Uma família esqueceu uma obra herdada há gerações na porta de casa durante os preparativos para viajar, e o desfecho do caso só chegou dias depois, vindo de uma cidade a mais de 500 quilômetros de distância
Existem histórias que parecem roteiro de filme de enredo, mas que aconteceram, de fato, em uma manhã comum de sábado, no centro histórico de Sevilha. No último fim de semana de junho de 2026, uma pintura original do artista valenciano Joaquín Sorolla — peça pequena, que retrata dois barcos em uma praia — desapareceu da calçada de uma residência na Rua Rafael González Abreu, e o caso rapidamente se transformou em uma investigação policial que só seria solucionada dias depois, a partir de um telefonema vindo de Múrcia.
Segundo apuração de veículos espanhóis como Infobae, El Español e La Cámara del Arte, tudo começou de forma banal: uma família se preparava para viajar rumo às férias de verão e carregava malas no carro estacionado em frente de casa. Em meio à correria, os moradores apoiaram o quadro — que pertencia à família havia muitos anos — encostado na fachada do prédio, na calçada, e simplesmente esqueceram de levá-lo junto com o restante da bagagem.
A correria das malas, o descuido e a suspeita de furto
Quando perceberam a ausência da obra, os proprietários já estavam a caminho do litoral. Voltaram a Sevilha na esperança de encontrá-la exatamente onde a haviam deixado, mas a calçada estava vazia. A partir daí, o caso foi registrado como uma possível desaparição criminosa na Polícia Nacional espanhola.
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Nesse sentido, as primeiras imagens de câmeras de segurança da região reforçaram o clima de mistério: as gravações mostraram que mais de uma pessoa havia se aproximado do quadro antes que ele fosse definitivamente levado embora, alimentando a hipótese de que algum turista distraído — ou até mesmo um golpe premeditado — pudesse estar por trás do sumiço. A família, então, espalhou cartazes pela cidade em espanhol e inglês, oferecendo recompensa a quem encontrasse a peça e descrevendo-a publicamente como uma obra “de grande valor sentimental”, avaliada por outros veículos em algo entre 30 mil e 60 mil euros.
Enquanto isso, a repercussão do caso cresceu rapidamente pela cidade. Afinal, não é todos os dias que uma pintura original de um dos maiores nomes da arte espanhola simplesmente desaparece de uma calçada residencial. Por outro lado, as autoridades logo perceberam que os elementos do caso não se encaixavam exatamente na definição de roubo: como a obra estava desacompanhada em via pública e não houve uso de força ou intimidação contra ninguém, os investigadores passaram a tratar o episódio juridicamente como um caso de apropriação indevida de bem perdido — e não como furto qualificado ou roubo propriamente dito.
A ligação que veio de Múrcia e resolveu o mistério
A resposta para o enigma, no entanto, surgiu de um lugar improvável: a pedania de Puebla de Soto, na região de Múrcia, a mais de 500 quilômetros de Sevilha. De acordo com informações da Europa Press e da emissora Radio Sevilha, Andrés, morador local que havia passado o fim de semana na capital andaluza acompanhado da própria família, entrou em contato com a Polícia Nacional para relatar que estava com a obra em seu poder.
Segundo o relato de Andrés à Radio Sevilha, ele avistou o quadro apoiado no chão da Rua Canalejas, próximo ao hotel onde estava hospedado, e, como ninguém parecia estar tomando conta da peça, presumiu se tratar de um objeto descartado. “Peguei porque gostei da moldura”, confessou ele às autoridades, explicando que levou a pintura até o próprio quarto de hotel com a intenção de, mais tarde, transportá-la para casa.
Foi somente de volta a Múrcia que Andrés teve a real dimensão do que havia encontrado. Curioso a respeito da obra pendurada em seu quarto, recorreu a um aplicativo de inteligência artificial no celular para tentar identificar o autor da pintura — e o resultado o deixou surpreso ao confirmar tratar-se de uma peça genuína de Joaquín Sorolla. “Usei a IA do meu celular para identificar o quadro e pensei: ‘Nossa, esse quadro é bom mesmo!'”, relembrou, ainda impressionado com a descoberta.
Foi justamente acompanhando as notícias locais que Andrés soube que a família havia registrado o desaparecimento na polícia, o que o levou a procurar as autoridades por conta própria. “Então, liguei para a polícia para dizer que o quadro estava comigo”, relatou. Diante da confirmação, agentes da Polícia Nacional se deslocaram até Múrcia para examinar pessoalmente a peça e certificar oficialmente que se tratava, de fato, do Sorolla desaparecido em Sevilha.
Ainda assim, vale destacar que a família preferiu manter em sigilo o valor exato de mercado da obra, embora outros veículos tenham estimado a peça entre 30 mil e 60 mil euros com base em avaliações preliminares. O que se sabe, oficialmente, é que a pintura — de pequenas dimensões e com a assinatura do mestre da luz espanhola — retornará em breve às mãos de seus verdadeiros donos. Já para Andrés, a próxima vez que precisar carregar o carro para viajar, é bem provável que confira a calçada com bem mais atenção antes de partir.
