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Uma mineradora australiana desembarcou em Poços de Caldas para extrair terras raras — e o Brasil ainda não decidiu se quer mesmo entregar seus minerais do futuro a estrangeiros…

Escrito por Douglas Avila
Publicado em 29/04/2026 às 13:30
Atualizado em 29/04/2026 às 14:33
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Há um planalto vulcânico no Sul de Minas Gerais que guarda, abaixo de suas pastagens e cafezais, uma reserva de minerais que o mundo moderno não consegue viver sem. O lugar se chama Poços de Caldas, e nos últimos dois anos ele virou o endereço preferido de mineradoras estrangeiras — especialmente australianas. Em 28 de abril de 2026, mais uma chegou: o Grupo Power Minerals concluiu a aquisição do projeto Morro de Ferro e assinou Protocolo de Intenções com o governo de Minas Gerais, prometendo R$ 80 milhões em investimentos em terras raras. A notícia parece boa. Mas, olhando o quadro completo das terras raras brasil, uma pergunta fica no ar: o país sabe o que está entregando?

Poucos dias antes, em 20 de abril, a empresa americana USA Rare Earth anunciou a compra da Serra Verde — até então a única mina de terras raras em operação no Brasil — por US$ 2,8 bilhões, o equivalente a R$ 14 bilhões. O contrato inclui fornecimento exclusivo de 100% da produção para entidades do governo dos Estados Unidos. No mesmo mês, um partido político levou o caso ao STF, questionando a entrega de recursos estratégicos nacionais ao capital estrangeiro. O Brasil acordou para uma realidade incômoda: suas maiores reservas de minerais do futuro estão sendo, rapidamente, dadas em concessão.

O que é o Morro de Ferro e por que entrou no radar das terras raras brasil

O projeto Morro de Ferro (MDF) está localizado no Planalto de Poços de Caldas, uma formação geológica peculiar criada pela atividade vulcânica antiga. A avaliação técnica realizada pela Power Minerals revelou concentrações notáveis de óxidos de terras raras magnéticas — especificamente neodímio (Nd), praseodímio (Pr), disprósio (Dy) e térbio (Tb). Não são minerais quaisquer: são exatamente os quatro elementos que a indústria global mais disputa para fabricar motores elétricos, turbinas eólicas e sistemas de propulsão de aeronaves e mísseis.

O projeto ainda está em fase de desenvolvimento, sem produção comercial em curso. Mas o potencial é expressivo o suficiente para justificar os R$ 80 milhões anunciados. Segundo a Agência Minas Gerais, a iniciativa foi formalizada por meio de um Protocolo de Intenções entre a Power Minerals Brasil e o Governo de Minas via Invest Minas, a agência estadual de atração de investimentos.

Conforme divulgado pelo Yahoo Finance, a aquisição do Morro do Ferro foi concluída após uma avaliação técnica independente que confirmou a viabilidade do depósito para extração comercial de óxidos de terras raras magnéticas. A empresa, de capital australiano, já tem operações em outros países e escolheu o Brasil como prioridade estratégica para 2026 e 2027.

A mineração de terras raras em Poços de Caldas não é nova — a cidade já conviveu por décadas com a exploração de urânio e nióbio. Mas a escala e a velocidade do interesse internacional pelos depósitos locais de terras raras magnéticas são inéditas. Em menos de 24 meses, três empresas estrangeiras formalizaram presença no mesmo planalto. O mapa da disputa global pelas terras raras brasil tem Poços de Caldas no centro.

Minerais de terras raras — neodímio e praseodímio — em laboratório científico com iluminação metálica
Neodímio, praseodímio, disprósio e térbio: os quatro elementos magnéticos que o mundo disputa e que o Planalto de Poços de Caldas tem em abundância. Imagem: IA/CPG

Power Minerals: a terceira mineradora australiana no Planalto de Poços de Caldas

A Power Minerals não é a primeira australiana a chegar ao Planalto de Poços de Caldas. Na verdade, é a terceira. A Viridis Mining & Minerals já está instalada com o Projeto Colossus, e a Meteoric tem o Projeto Caldeiras, que recebeu licença ambiental prévia aprovada em dezembro de 2025. Agora, com a Power Minerals e o Morro de Ferro, o planalto mineiro vira um cluster de terras raras com forte presença australiana.

A Austrália tem uma tradição histórica em mineração e uma indústria de capitais de risco especializada em projetos de recursos naturais. Mineradoras australianas de médio porte são ágeis para identificar ativos subexplorados em países com reservas geológicas mas pouca capacidade de desenvolvimento local — e o Brasil se encaixa perfeitamente nesse perfil para as terras raras brasil.

  • Viridis Mining & Minerals → Projeto Colossus (Poços de Caldas)
  • Meteoric → Projeto Caldeiras (Poços de Caldas, LP aprovada dez/2025)
  • Power Minerals → Projeto Morro de Ferro (Poços de Caldas, adquirido abr/2026)

A convergência de três mineradoras australianas no mesmo planalto em menos de dois anos não é coincidência — é estratégia. A corrida global por terras raras se intensificou desde 2022, quando a China — que domina 85% do processamento mundial de terras raras — começou a sinalizar restrições à exportação. O Ocidente está desesperado para criar cadeias de suprimento alternativas, e o Brasil é um dos poucos países com reservas comprovadas fora da Ásia.

A Austrália tem interesse especial nisso. Como aliada dos Estados Unidos no contexto do AUKUS e do Quad, o governo australiano apoia ativamente empresas nacionais que diversifiquem o fornecimento de minerais críticos fora da órbita chinesa. Investir no Brasil enquanto o Brasil ainda tem condições favoráveis de licenciamento é uma corrida contra o tempo — e as mineradoras australianas entenderam isso antes de muitos governos.

Para Minas Gerais, a chegada de um terceiro projeto em Poços de Caldas é um trunfo de atração de investimentos. O Estado já é o maior produtor de minério de ferro do país e tem ambições de diversificar sua base mineral. Ter um cluster de terras raras consolidado no Planalto de Poços de Caldas pode posicionar Minas como referência no fornecimento de minerais críticos para a cadeia de energia limpa, com reflexos em geração de emprego e receita fiscal.

O contexto: EUA compraram a única mina de terras raras brasil por US$ 2,8 bi

Para entender o peso do que está acontecendo, é preciso olhar o cenário completo. Oito dias antes da Power Minerals anunciar o Morro de Ferro, a empresa americana USA Rare Earth anunciou a compra da Serra Verde por US$ 2,8 bilhões, em Minaçu, Goiás.

A Serra Verde é singular: foi, até então, o único produtor em escala de terras raras fora da Ásia capaz de fornecer os quatro elementos magnéticos principais — Nd, Pr, Dy e Tb — ao mesmo tempo. O contrato inclui o fornecimento de 100% da produção da Fase 1 para entidades do governo dos Estados Unidos, garantindo suprimento para a indústria de defesa americana.

O detalhe que acendeu o debate político: a operação prevê US$ 300 milhões em dinheiro e 126 milhões de novas ações, com fechamento esperado para o 3º trimestre de 2026. Projeta-se que a produção da Serra Verde representará mais de 50% da oferta global de terras raras pesadas fora da China até 2027. Um partido levou o caso ao STF questionando a entrega de ativo estratégico a capital estrangeiro vinculado a um governo que pode ter interesses geopolíticos próprios sobre a commodity.

Mapa do Brasil destacando Poços de Caldas em Minas Gerais com marcadores de depósitos minerais de terras raras
Poços de Caldas, no Sul de Minas Gerais, concentra três projetos internacionais de terras raras em menos de 2 anos — e virou epicentro da disputa global pelos minerais do futuro. Imagem: IA/CPG

Por que as terras raras brasil valem ouro — e por que o país tem poucas formas de aproveitá-las

O Brasil detém a terceira maior reserva de terras raras do mundo, atrás apenas da China e da Rússia. Mas reserva no solo não equivale a capacidade industrial. O problema do país é estrutural: não temos cadeia de processamento. Extrair o minério é só o primeiro passo — o valor real está nas etapas seguintes: separar os óxidos, refinar os metais, fabricar os ímãs de neodímio-ferro-boro que vão dentro dos motores elétricos e geradores eólicos.

Toda essa cadeia está concentrada na China. Exportar terras raras sem processamento é como exportar petróleo bruto em vez de gasolina e plásticos — o país perde o maior pedaço do valor agregado. O Brasil fez esse erro com o minério de ferro durante décadas. Está prestes a repetir com um mineral ainda mais estratégico.

  1. Extração: onde o Brasil está atraindo estrangeiros (Serra Verde, Power Minerals, Meteoric, Viridis)
  2. Beneficiamento primário: concentrado de terras raras — incipiente no Brasil
  3. Separação de óxidos: quase inexistente — dominado pela China
  4. Metais e ligas: ausente no Brasil
  5. Ímãs permanentes: produto final de maior valor — praticamente 100% na Ásia

Para romper esse ciclo, o Brasil precisaria de políticas industriais agressivas, investimento público em pesquisa e desenvolvimento, e incentivos para que as mineradoras estrangeiras processem localmente, não apenas extraiam e exportem. Nenhuma dessas condições está plenamente consolidada ainda.

Há iniciativas em andamento. O MCTI (Ministério de Ciência, Tecnologia e Inovação) tem grupos de pesquisa dedicados ao processamento de terras raras, e a CNEN (Comissão Nacional de Energia Nuclear) mantém expertise histórica no tema — já que a mineração de terras raras muitas vezes envolve elementos levemente radioativos como o tório. Mas transformar pesquisa acadêmica em planta industrial é uma distância que o Brasil ainda não venceu.

O ponto mais sensível é o gargalo de processamento. Hoje, se o Brasil extrair neodímio bruto, vai exportar para a China processar — e importar de volta o ímã acabado por um preço 10 a 20 vezes maior. Esse é exatamente o modelo que a guerra fria por minerais críticos pretende romper. Mas rompê-lo exige capital, tempo e política industrial de longo prazo — três itens em que o Brasil historicamente não tem bom desempenho.

Motor de veículo elétrico com ímãs de neodímio visíveis em corte transversal mostrando componentes internos
Os ímãs de neodímio — feitos com terras raras do Brasil — estão dentro de cada motor elétrico e turbina eólica do mundo. O problema: o processamento acontece na China, não aqui. Imagem: IA/CPG

O que o Brasil ganha — e o que pode estar perdendo

O debate político chegou ao Congresso. Parlamentares ligados à soberania nacional pedem que o governo federal crie uma política de minerais estratégicos que defina quais ativos podem ser concedidos a estrangeiros e em que condições — incluindo exigências mínimas de processamento local e percentual de produção destinado ao mercado interno. A proposta ainda não tem consenso, e enquanto o debate avança, as concessões continuam sendo assinadas.

Justo ser equilibrado: a entrada de investimentos estrangeiros em terras raras tem lados positivos. Os R$ 80 milhões da Power Minerals em Poços de Caldas trazem empregos, impostos e desenvolvimento tecnológico regional. A formalização via Invest Minas garante ao menos algum controle regulatório estadual. O projeto Morro de Ferro ainda não tem operação — e o protocolo de intenções é apenas o começo de um processo que pode durar anos.

Mas o momento exige cautela. O contexto geopolítico em 2026 é de uma guerra fria por minerais críticos entre EUA, China e Europa. Cada país tenta securitizar suas cadeias de suprimento. O Brasil — com suas terras raras brasil e suas vastas reservas de lítio, nióbio, cobre e grafite — está sentado sobre exatamente o que o mundo precisa para a transição energética.

Especialistas apontam que o Brasil tem uma janela de oportunidade curta. Com a corrida geopolítica por minerais críticos em plena aceleração, os países consumidores — EUA, Europa, Japão — estão dispostos a pagar mais caro por suprimento garantido fora da China. Isso cria uma rara vantagem de negociação para o Brasil impor condições: exigir beneficiamento local, participação de empresas nacionais, transferência de tecnologia. Mas essa janela se fecha quando as concessões já estão assinadas sem essas exigências.

A questão que o país precisa responder não é se deve ou não receber investimentos estrangeiros. É em que condições esses investimentos são feitos. Com exigência de processamento local? Com participação estatal? Com reserva de parte da produção para o mercado doméstico? Ou apenas na forma de extração e exportação de minério bruto, replicando o modelo que nunca enriqueceu o Brasil no petróleo, no minério de ferro ou na soja?

Poços de Caldas pode ser o ponto de partida para o Brasil finalmente sentar à mesa das grandes potências de minerais estratégicos. Ou pode ser mais um capítulo da mesma história de commodities sem valor agregado. A resposta depende de decisões que o país precisa tomar agora — antes que todas as concessões já tenham sido assinadas. A corrida pelos minerais de Minas Gerais já começou — e o Brasil está correndo atrás.

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Douglas Avila

Trabalho com tecnologia há 16 anos, hoje 100% focado em IA. Atuo como CAIO (Chief AI Officer) em São Paulo, com foco em receita. Formado em Sistemas para Internet pelo Senac. No Click Petróleo e Gás escrevo sobre tecnologia e inovação aplicadas aos setores estratégicos da economia brasileira: energia, indústria, transporte marítimo, automotivo, ciência e engenharia

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