A Refinaria de Mataripe, na Bahia, privatizada durante o governo Bolsonaro em 2021, reajustou o preço do diesel em 87% entre 27 de fevereiro e 31 de março de 2026, saltando de R$ 3,28 para R$ 6,15 por litro. No mesmo período, a Petrobras reajustou o diesel de R$ 3,27 para R$ 3,65, uma alta de 12%. Os dados foram levantados pelo Instituto Brasileiro de Estudos Políticos e Sociais (Ibeps) com base em informações das próprias empresas.
O resultado é que o diesel vendido por Mataripe ficou 64% mais caro que o da Petrobras no mesmo mês, usando o mesmo petróleo como matéria-prima e atendendo ao mesmo mercado consumidor. Mas a Bahia não é o único caso. Outras duas refinarias privatizadas também reajustaram muito acima da estatal no período da crise provocada pela guerra no Irã e pelo fechamento do Estreito de Ormuz.
No Amazonas, a Ream elevou o diesel de R$ 3,78 para R$ 5,10, alta de 35%. No Rio Grande do Norte, a Clara Camarão reajustou o diesel S-500 de R$ 3,33 para R$ 5,78, avanço de 74%. Enquanto isso, a Petrobras manteve o reajuste em 12% em todas as suas refinarias, absorvendo parte da volatilidade internacional em vez de repassar integralmente ao consumidor.
Por que a diferença é tão grande se o petróleo é o mesmo?
A explicação está no modelo de precificação.
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As refinarias privatizadas operam com o chamado Preço de Paridade de Importação (PPI), que vincula o preço do diesel diretamente à cotação internacional do barril, ao dólar e aos custos de transporte marítimo.
Quando o barril saiu de US$ 70 para mais de US$ 100 em março, com picos de US$ 120 por causa do fechamento de Ormuz, essas refinarias repassaram a alta integralmente ao consumidor.
A Petrobras, por ser estatal, tem margem para amortecer parte da volatilidade, segurando o preço interno mesmo quando o mercado internacional dispara.
Isso não significa que a Petrobras opere no prejuízo, mas que ela aceita margens menores em momentos de crise para evitar impacto direto na inflação e no custo do frete.
O problema vai além do preço
No caso da Ream, no Amazonas, a refinaria reduziu suas operações de refino e passou a funcionar basicamente como uma base de importação.
Na prática, o Amazonas perdeu capacidade industrial e ficou mais dependente de diesel importado, justamente o tipo de combustível mais caro durante crises internacionais como a atual.
O governo federal reagiu com um pacote de subsídios: R$ 0,32 por litro para produtores nacionais e R$ 1,20 por litro para importadores, com custo dividido entre União e estados, limitado a R$ 4 bilhões.
Mesmo com o subsídio, o diesel na bomba chegou a R$ 7,26 por litro na terceira semana de março, o maior valor do ano.
O modal rodoviário movimenta 65% das cargas no Brasil, e o diesel representa até 50% do custo operacional em rotas de longa distância.
A discussão sobre privatização de refinarias ganha um dado concreto com a crise atual: em vez de criar concorrência e reduzir preços, como prometido na época da venda, as refinarias privatizadas criaram monopólios regionais que repassam a alta do petróleo com mais intensidade e velocidade do que a Petrobras.
Mesmo barril, mesmo mês, mesmo país: diesel privado custou até 87% mais que o da Petrobras.
Comenta aí: a privatização das refinarias beneficiou o consumidor ou só as empresas?
