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Uma startup apoiada pela OpenAI começou a vender um robô de US$ 20.000 para fazer tarefas domésticas, mas quando o robô não sabe o que fazer, um funcionário coloca um headset de realidade virtual, vê o interior da sua casa por uma câmera e opera cada movimento, e o CEO disse que sem isso ele não consegue melhorar o produto

Escrito por Débora Araújo
Publicado em 27/03/2026 às 18:23
Atualizado em 27/03/2026 às 23:44
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Startup vende robô doméstico de US$ 20 mil, mas humanos ainda controlam tarefas via realidade virtual.
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Robô doméstico de US$ 20 mil promete autonomia, mas depende de humanos escondidos operando por realidade virtual, revelando limites da inteligência artificial e estratégia curiosa para evoluir a tecnologia moderna.

No dia 28 de outubro de 2025, a empresa norueguesa 1X Technologies anunciou o NEO: o primeiro robô humanoide voltado para uso doméstico disponível para pré-venda no mercado consumidor. Mede 1,68 metro, pesa 30 quilos, consegue levantar até 69 quilos, fala por comando de voz, tem bateria para quatro horas e vem em três cores — Bege, Cinza e Marrom Escuro. O preço é US$ 20.000, ou US$ 499 por mês na modalidade de assinatura. A promessa é que ele dobre roupas, esvazie a lava-louça, organize prateleiras, busque objetos na geladeira e deixe a casa arrumada enquanto o dono está no trabalho.

A realidade que o CEO revelou ao Wall Street Journal é diferente. Na demonstração para a jornalista Joanna Stern, o NEO não realizou uma única tarefa de forma autônoma. Cada movimento foi controlado remotamente por um operador humano da empresa — chamado internamente de “Turing” — usando um headset de realidade virtual e enxergando o interior da casa pelas câmeras do robô. Buscar uma garrafa d’água da geladeira levou mais de um minuto.

Carregar três copos e pratos na lava-louça consumiu cinco minutos. Dobrar uma peça de roupa levou dois minutos de manipulação cuidadosa. “Se não tivermos seus dados, não podemos melhorar o produto”, disse o CEO Bernt Børnich.

O robô que você compra não é o robô que funciona

O NEO opera em dois modos distintos. O primeiro é o modo autônomo: o robô usa seu modelo de IA embarcado, chamado Redwood, para tentar realizar as tarefas por conta própria. Segundo a própria 1X, esse modo funciona para ações simples — abrir portas, apagar luzes, navegar pelos cômodos, regar plantas.

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O segundo é o Expert Mode: quando o robô não sabe como fazer algo, ou comete erros, um funcionário da 1X assume o controle remotamente. Ele veste um headset Meta Quest 3, vê o interior da sua casa pelas câmeras do robô e opera cada gesto com os controles de realidade virtual. Você agenda os horários em que os operadores podem acessar o robô por um aplicativo no celular. O rosto de qualquer pessoa na câmera é desfocado automaticamente.

Há zonas de exclusão — quartos e banheiros podem ser bloqueados. Mas o acordo fundamental permanece: um funcionário que você nunca conheceu terá acesso visual à sua cozinha, sua sala, seus objetos, sua rotina. Segundo estimativas da própria empresa, o NEO operará com 60% a 70% de autonomia no lançamento em 2026. O restante — 30% a 40% de cada tarefa mais complexa — dependerá de teleoperação humana.

Por que os robôs precisam de humanos para aprender

A explicação para essa dependência está no maior gargalo da robótica moderna: a falta de dados físicos. Quando a OpenAI treinou o ChatGPT, teve acesso a praticamente toda a internet escrita — trilhões de palavras em dezenas de idiomas, produzidas por bilhões de pessoas ao longo de décadas. Os modelos de linguagem beberam de um oceano de dados que já existia.

Os robôs não têm esse luxo. Não existe equivalente físico da internet. Não há um banco de dados com bilhões de exemplos de como um humano abre a gaveta de talheres, dobra uma camisa polo ou coloca um copo molhado na prateleira sem derrubá-lo. Esses movimentos precisam ser criados, capturados e rotulados — um a um, em ambientes reais, com corpos reais.

O verdadeiro motor por trás do robô de US$ 20 mil

Um professor da Universidade da Califórnia em Berkeley estimou que, no ritmo atual de coleta manual de dados, seriam necessários 100.000 anos para acumular dados físicos equivalentes aos que os modelos de linguagem usaram para aprender a escrever, segundo reportagem da NPR de março de 2025.

É exatamente esse gargalo que o Expert Mode do NEO foi projetado para resolver. Cada vez que um teleoperador humano guia o robô em uma tarefa nova — dobrar uma camiseta específica naquela gaveta específica daquela casa específica —, o movimento é gravado, rotulado e incorporado ao treinamento da IA. Com o tempo, o robô aprende a fazer sozinho o que o humano fez primeiro. O cliente que paga US$ 20.000 está essencialmente financiando a coleta de dados que tornará o produto melhor para todos os usuários futuros.

A mesma lógica que a Tesla usa — mas na sua sala de estar

A 1X não é a única empresa usando humanos para ensinar robôs. A dinâmica é idêntica em toda a indústria — mas o contexto do NEO a torna mais exposta. A Tesla contratou dezenas de operadores para treinar o Optimus. Segundo anúncio de emprego publicado no LinkedIn e no site da empresa em agosto de 2024, a Tesla buscava “Data Collection Operators” — funcionários que vestem trajes de captura de movimento e headsets de realidade virtual para simular os movimentos e ações dos robôs.

O pagamento vai de US$ 25,25 a US$ 48 por hora. O requisito físico é intenso: os candidatos precisam conseguir andar por mais de sete horas por dia, carregar até 14 quilos de equipamento e ter entre 1,70 m e 1,80 m de altura — próximo da altura do Optimus.

No Toyota Research Institute, pesquisadores usam teleoperação para ensinar robôs a fazer panquecas: um humano usa braços robóticos para repetir o movimento cerca de 300 vezes em uma tarde. O modelo processa os dados durante a noite. Na manhã seguinte, o robô frequentemente consegue fazer a tarefa sozinho, segundo reportagem do MIT Technology Review.

A diferença central é o ambiente. A Tesla treina seus operadores em fábricas controladas. O Toyota treina em laboratórios. O NEO treina dentro da sua casa.

Os teleoperadores que ninguém vê

Por trás de cada robô há uma cadeia de trabalho humano que raramente é mencionada nas apresentações de produto. Na 1X, os operadores que guiam o NEO pelo Expert Mode são funcionários contratados diretamente pela empresa, com verificação de antecedentes e acordo de confidencialidade. A empresa garante que as conexões são criptografadas e ocorrem apenas com aprovação explícita do dono do robô.

Mas o modelo tem variantes menos transparentes. Segundo reportagem do MIT Technology Review publicada em fevereiro de 2026, no Japão funcionários filipinos já supervisionam remotamente robôs em lojas de conveniência por algumas centenas de dólares por mês. A reportagem documenta como roboticistas descrevem esse arranjo como “arbitragem de mão de obra” — o mesmo serviço físico, executado de onde o trabalho é mais barato.

Especialista alerta para limites e riscos ocultos

A pesquisadora Eduardo Sandoval, especialista em robótica social, alertou que produtos como o NEO são lançados “com grande alarde e capacidades limitadas”, enquanto mascaram tanto as questões de privacidade quanto os trabalhadores invisíveis por trás das máquinas.

Os próprios operadores da Tesla relataram problemas físicos: dores no pescoço e nas costas após turnos de sete horas com o traje de captura de movimento, além de enjoos severos causados pelo uso prolongado do headset de realidade virtual — um efeito colateral documentado na própria vaga de emprego publicada pela empresa.

O precedente da Amazon e o padrão que se repete

A história tem um precedente recente que ajuda a entender a dinâmica. Em 2016, a Amazon lançou o Just Walk Out: uma tecnologia de supermercado sem caixas, movida por câmeras e sensores de IA que rastreavam automaticamente o que cada cliente colocava na cesta e debitavam o valor da conta quando ele saía pela porta. A empresa apresentou o sistema como um triunfo da visão computacional autônoma.

Em 2024, a reportagem do The Information revelou que o sistema dependia de mais de 1.000 funcionários na Índia assistindo e rotulando vídeos para garantir que os checkouts fossem precisos. Em 2022, eram necessárias 700 revisões humanas para cada 1.000 transações — muito acima da meta interna de menos de 50 revisões por mil vendas. A Amazon encerrou o Just Walk Out em seus supermercados.

O padrão é idêntico: uma tecnologia apresentada como IA autônoma que, nos bastidores, depende de um volume significativo de trabalho humano para funcionar. A diferença entre o Just Walk Out e o NEO é que a 1X foi explícita sobre a dependência humana desde o início — o que representa uma transparência incomum no setor, mas não elimina as perguntas sobre privacidade e o verdadeiro estado da autonomia do produto.

O que o robô consegue fazer sozinho — e o que não consegue

Segundo testes independentes e a própria empresa, o NEO consegue executar um conjunto crescente de tarefas com autonomia real em 2026: navegar por cômodos, abrir portas, acionar interruptores de luz, regar plantas, organizar objetos em superfícies planas, buscar itens específicos e responder a perguntas por voz usando seu modelo de linguagem embarcado.

O que ele ainda não consegue fazer de forma confiável: identificar e tratar manchas em tecidos, operar eletrodomésticos com interfaces variadas, lidar com objetos caídos em ângulos imprevistos, dobrar roupas de formatos irregulares e qualquer tarefa que envolva chama, objetos cortantes ou situações de emergência.

A bateria dura cerca de quatro horas e se recarrega em 24 minutos — mas isso significa que em um turno doméstico de oito horas, o robô precisaria de pelo menos uma pausa de recarga. Para uma residência onde o dono trabalha fora o dia todo e quer chegar a uma casa organizada, a operação exigiria planejamento cuidadoso de horários e tarefas. Mais de 10.000 unidades foram reservadas desde o lançamento das pré-vendas, segundo a própria 1X.

O mercado que está sendo construído

O NEO não é um produto isolado. É o primeiro sinal visível de um mercado que analistas projetam crescer de US$ 3,14 bilhões em 2025 para US$ 81,55 bilhões até 2035 — crescimento anual de 38,5%, segundo a Research Nester. O Goldman Sachs projeta entre 50.000 e 100.000 unidades de robôs humanoides embarcados em 2026, com preço unitário entre US$ 15.000 e US$ 20.000.

Os concorrentes diretos do NEO ainda estão focados em fábricas. O Tesla Optimus foi implantado nas próprias plantas da empresa e deve ser vendido para outras companhias a partir de 2026. O Figure 02 realiza tarefas de montagem de chapas na BMW com precisão milimétrica. O robô da Agility Robotics opera em depósitos da Amazon há mais tempo que qualquer outro humanoide no mundo real.

A 1X apostou em ser a primeira a entrar no ambiente mais complexo e imprevisível de todos: a casa de uma família real, com seus gatos, suas crianças, seus copos tortos, suas gavetas de roupas bagunçadas e suas câmeras apontadas para o interior do lar.

A questão que ninguém sabe responder ainda

O modelo de negócio da 1X pressupõe uma troca: você paga US$ 20.000, deixa operadores enxergarem sua casa, e em troca recebe um robô que fica progressivamente mais capaz à medida que aprende com sua rotina específica.

Isso levanta perguntas que a regulação ainda não respondeu. Quem é dono dos dados de comportamento coletados dentro da sua casa? Por quanto tempo eles são armazenados? Podem ser usados para treinar outros robôs em outras casas? O que acontece com esses dados se a 1X for adquirida ou encerrar as operações?

A União Europeia está avançando no AI Act, com regras para sistemas de alto risco entrando em vigor em agosto de 2026. Os EUA ainda operam sem um marco federal específico para robótica doméstica com capacidade de vigilância. O Brasil não tem legislação que cubra esse cenário diretamente.

Bernt Børnich é direto sobre o que está sendo construído: “Humanoids foram por muito tempo coisa de ficção científica. Depois foram coisa de pesquisa. Mas hoje — com o lançamento do NEO — robôs humanoides se tornam um produto.” O que ele não diz é que esse produto, por enquanto, ainda funciona porque tem um ser humano dentro.

Os números que definem o momento

O mercado global de robôs humanoides foi estimado em US$ 3,14 bilhões em 2025 e deve chegar a US$ 81,55 bilhões em 2035. A 1X abriu pré-venda do NEO em outubro de 2025 por US$ 20.000, com mais de 10.000 reservas.

A autonomia inicial é de 60% a 70% — o restante depende de teleoperação humana. A Tesla paga até US$ 48 por hora para operadores vestirem trajes de captura de movimento e treinar o Optimus. Um especialista em robótica da UC Berkeley estima que seriam necessários 100.000 anos de coleta manual para acumular dados físicos equivalentes aos que os modelos de linguagem usaram para aprender a escrever.

O robô que vai dobrar sua roupa existe. O humano que vai ensiná-lo a fazer isso também existe — e por enquanto, quando você não está olhando, é ele quem faz.

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Fonte
Débora Araújo

Débora Araújo é redatora no Click Petróleo e Gás, com mais de dois anos de experiência em produção de conteúdo e mais de mil matérias publicadas sobre tecnologia, mercado de trabalho, geopolítica, indústria, construção, curiosidades e outros temas. Seu foco é produzir conteúdos acessíveis, bem apurados e de interesse coletivo. Sugestões de pauta, correções ou mensagens podem ser enviadas para contato.deboraaraujo.news@gmail.com

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