O episódio reuniu duas sondas de países diferentes em um cruzamento de altíssima velocidade ao redor da Lua, resultando em imagens que viralizaram justamente pela forma inusitada de uma das espaçonaves envolvidas
Existem encontros no espaço que parecem coisa de ficção científica, mas que aconteceram de verdade — e foram registrados em imagens reais. Em 2024, a Nasa flagrou uma cena rara: uma espaçonave sul-coreana cruzando a órbita da Lua em alta velocidade, com um formato tão peculiar que lembrava, à primeira vista, uma prancha de surf deslizando pelo espaço.
Segundo o próprio site oficial da Nasa, tudo começou com o Orbitador de Reconhecimento Lunar (LRO), satélite lançado pela agência espacial americana em 2009 com a missão de investigar a superfície lunar em detalhes. O objetivo do LRO sempre foi identificar possíveis locais de pouso, recursos naturais e características geológicas interessantes, como os chamados tubos de lava — e, ao longo dos anos, o equipamento já mapeou grande parte da superfície da Lua, com exceção das regiões profundamente sombreadas localizadas nas áreas polares.
A espaçonave coreana que parece uma prancha de surf
Foi justamente em uma dessas rotas de monitoramento que o LRO flagrou o que parecia ser uma espécie de prancha de surf passando em alta velocidade pela órbita lunar. Na verdade, tratava-se da espaçonave Danuri, lançada pela Coreia do Sul em agosto de 2022 e considerada o primeiro orbitador lunar da história do país. Nesse sentido, a missão do Danuri vai muito além de simplesmente sobrevoar a Lua: o equipamento foi projetado para desenvolver e testar novas tecnologias — incluindo sistemas de internet espacial — além de produzir um mapa topográfico detalhado da superfície lunar.
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De acordo com o Instituto de Pesquisa Aeroespacial da Coreia (KARI), responsável pela missão, o trabalho do satélite Danuri deve ajudar a selecionar futuros locais de pouso e a identificar recursos estratégicos como urânio, hélio-3, silício, alumínio e até gelo de água. Entre os instrumentos a bordo da espaçonave estão um espectrômetro, um magnetômetro e diferentes câmeras — uma delas, batizada de Shadowcam, é capaz de fotografar justamente as regiões polares sombreadas que o LRO não consegue mapear. Curiosamente, esse instrumento específico foi desenvolvido pela própria Nasa, o que reforça o caráter colaborativo por trás das duas missões, mesmo pertencendo a países diferentes.
O cruzamento a 11.500 km/h e os ângulos inéditos das imagens

Enquanto isso, o momento mais marcante de todo esse encontro orbital aconteceu em março de 2024, quando as duas espaçonaves passaram uma pela outra a uma velocidade combinada de 11.500 km/h. Ao todo, houve três órbitas diferentes que posicionaram o LRO em condições ideais para capturar imagens do Danuri em pleno movimento — e, em cada uma dessas passagens, a separação vertical entre as duas espaçonaves variou.
Na primeira imagem, o LRO estava a apenas cinco quilômetros acima do satélite sul-coreano, que aparece registrado como uma silhueta semelhante a uma prancha de surf. Para conseguir esse ângulo, o orbitador da Nasa precisou apontar suas câmeras 43 graus abaixo do posicionamento habitual. Já na segunda órbita, a distância entre as duas naves caiu para apenas quatro quilômetros. Por fim, na terceira e última passagem, a separação subiu para oito quilômetros, exigindo que o LRO fosse orientado em um ângulo de 60 graus para capturar o Danuri em quadro.
Contudo, esse não foi o primeiro encontro fotográfico entre as duas sondas. Em abril de 2023, foi a vez de o Danuri registrar o LRO, usando justamente a câmera Shadowcam, quando o satélite americano estava 18 quilômetros acima da espaçonave coreana. Ou seja, o episódio de 2024 marcou, na verdade, a segunda vez em que as duas missões conseguiram se fotografar mutuamente durante a órbita lunar — um feito raro, que exige planejamento orbital extremamente preciso, já que qualquer pequena variação de trajetória poderia impedir que as espaçonaves ficassem alinhadas o suficiente para captar uma imagem nítida uma da outra.
Segundo Mark Robinson, pesquisador principal da câmera LROC e cientista da Universidade Estadual do Arizona, dado o altíssimo grau de velocidade relativa entre as duas espaçonaves, foi necessária uma precisão milimétrica para apontar o equipamento no momento exato e capturar um vislumbre do Danuri. A afirmação, divulgada no site oficial da Nasa, reforça o nível de planejamento técnico por trás de imagens que, à primeira vista, parecem quase acidentais.

