A JetBio, controlada pelo grupo americano Summit Agricultural Group, anunciou em junho de 2026 avanço no planejamento de uma unidade industrial de grande escala dedicada à produção de combustível sustentável para aviação (SAF) a partir de etanol de cana-de-açúcar e milho no Brasil, em projeto que posicionaria o país como um dos principais exportadores mundiais de SAF.
O que é o SAF e por que o Brasil tem vantagem competitiva

O SAF — Sustainable Aviation Fuel, ou Combustível Sustentável para Aviação — é produzido a partir de biomassas renováveis, resíduos agrícolas ou fontes sintéticas e emite entre 60% e 90% menos dióxido de carbono em seu ciclo de vida em comparação ao querosene de aviação convencional. A aviação é responsável por cerca de 2,5% das emissões globais de CO₂, e o SAF é apontado como a principal alternativa de descarbonização do setor no médio prazo.
O Brasil produz etanol com uma das menores intensidades de carbono do mundo, resultado da combinação de cana-de-açúcar cultivada com alta eficiência energética e de milho produzido no Centro-Oeste com baixo uso de insumos fósseis por tonelada. Essa característica é central para o regulatório europeu de SAF, que exige comprovação de ciclo de vida de baixo carbono para aceitar o combustível como SAF válido.
A JetBio utilizará a tecnologia de conversão de etanol a jet — ETJ (Ethanol-to-Jet) — para produzir SAF certificado, processo que já possui aprovação técnica pela ASTM International e pela Agência Europeia para a Segurança da Aviação (EASA).
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Escala do projeto e localização
O projeto da JetBio está sendo planejado para ser a maior unidade de produção de SAF de etanol do mundo em capacidade instalada. Detalhes de capacidade exata de produção e localização da planta ainda não foram divulgados oficialmente.
O Brasil possui infraestrutura sucroenergética já instalada em estados como São Paulo, Mato Grosso do Sul, Goiás, Minas Gerais e Mato Grosso — regiões que concentram usinas de etanol e produção de milho. A localização próxima a portos de exportação ou a corredores logísticos de grãos é fator determinante para viabilidade econômica de unidade de grande escala.
A Summit Agricultural Group opera no Brasil por meio da joint venture com a Bunge e tem presença na cadeia de produção agrícola nacional, o que facilita acesso à matéria-prima etanol para a JetBio.
Demanda global por SAF e metas regulatórias

A União Europeia aprovou o regulamento ReFuelEU Aviation, que exige mistura crescente de SAF nos combustíveis de aviação: 2% em 2025, 6% em 2030, 20% em 2035 e 70% em 2050. A demanda europeia por SAF certificado supera em muito a capacidade de produção atual global, criando oportunidade de exportação para países produtores como Brasil e Estados Unidos.
Outros mercados também avançam em regulatórios: Reino Unido, Japão, Coreia do Sul e Canadá têm metas ou incentivos para adoção de SAF. A Agência Internacional de Energia Renováveis (IRENA) projeta que o mercado global de SAF pode atingir 450 bilhões de dólares até 2050.
O Brasil negocia aliança com Argentina e Paraguai para posicionar o Mercosul como bloco exportador de biocombustíveis sustentáveis para a Europa, buscando reduzir a resistência histórica da UE a biocombustíveis sul-americanos, anteriormente associados a desmatamento.
Perspectivas do etanol brasileiro e safra 2026/2027
O setor sucroenergético brasileiro inicia a safra 2026/2027 com projeção de produção recorde de etanol, com acréscimo de quase 4 bilhões de litros ao mercado. O governo federal propôs elevar o percentual de etanol na gasolina de 27% para 32%, medida que, se aprovada, ampliaria ainda mais a demanda doméstica e a escala de produção do setor.
O SAF representa para o etanol brasileiro um destino de maior valor agregado do que a mistura na gasolina, com preços de mercado significativamente superiores ao querosene convencional. A consolidação do projeto JetBio e de outras iniciativas semelhantes pode transformar o Brasil no principal exportador mundial de SAF na próxima década.
O marco regulatório do Combustível do Futuro, aprovado no Brasil em 2023, estabelece incentivos para a produção de biocombustíveis avançados, incluindo o SAF, e cria certificação de intensidade de carbono que facilita a aceitação do produto brasileiro no mercado europeu. A combinação de safra recorde de cana e milho, marco regulatório favorável e projetos de escala industrial como o da JetBio posiciona o Brasil como protagonista na expansão global da produção de SAF até 2030.
