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O Ceará reúne 7 gigantes e R$ 66 bilhões para transformar o Pecém no maior polo de hidrogênio verde do Brasil, com as decisões finais previstas para o fim de 2026

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Escrito por Paulo Nogueira Publicado em 08/07/2026 às 13:27
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Enquanto o Brasil discute como entrar na economia verde, o Ceará já vendeu o terreno. O Complexo do Pecém reúne sete pré-contratos de gigantes de energia que somam entre R$ 60 e R$ 66 bilhões em investimentos, com as decisões finais previstas para o fim de 2026, mirando o posto de maior polo de hidrogênio verde do país.

Os nomes assinados na Zona de Processamento de Exportação do Ceará dizem muito sobre o tamanho da aposta: Casa dos Ventos, Fortescue, EDF, Auren, Voltalia, FRV e Fuella AS. Por trás deles há ainda entre 30 e 36 memorandos de entendimento com grupos nacionais e estrangeiros. A maioria das decisões de investimento, os chamados FIDs, está concentrada para o fim deste ano, o que faz de 2026 o ano em que o hub sai do papel ou perde o timing.

Planta industrial de produção de hidrogênio verde
Sete empresas já assinaram pré-contratos na ZPE do Ceará para produzir hidrogênio e amônia verde.

Por que o Nordeste virou o endereço do hidrogênio verde

A escolha do Ceará não é acaso. O estado tem a única ZPE do Nordeste integrada a um porto de grande escala, o Complexo Industrial e Portuário do Pecém, com dez berços e capacidade de mover 28 milhões de toneladas por ano. Junte a isso vento e sol abundantes, o insumo mais barato para a eletrólise que separa o hidrogênio da água, e a menor distância marítima do Brasil para a Europa e os Estados Unidos. O resultado é uma das rotas mais competitivas do país para exportar energia limpa.

O governo local fez a lição de casa para atrair capital. Ampliou a isenção de ICMS na ZPE e desonerou a energia comprada de outros estados pelos produtores de hidrogênio, com validade até o fim de 2032. É o tipo de previsibilidade que investidor de projeto bilionário exige antes de assinar. A projeção é de que o hub gere cerca de 80 mil vagas nos próximos anos, entre empregos diretos e indiretos. Não foi por acaso que o Pecém apareceu como vitrine brasileira na Hannover Messe, a maior feira industrial do mundo, atraindo autoridades da Alemanha e da Holanda.

A líder da corrida e o que ela vai produzir

Entre os sete, a Casa dos Ventos, hoje com a francesa TotalEnergies como sócia, é apontada como a mais adiantada. Em parceria com a Comerc, o projeto prevê cerca de 1,2 gigawatt de eletrólise e até 900 mil toneladas de amônia verde por ano, num investimento total próximo de US$ 5 bilhões somando a planta e os parques renováveis. A decisão final de investimento está marcada para dezembro, e a exportação deve começar por volta de 2029.

Instalação de eletrolisadores para produção de hidrogênio verde
A amônia verde é o vetor escolhido para transportar o hidrogênio por navio até a Europa.

“A empresa já obteve o parecer de gestão energética do ONS e garantiu o comprador para a amônia”, destacou Max Quintino, presidente do Complexo do Pecém, ao explicar por que a Casa dos Ventos larga na frente. Ter o off-taker fechado, ou seja, quem vai comprar a produção, é o detalhe que separa um projeto real de uma carta de intenções. Vale lembrar que foi ali, no Pecém, que a White Martins produziu a primeira molécula de hidrogênio verde do Brasil, ainda em 2023. Aquele marco simbólico, feito em escala de laboratório, virou agora uma corrida industrial de dimensão bilionária.

Por que amônia, e não hidrogênio puro

Aqui está o truque de logística que sustenta o negócio. Hidrogênio puro precisa ser resfriado a 253 graus negativos para virar líquido, o que é caríssimo de transportar por longa distância. A amônia verde liquefaz a apenas 33 graus negativos, o que a torna o carregador prático do hidrogênio para uma travessia transatlântica. Do porto cearense, ela seguirá pelo Corredor Verde Pecém–Roterdã, com o porto holandês comprometido a receber cerca de um quarto da demanda europeia futura, que deve chegar a 4 milhões de toneladas por ano.

“Queremos usar os recursos renováveis abundantes no Ceará e nos estados vizinhos para ampliar nossas soluções de descarbonização para o exterior”, resumiu Lucas Araripe, diretor-executivo da Casa dos Ventos. Do outro lado da parceria, Marcel Haratz, presidente da Comerc Eficiência, é direto: “O hidrogênio verde é o combustível do futuro, mas já é uma realidade e tendência mundial”. A logística de armazenamento e transporte marítimo ficará a cargo de uma aliança de empresas especializadas, que já renovou os pré-contratos para operar a infraestrutura de amônia no hub.

O Pecém não corre sozinho, nem por dentro nem por fora. No próprio hub, empresas como Fortescue e EDP disputam espaço, e lá fora países como Austrália, Chile e nações do Oriente Médio miram o mesmo mercado europeu com projetos de amônia verde. A janela para fincar contratos de fornecimento de longo prazo é agora, antes que a oferta global se acumule e derrube os prêmios pagos pela energia limpa. Sair na frente, nesse jogo, vale tanto quanto produzir barato. Para o Ceará, garantir os primeiros contratos firmes significa ancorar toda a cadeia industrial local antes que a concorrência internacional amadureça e o mercado europeu comece a escolher seus fornecedores preferenciais.

Falta, porém, o empurrão de Brasília. O marco legal do hidrogênio de baixo carbono foi sancionado em 2024, mas o decreto que regulamenta os créditos fiscais, previstos para vigorar entre 2028 e 2032, segue pendente. Sem essa assinatura, parte da segurança jurídica que destrava as decisões de dezembro ainda paira no ar. Fico imaginando o quanto de investimento está represado esperando uma canetada que já foi anunciada como iminente mais de uma vez. Se o decreto sair a tempo, o Pecém pode transformar o vento do Nordeste em um dos maiores negócios de exportação verde do planeta.

O Brasil vai conseguir liderar a exportação mundial de hidrogênio verde antes da concorrência?

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Paulo Nogueira

Técnico em Elétrica desde 2008, formado pelo Instituto Federal Fluminense (IFF), antigo CEFET, uma das mais tradicionais instituições de ensino técnico do Brasil. Atuou por diversos anos nas áreas de petróleo e gás offshore, energia e construção, experiência que hoje aplica na produção de conteúdo especializado sobre o setor energético. Com mais de 8 mil publicações em revistas e portais online, dedica-se à cobertura do mercado de trabalho, petróleo e gás, energia, economia, renováveis e empreendedorismo. Para dúvidas, sugestões ou correções, entre em contato pelo e-mail paulohsnogueira@gmail.com. Este canal não recebe currículos.

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