torne um luxo raro?
Essa possibilidade, que pode soar absurda para muitos, está cada vez mais próxima de se tornar realidade. O motivo? Uma combinação devastadora de fenômenos climáticos extremos e doenças que assolam os pomares de laranja.
De acordo com a Associação Nacional dos Exportadores de Sucos Cítricos (CitrusBR), os estoques de suco de laranja no Brasil estão tecnicamente zerados. Isso significa que, fora do período de colheita, o volume disponível nos armazéns não é suficiente para sustentar a demanda durante quatro meses, o que seria o ideal.
O último levantamento realizado em dezembro do ano passado e divulgado em março de 2024 apontou que o volume de suco em estoque é de menos de 464 mil toneladas, o segundo pior número já registrado, ficando atrás apenas de junho de 2023, quando havia menos de 85 mil toneladas.
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Essa situação alarmante é consequência direta da pior safra de laranjas dos últimos 36 anos. Segundo o Fundo de Defesa da Citricultura (Fundecitrus), a colheita de 2024 deve atingir apenas 232 milhões de caixas, representando uma queda de 24% em relação à colheita anterior.
Diversos fatores contribuíram para esse cenário desastroso, como ondas de calor intensas que coincidiram com as floradas dos pomares e chuvas abaixo da média que prejudicaram o desenvolvimento das frutas.
Fatores climáticos e doenças devastadoras: o que está por trás da crise?
Os eventos climáticos adversos não foram os únicos responsáveis por essa crise. Cerca de 77 milhões de laranjeiras estão contaminadas com o greening, uma doença bacteriana sem cura que causa a queda prematura ou o definhamento dos frutos. Essa doença devastadora aumentou em 54% entre 2022 e 2023, conforme dados do Fundecitrus. A combinação de todos esses fatores resultou em um desequilíbrio hormonal nas laranjas, afetando severamente o rendimento das colheitas.
Preços em alta: o impacto no bolso do consumidor
Como esperado, a escassez de laranjas e de suco de laranja já está impactando o bolso do consumidor. O Índice de Preços ao Consumidor (IPCA) de julho de 2024 revelou que o preço dos sucos de fruta subiu 7,46% no último ano. Especificamente, a laranja pêra, a mais popular entre os brasileiros, ficou 41,12% mais cara, enquanto a laranja baía teve um aumento de 43,5% e a lima, 40,79%. Para a indústria, o cenário é ainda mais crítico, com o valor das laranjas subindo 80% em julho deste ano, comparado ao mesmo mês de 2023, conforme o Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea/Esalq – USP).
Curiosamente, mesmo com os preços elevados, o consumo de suco de laranja não diminuiu significativamente, e a demanda segue alta. No entanto, conforme o produto se torna mais caro, os consumidores estão considerando alternativas, o que pode mudar o equilíbrio entre oferta e demanda em um futuro próximo. Europa e Estados Unidos, grandes consumidores do suco brasileiro, também estão atentos a essas mudanças, o que pode afetar as exportações.
O cenário no Brasil: ainda é possível encontrar suco de laranja?
Embora a situação seja crítica, ainda é possível encontrar suco de laranja nos supermercados brasileiros. Contudo, os preços podem continuar subindo, especialmente para os produtos engarrafados que dependem diretamente da safra nacional. As empresas que possuem plantações próprias podem se beneficiar, mas a escassez pode levar a aumentos de preços generalizados.
Quanto tempo vai durar a crise?
De acordo com Fernanda Geraldini, pesquisadora de frutas da equipe de hortifrúti do Cepea, a reposição dos estoques de suco de laranja pode levar até três safras, ou seja, três anos para que o mercado retome a normalidade. Enquanto isso, a perspectiva de escassez e preços elevados continua a preocupar consumidores e indústrias.

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