O avanço do biometano no Brasil acelera a transição energética ao transformar resíduos do agronegócio em energia renovável, ampliando investimentos, reduzindo emissões e fortalecendo a matriz energética nacional.
A produção de biometano no agronegócio brasileiro entrou em uma nova fase de expansão em 2025, consolidando o setor como protagonista da energia renovável no país. Segundo matéria publicada pelo Globo Rural nesta quarta-feira (07), com novas plantas em construção ou prontas para operar, o Brasil praticamente dobrou sua capacidade instalada de produção desse gás renovável, reforçando o papel do campo na transição energética e na redução das emissões de gases de efeito estufa.
De acordo com dados da Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP), o agronegócio encerrou 2025 com 23 unidades de produção de biometano em construção ou já concluídas e aguardando autorização para operação. Esses projetos adicionam uma capacidade instalada de 688,1 mil metros cúbicos por dia, volume que quase duplica a produção atual do setor agropecuário no país.
Biometano no agronegócio impulsiona a expansão da energia renovável no Brasil
O avanço ocorre em um momento estratégico, marcado pela implementação da Lei do Combustível do Futuro, que cria metas obrigatórias de descarbonização e impulsiona a demanda por combustíveis de baixo carbono. O biometano surge como uma das soluções mais imediatas e eficientes para a transição energética brasileira.
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Atualmente, o Brasil possui oito plantas de biometano ligadas diretamente ao agronegócio, com capacidade total de produção de 355,9 mil metros cúbicos por dia. Com a entrada em operação das novas unidades, esse número será praticamente dobrado, consolidando o setor agropecuário como um dos principais motores da energia renovável no país.
Considerando todas as origens de produção, incluindo resíduos urbanos e aterros sanitários, o Brasil conta hoje com 17 plantas de biometano em operação e outras 42 em construção. Mesmo assim, especialistas apontam que o país ainda explora uma parcela reduzida de seu potencial técnico.
Mesmo com os projetos já autorizados e previstos, o país deverá alcançar pouco mais de 5% do potencial nacional, afirma Talyta Viana, coordenadora técnica e regulatória da Associação Brasileira do Biogás (Abiogás). O dado reforça o enorme espaço para expansão, especialmente no agronegócio, onde a oferta de resíduos é abundante.
Marco regulatório fortalece o biometano na transição energética
O crescimento observado em 2025 está diretamente relacionado à consolidação do marco regulatório do setor. A Lei do Combustível do Futuro determina que produtores e importadores de gás natural deverão cumprir metas de redução de emissões por meio da aquisição de biometano ou de certificados lastreados nesse combustível.
Inicialmente, o programa previa uma meta de redução de emissões de 1% em 2026. Contudo, em consulta pública aberta pelo Ministério de Minas e Energia (MME), a Pasta propôs um ajuste para 0,25%. Para o deputado Arnaldo Jardim (Cidadania-SP), autor da lei, a mudança não compromete os objetivos do programa.
Trata-se de um ajuste de curto prazo, ligado principalmente à adaptação tecnológica, e não aos custos. Segundo ele, a estratégia visa garantir que a política alcance maturidade e estabilidade no médio prazo, favorecendo investimentos estruturantes em energia renovável.
Setor sucroenergético lidera o potencial de biometano no agronegócio
O setor sucroenergético concentra quase 50% do potencial de produção de biometano atribuído ao agronegócio brasileiro. O combustível é gerado a partir de resíduos como vinhaça e torta de filtro, subprodutos da cadeia da cana-de-açúcar amplamente disponíveis nas usinas do país.
Além da cana, outras cadeias produtivas também apresentam elevado potencial. Resíduos da soja, do milho, da macaxeira, do açaí e da pecuária despontam como matérias-primas relevantes para a expansão da energia renovável no meio rural.
A avaliação indica que há potencial em todos os estados do país, destaca Talyta Viana. Essa diversidade de fontes fortalece o papel do agronegócio como agente central da transição energética, promovendo desenvolvimento regional e redução de impactos ambientais.
Metas de descarbonização ampliam demanda por biometano
A legislação prevê que a meta de descarbonização possa alcançar até 10% do volume de gás natural comercializado no país. Caso esse patamar seja atingido, o potencial adicional de crescimento da produção de biometano pode variar entre 6 milhões e 7 milhões de metros cúbicos por dia, dependendo do consumo nacional.
Para Tiago Santovito, diretor da Abiogás, a definição clara dessas metas é fundamental para destravar investimentos. Tanto os projetos quanto o capital já existem e dependem apenas dessa sinalização, afirma.
O cenário indica que o agronegócio deve liderar essa expansão, ampliando sua participação na oferta de energia renovável e reduzindo a dependência de combustíveis fósseis importados.
Certificação de origem fortalece o mercado de energia renovável
Outro marco aguardado para 2026 é a emissão do primeiro Certificado de Garantia de Origem do Biometano (CGOB). O instrumento funcionará como um selo de rastreabilidade, assegurando a origem renovável do combustível e aumentando a transparência do mercado.
A definição do custo desse certificado é fundamental para viabilizar novos investimentos, explica Santovito. A expectativa é que a certificação fortaleça a confiança de distribuidores, consumidores industriais e investidores, consolidando o biometano como vetor estratégico da transição energética.
Uso urbano e industrial do biometano comprova viabilidade econômica
Um exemplo concreto da integração entre produção e consumo está no interior de São Paulo. Presidente Prudente tornou-se a primeira cidade brasileira a contar com uma rede urbana abastecida com biometano produzido a partir de resíduos da cana-de-açúcar.
O combustível, fornecido pela Usina Cocal, em Narandiba, abastece residências, comércios, indústrias e postos de GNV. O biometano é injetado na rede e pode ser destinado a diferentes aplicações, explica Talyta Viana. A experiência demonstra que o agronegócio pode atuar como fornecedor estratégico de energia renovável para centros urbanos, fortalecendo a transição energética regional.
Biometano reduz emissões e substitui combustíveis fósseis
O uso do biometano como substituto do diesel na frota pesada é outro fator que impulsiona o setor. Estudos indicam que o combustível pode reduzir em até 90% as emissões de gases de efeito estufa em comparação aos fósseis.
Segundo a Abiogás, o aproveitamento total do potencial nacional permitiria suprir mais de 100% da importação brasileira de gás e substituir até 60% do consumo nacional de diesel. Atualmente, cerca de 30% da demanda de diesel é atendida por importações. O biometano se apresenta como uma alternativa estratégica para diminuir a dependência de fontes externas, reforça Talyta Viana.
Biometano consolida novo ciclo do agronegócio na transição energética
O avanço do biometano marca um novo ciclo de inovação no agronegócio brasileiro, transformando resíduos em valor econômico, ambiental e energético. Com baixa intensidade de carbono — inferior a 10 g de CO₂ equivalente por megajoule, segundo a Empresa de Pesquisa Energética (EPE) —, o combustível se destaca entre as principais soluções para a energia renovável no país.
Ao ampliar a produção, reduzir emissões e fortalecer a segurança energética, o agronegócio consolida seu papel como protagonista da transição energética brasileira. O biometano deixa de ser apenas uma alternativa e passa a ocupar posição central no futuro da matriz energética nacional.

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