Enquanto o Brasil discute como entrar na economia verde, o Ceará já vendeu o terreno. O Complexo do Pecém reúne sete pré-contratos de gigantes de energia que somam entre R$ 60 e R$ 66 bilhões em investimentos, com as decisões finais previstas para o fim de 2026, mirando o posto de maior polo de hidrogênio verde do país.
Os nomes assinados na Zona de Processamento de Exportação do Ceará dizem muito sobre o tamanho da aposta: Casa dos Ventos, Fortescue, EDF, Auren, Voltalia, FRV e Fuella AS. Por trás deles há ainda entre 30 e 36 memorandos de entendimento com grupos nacionais e estrangeiros. A maioria das decisões de investimento, os chamados FIDs, está concentrada para o fim deste ano, o que faz de 2026 o ano em que o hub sai do papel ou perde o timing.

Por que o Nordeste virou o endereço do hidrogênio verde
A escolha do Ceará não é acaso. O estado tem a única ZPE do Nordeste integrada a um porto de grande escala, o Complexo Industrial e Portuário do Pecém, com dez berços e capacidade de mover 28 milhões de toneladas por ano. Junte a isso vento e sol abundantes, o insumo mais barato para a eletrólise que separa o hidrogênio da água, e a menor distância marítima do Brasil para a Europa e os Estados Unidos. O resultado é uma das rotas mais competitivas do país para exportar energia limpa.
O governo local fez a lição de casa para atrair capital. Ampliou a isenção de ICMS na ZPE e desonerou a energia comprada de outros estados pelos produtores de hidrogênio, com validade até o fim de 2032. É o tipo de previsibilidade que investidor de projeto bilionário exige antes de assinar. A projeção é de que o hub gere cerca de 80 mil vagas nos próximos anos, entre empregos diretos e indiretos. Não foi por acaso que o Pecém apareceu como vitrine brasileira na Hannover Messe, a maior feira industrial do mundo, atraindo autoridades da Alemanha e da Holanda.
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A líder da corrida e o que ela vai produzir
Entre os sete, a Casa dos Ventos, hoje com a francesa TotalEnergies como sócia, é apontada como a mais adiantada. Em parceria com a Comerc, o projeto prevê cerca de 1,2 gigawatt de eletrólise e até 900 mil toneladas de amônia verde por ano, num investimento total próximo de US$ 5 bilhões somando a planta e os parques renováveis. A decisão final de investimento está marcada para dezembro, e a exportação deve começar por volta de 2029.

“A empresa já obteve o parecer de gestão energética do ONS e garantiu o comprador para a amônia”, destacou Max Quintino, presidente do Complexo do Pecém, ao explicar por que a Casa dos Ventos larga na frente. Ter o off-taker fechado, ou seja, quem vai comprar a produção, é o detalhe que separa um projeto real de uma carta de intenções. Vale lembrar que foi ali, no Pecém, que a White Martins produziu a primeira molécula de hidrogênio verde do Brasil, ainda em 2023. Aquele marco simbólico, feito em escala de laboratório, virou agora uma corrida industrial de dimensão bilionária.
Por que amônia, e não hidrogênio puro
Aqui está o truque de logística que sustenta o negócio. Hidrogênio puro precisa ser resfriado a 253 graus negativos para virar líquido, o que é caríssimo de transportar por longa distância. A amônia verde liquefaz a apenas 33 graus negativos, o que a torna o carregador prático do hidrogênio para uma travessia transatlântica. Do porto cearense, ela seguirá pelo Corredor Verde Pecém–Roterdã, com o porto holandês comprometido a receber cerca de um quarto da demanda europeia futura, que deve chegar a 4 milhões de toneladas por ano.
“Queremos usar os recursos renováveis abundantes no Ceará e nos estados vizinhos para ampliar nossas soluções de descarbonização para o exterior”, resumiu Lucas Araripe, diretor-executivo da Casa dos Ventos. Do outro lado da parceria, Marcel Haratz, presidente da Comerc Eficiência, é direto: “O hidrogênio verde é o combustível do futuro, mas já é uma realidade e tendência mundial”. A logística de armazenamento e transporte marítimo ficará a cargo de uma aliança de empresas especializadas, que já renovou os pré-contratos para operar a infraestrutura de amônia no hub.
O Pecém não corre sozinho, nem por dentro nem por fora. No próprio hub, empresas como Fortescue e EDP disputam espaço, e lá fora países como Austrália, Chile e nações do Oriente Médio miram o mesmo mercado europeu com projetos de amônia verde. A janela para fincar contratos de fornecimento de longo prazo é agora, antes que a oferta global se acumule e derrube os prêmios pagos pela energia limpa. Sair na frente, nesse jogo, vale tanto quanto produzir barato. Para o Ceará, garantir os primeiros contratos firmes significa ancorar toda a cadeia industrial local antes que a concorrência internacional amadureça e o mercado europeu comece a escolher seus fornecedores preferenciais.
Falta, porém, o empurrão de Brasília. O marco legal do hidrogênio de baixo carbono foi sancionado em 2024, mas o decreto que regulamenta os créditos fiscais, previstos para vigorar entre 2028 e 2032, segue pendente. Sem essa assinatura, parte da segurança jurídica que destrava as decisões de dezembro ainda paira no ar. Fico imaginando o quanto de investimento está represado esperando uma canetada que já foi anunciada como iminente mais de uma vez. Se o decreto sair a tempo, o Pecém pode transformar o vento do Nordeste em um dos maiores negócios de exportação verde do planeta.
O Brasil vai conseguir liderar a exportação mundial de hidrogênio verde antes da concorrência?
