Considerada extinta por vestígios fósseis de 5 mil anos, a lagartixa minúscula Phyllodactylus maresi foi reencontrada na Ilha de Rábida, nas Galápagos, depois de um projeto iniciado em 2011 para eliminar roedores invasores. Amostras de cauda e DNA confirmaram espécie e linhagem distinta em 2021, reforçando a recuperação do ecossistema.
A lagartixa minúscula que por décadas parecia existir apenas como memória fossilizada voltou a aparecer onde ninguém esperava: viva, discreta e escondida na vegetação e nas fendas de uma ilha do arquipélago. Em Ilha de Rábida, nas Ilhas Galápagos, na costa do Equador, o reencontro bagunçou um consenso antigo e acendeu uma pergunta simples e desconfortável: como algo dado como extinto conseguiu permanecer fora do olhar humano por tanto tempo?
O retorno da lagartixa minúscula não foi um golpe de sorte isolado. Ele veio depois de uma mudança concreta no ambiente: em 2011, começou um esforço para eliminar roedores exóticos e invasores introduzidos na ilha. Com o avanço do controle, a vida nativa começou a se reorganizar e, um ano depois, biólogos avistaram uma pequena lagartixa pouco conhecida, fotografaram e chegaram a coletar um exemplar, que acabou perdido antes de ser estudado como deveria.
Quando uma espécie vira “fóssil” na cabeça das pessoas

Durante muito tempo, o que se sabia sobre a lagartixa-de-dedos-de-folha conhecida como Phyllodactylus maresi vinha de vestígios fósseis com cerca de 5 mil anos.
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O animal tem menos de 10 centímetros e hábitos noturnos, um perfil perfeito para desaparecer de forma silenciosa, ainda mais em um ambiente insular com recantos de difícil acesso e atividade humana limitada.
A ideia de extinção se fortaleceu porque a ausência parecia absoluta. Pesquisadores acreditavam que a lagartixa tinha desaparecido de Rábida antes mesmo da chegada de seres humanos à ilha, no século 16.
Quando uma espécie some antes do olhar humano moderno se fixar nela, o “desaparecimento” vira narrativa fechada, e a ciência passa a trabalhar com a ausência como se fosse um fato definitivo.
O que roedores invasores fazem com ilhas e por que isso importa aqui

Ilhas funcionam como laboratórios naturais: espécies nativas tendem a ter adaptações específicas, populações menores e um equilíbrio frágil entre predadores, presas e recursos.
Nesse tipo de cenário, a introdução de roedores invasores costuma ser uma ruptura forte, porque eles podem predar ovos e filhotes, competir por alimento, mexer em sementes e alterar microhabitats em um ritmo que a fauna local não consegue acompanhar.
Foi nesse contexto que, em 2011, começou o projeto para exterminar roedores exóticos em Rábida. Não é um detalhe burocrático.
A retirada de uma pressão invasora pode abrir espaço para a natureza “respirar” de novo, e, em ilhas, esse respiro às vezes aparece de maneira rápida: plantas rebrotam, aves voltam a nidificar com mais sucesso e espécies discretas ganham chance de persistir sem serem esmagadas por um inimigo recente.
O primeiro sinal, o exemplar perdido e a decisão de voltar

Foto: divulgação Island Conservation
Com o sucesso do controle de roedores, em 2012 surgiu o primeiro sinal moderno do que parecia impossível: uma pequena lagartixa foi avistada por biólogos. Eles registraram, coletaram e tentaram levar o material para estudo, mas o espécime foi perdido.
Esse tipo de episódio costuma ser frustrante, mas também é revelador: se um animal raro aparece uma vez, ele pode aparecer de novo, desde que haja método e insistência.
Sete anos depois, cientistas retornaram a Rábida com uma missão clara: encontrar novamente a lagartixa misteriosa e documentá-la com rigor. E conseguiram.
Novos indivíduos foram localizados, e o trabalho deixou de ser “relato” para virar evidência bem construída. Foram coletadas amostras da cauda de nove exemplares, um procedimento que permite análise genética sem precisar sacrificar o animal, algo especialmente importante quando se lida com uma espécie rara.
DNA, anatomia e a confirmação que encerra a dúvida
A confirmação não veio de um único teste, e isso é parte do que dá força ao achado. Exames de DNA e comparação de características anatômicas foram usados para garantir que não se tratava de uma espécie parecida ou de uma variação já conhecida em outras ilhas.
Em 2021, em uma nova viagem, mais dez indivíduos foram recolhidos, reforçando a amostragem e diminuindo a chance de erro.
Esse conjunto de etapas importa porque redescobertas podem ser enganadoras quando se apoia apenas em aparência. Lagartixas podem ter padrões corporais similares entre ilhas, e o que parece “igual” à noite pode não ser igual no genoma.
Ao reunir genética e morfologia, a conclusão ficou sólida: a espécie reaparecida correspondia às lagartixas-de-dedos-de-folha que haviam sido tratadas como ausentes da natureza local.
A linhagem genética única e o que ela diz sobre isolamento
O resultado mais intrigante veio do laboratório: as lagartixas-de-dedos-de-folha de Rábida pertencem a uma linhagem diferente das observadas nas demais ilhas do arquipélago.
Essa diferença genética sugere isolamento prolongado, história evolutiva própria e uma espécie que, mesmo vivendo em um conjunto de ilhas próximas, seguiu um caminho particular.
Isso muda a leitura ecológica. Uma linhagem genética única não é apenas “uma curiosidade”: ela representa diversidade que pode desaparecer sem substituto.
Quando uma população insular carrega um ramo exclusivo da árvore evolutiva, perdê-la significa apagar uma história inteira de adaptação, seleção e sobrevivência em condições específicas.
A “cura” do ecossistema e o que a redescoberta realmente prova
Para Paula Castaño, gerente do Programa de Impacto da Island Conservation, o retorno da lagartixa destaca o poder da natureza de se recuperar quando tem oportunidade, citando a recuperação rápida observada em ilhas após reequilíbrios ecológicos.
A mensagem central é que, ao reduzir uma pressão invasora, o sistema pode responder de forma visível e até surpreendente.
Mas a redescoberta também prova outra coisa: o invisível não é o inexistente. Uma espécie pequena, noturna e discreta pode persistir em bolsões, em microrefúgios, em pontos onde a busca humana não alcança por anos.
A diferença é que, quando o ambiente para de “empurrar” contra ela, esses bolsões deixam de ser apenas sobrevivência e voltam a ser população.
A ciência como condição para a surpresa e o peso do financiamento
O curador de répteis do Museu de Zoologia da Universidade Católica do Equador, Omar Torres-Carvajal, reforça um ponto sensível: o valor da coleta de espécimes e de amostras genômicas tanto para descoberta científica quanto para conservação.
E ele aponta um gargalo que costuma ficar fora da manchete, mas decide o futuro: financiamento adequado continua sendo um desafio significativo.
Essa fala encaixa perfeitamente na história de uma lagartixa que quase se perdeu de novo em 2012, quando o exemplar coletado desapareceu.
Sem investimento, a ciência depende demais do acaso. Com investimento, ela transforma encontros raros em conhecimento acumulado, cria protocolos, monitora populações, orienta políticas de conservação e aumenta a chance de que a próxima “surpresa” não seja apenas um susto, mas uma oportunidade real de proteção.
A volta da lagartixa minúscula em Rábida reorganiza certezas e mostra como o equilíbrio ambiental pode ser frágil, mas também reversível.
Um projeto de controle de roedores iniciado em 2011 abriu espaço para que um réptil noturno, com menos de 10 centímetros e conhecido por fósseis de 5 mil anos, reaparecesse vivo, fosse confirmado por DNA e ainda revelasse uma linhagem genética única. A história não é só sobre um animal redescoberto, é sobre o que acontece quando a natureza ganha chance de se recompor e quando a ciência insiste em procurar.

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