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Rena não é bicho fofinho do frio, é uma máquina biológica: muda a cor dos olhos, enxerga ultravioleta, esquenta o ar nas narinas, troca cascos por garras no inverno e encara migrações brutais todo ano sem parar

Publicado em 02/02/2026 às 19:20
Assista o vídeoRena no Ártico: luz ultravioleta, cascos e migrações explicam como a espécie aquece o corpo, acha alimento e atravessa o inverno.
Rena no Ártico: luz ultravioleta, cascos e migrações explicam como a espécie aquece o corpo, acha alimento e atravessa o inverno.
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A Rena vive em tundras e taigas da América do Norte, Europa e Ásia. Para suportar o Ártico, ela isola calor com pelos ocos, aquece o ar nas narinas, afia cascos no inverno, enxerga ultravioleta e migra em bandos enormes atrás de comida mesmo quando a neve vira uma prisão.

A Rena parece tranquila quando está parada, mas o que existe ali é um pacote de engenharia biológica voltado para um único objetivo: não perder calor, não desperdiçar energia e não ficar para trás. Em regiões onde o vento corta, a luz some por longos períodos e o alimento fica escondido sob gelo, cada detalhe do corpo vira uma ferramenta de sobrevivência.

O mais impressionante é que a Rena não depende de “um truque” só. Ela combina isolamento térmico, aquecimento de ar, mudança de casco, visão especializada, metabolismo ajustável e comportamento social em massa. É um conjunto de adaptações que se encaixam como peças, criando um animal capaz de atravessar o ano inteiro em ambientes onde poucos mamíferos aguentam.

Onde a Rena vive e por que esse ambiente cobra um preço alto

A Rena ocupa zonas geladas e abertas, como tundras e taigas, onde a vegetação é baixa, o inverno é longo e a janela de comida “fácil” é curta.

Ali, não basta ter força: é preciso suportar semanas de frio contínuo, lidar com neve endurecida e encontrar alimento quando quase tudo parece igual.

Essa vida em extremos empurra a espécie para estratégias de economia. No Ártico, gastar energia demais pode ser tão perigoso quanto passar fome, porque o corpo vira um “saldo” que precisa durar até a próxima oportunidade real de se alimentar.

Pelagem dupla e pelos “ocosos” que viram jaqueta térmica natural

Uma das primeiras barreiras da Rena contra o frio é a pelagem, formada por dois tipos de pelo: um interno, denso e macio, e um externo com ar por dentro.

Essa camada funciona como isolamento, segurando o calor do corpo como se fosse uma jaqueta térmica natural.

O efeito prático é direto: a Rena reduz a perda de calor sem precisar acelerar o metabolismo o tempo todo. Quanto menos calor escapa, menos combustível o corpo precisa queimar, e isso faz diferença em um lugar onde alimento não é garantido.

Narinas que aquecem o ar e ajudam a segurar umidade

O focinho da Rena não é só “nariz”. As narinas funcionam como um sistema de aquecimento embutido: o ar gelado entra, passa por uma rede complexa de vasos sanguíneos e chega aquecido aos pulmões. Esse caminho evita que o corpo “pague” o preço de respirar ar frio o dia inteiro.

Além disso, esse mecanismo ajuda a manter a umidade interna em períodos rigorosos, quando o ambiente é seco e gelado ao mesmo tempo. Respirar sem perder água e calor é uma vantagem escondida, mas essencial para quem passa meses no limite do conforto fisiológico.

Cascos que mudam com a estação e viram lâmina no gelo

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Os cascos da Rena se transformam ao longo do ano. No verão, ficam mais largos e macios, ideais para caminhar em solo úmido e lamacento.

No inverno, endurecem e ficam mais afiados, funcionando como “garras” que evitam escorregões e dão tração no gelo.

E não é só locomoção. No inverno, a Rena usa os cascos para escavar a neve com golpes rápidos e precisos, removendo camadas endurecidas até alcançar líquens e musgos.

O casco vira ferramenta e lâmina ao mesmo tempo, permitindo andar, cavar e sobreviver quando a comida está “trancada” embaixo do branco.

Olhos que mudam de cor e uma visão que enxerga ultravioleta

A adaptação mais inesperada está nos olhos. Um estudo publicado em 2013 apontou que a Rena consegue enxergar luz ultravioleta e que a cor dos olhos muda conforme a estação: dourados no verão e azuis no inverno. Essa mudança aumenta a sensibilidade à luz e ajuda na longa escuridão do Ártico.

Essa visão especializada também vira “mapa” de comida. Muitos líquens refletem luz ultravioleta, enquanto a neve tende a absorver essa radiação, criando contraste.

Para a Rena, o que parece tudo branco para humanos pode ter pistas visuais claras, facilitando localizar alimento sob condições que seriam cegas para muita gente.

Metabolismo, gordura e a dieta que parece ruim, mas salva a vida

Quando o inverno aperta, a Rena ajusta o metabolismo. Ela reduz a taxa metabólica e usa melhor as reservas corporais de gordura, garantindo combustível para atravessar períodos longos com pouca comida disponível. Não é “hibernação”, mas é uma economia fina: gastar menos para durar mais.

A dieta também revela o nível de desafio. No inverno, boa parte do que a Rena come são líquens, uma parceria entre fungos e algas. Eles são pobres em nutrientes, mas extremamente resistentes ao frio, e por isso continuam disponíveis quando quase nada cresce.

A sobrevivência passa por aceitar um alimento difícil e aprender a encontrá-lo, mesmo debaixo de neve compactada.

Migrações brutais, bandos gigantes e comunicação para não quebrar o grupo

A Rena é extremamente social e forma grandes bandos que podem reunir milhares de indivíduos caminhando juntos por longas distâncias. Isso aumenta a segurança contra predadores, facilita a busca por alimento e reduz a chance de um indivíduo isolado virar alvo fácil.

Esses bandos realizam algumas das maiores migrações terrestres entre mamíferos. Em alguns casos, percorrem mais de mil quilômetros por ano, atravessando rios congelados, planícies ventosas e florestas densas.

A comunicação sustenta o sistema: sons, bufadas e posturas corporais ajudam a manter o bando unido e evitar conflitos. Quando o grupo funciona, ele vira escudo, bússola e estratégia coletiva.

Filhotes que correm cedo, predadores e o papel ecológico que quase ninguém nota

Os filhotes da Rena nascem prontos para o mundo real: conseguem se levantar e correr em poucos minutos, algo vital em ambientes abertos, onde predadores podem estar por perto.

A espécie enfrenta ameaças como lobos e ursos, e depende de vigilância constante, detecção de movimento e força do grupo para reduzir perdas.

A Rena também mexe no ecossistema. Ao pastar e cavar neve, ela modifica a estrutura da vegetação, ajuda a arejar o solo e influencia a distribuição de nutrientes.

Ela não só sobrevive no ambiente extremo: ela altera esse ambiente, funcionando como uma espécie de “engenheira ecológica” em grandes áreas de tundra.

Chifres, diferenças entre machos e fêmeas e o detalhe que muda a disputa por comida

A Rena é um caso curioso entre cervídeos: machos e fêmeas possuem chifres, mas usam essas estruturas de formas diferentes ao longo do ano.

Os machos usam principalmente na época de reprodução, disputando território e acesso às fêmeas, e depois perdem os chifres entre novembro e dezembro.

As fêmeas mantêm os chifres até o fim do inverno, e isso faz sentido: elas podem cavar neve e disputar alimento em um período crítico.

Os chifres não são permanentes: caem e crescem novamente todos os anos, e podem crescer vários centímetros por semana durante o verão, um dos tecidos de crescimento mais rápido entre mamíferos. Algumas galhadas podem chegar a quase 1,5 metro.

É uma estrutura cara de produzir, mas valiosa para competir, cavar e sobreviver, e seu tamanho reflete diretamente o estado nutricional do animal.

Ameaças atuais e por que a Rena pode ser mais vulnerável do que parece

Apesar de toda essa resistência, a Rena enfrenta um risco crescente com mudanças climáticas. A formação de camadas de gelo causadas por chuva que congela rapidamente pode aprisionar o alimento sob o solo e impedir o acesso, levando a eventos de mortalidade em massa em alguns rebanhos.

O paradoxo é esse: a Rena é “máquina biológica” para o frio, mas o frio mudando de comportamento pode quebrar as regras do jogo.

Quando a neve vira uma tampa de gelo, cascos, chifres e visão não bastam, porque o problema deixa de ser localizar alimento e passa a ser alcançar alimento.

A Rena não é um símbolo inofensivo do frio.

Ela muda casco, muda olho, muda estratégia, regula o metabolismo, cava neve, encontra líquens por contraste e ainda atravessa migrações que parecem desumanas para um animal desse porte. O que parece fofura à distância é, na prática, um manual vivo de sobrevivência extrema.

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Maria Heloisa Barbosa Borges

Falo sobre construção, mineração, minas brasileiras, petróleo e grandes projetos ferroviários e de engenharia civil. Diariamente escrevo sobre curiosidades do mercado brasileiro.

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