Myron tem 12 anos, mora em Alfenas, no Sul de Minas Gerais, e é um dos radioamadores mais jovens com licença ativa no Brasil. Ele estudou sozinho por um mês, fez simulados de prova em plataforma digital e foi aprovado no exame da Anatel. Pelo rádio amador, já estabeleceu contatos até no Paraguai.
A maioria das crianças de 12 anos está nas redes sociais. Myron escolheu o rádio amador. O garoto de Alfenas, no Sul de Minas Gerais, passou um mês estudando legislação, técnica elétrica e propagação de ondas de rádio antes de sentar para a prova da Anatel, a Agência Nacional de Telecomunicações. Foi aprovado, tirou a licença e entrou para um grupo que poucos imaginam ainda existir: o dos radioamadores ativos no Brasil. Tudo isso antes de completar 13 anos, conforme registrou a TV Alfenas na reportagem de 12 de maio de 2026.
O rádio amador é uma atividade praticada por entusiastas da radiocomunicação que permite contato a longas distâncias, testes de equipamentos e estudo da propagação de ondas pelo mundo. Myron já usou a licença para estabelecer contatos com operadores no Paraguai, algo que, para quem cresceu achando que o rádio era uma tecnologia morta, pode soar surpreendente. O padrasto de Myron, Marcos Geraldo, ele próprio radioamador, foi um dos incentivadores do projeto, mas atribui o mérito do resultado ao próprio garoto. O estudo, segundo Marcos, dependeu quase inteiramente da determinação do menino.
Um mês de estudo, uma aprovação e uma antena em Alfenas

O processo foi conduzido de forma autodidata: ele começou assistindo a aulas na televisão e depois migrou para simulados de prova num computador, usando uma plataforma desenvolvida em Alfenas. Segundo o padrasto Marcos Geraldo, a maior parte do conhecimento que Myron acumulou veio da própria busca do garoto, que assistiu a vídeos no YouTube e foi aprofundando os temas por conta própria.
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“Ele se preparou para fazer esses testes através de simulados, através de uma plataforma que nós desenvolvemos aqui em Alfenas. Ele estudou muito, a maioria do estudo dependeu dele mesmo”, disse Marcos Geraldo à TV Alfenas. O garoto confirmou o processo com suas próprias palavras: “Eu estudei um mês e no começo comecei a assistir aula na TV, depois fiz simulados de prova no computador.” Em termos práticos, Myron estudou por conta própria uma matéria que combina regulamentação, eletrônica e física, e foi aprovado no exame regulatório federal antes de completar a adolescência.
O que é o rádio amador e por que ele ainda existe

Para quem não conhece, o rádio amador é um serviço de telecomunicações regulamentado mundialmente que permite a pessoas licenciadas estabelecer contatos de voz, dados ou código Morse a distâncias que vão de alguns quilômetros até o outro lado do planeta, dependendo das condições de propagação das ondas de rádio. Não é telefonia, não é internet e não é CB. É um sistema próprio, com frequências reservadas por acordos internacionais e operadores identificados por indicativos únicos emitidos pelos órgãos regulatórios de cada país.
No Brasil, a Anatel é responsável pela concessão das licenças e pela fiscalização do serviço. Para obter a licença, o candidato precisa ser aprovado em exame que cobre desde legislação e ética operacional até eletrônica e técnica de transmissão. A exigência não é trivial: envolve conteúdo que normalmente está fora do currículo escolar de qualquer faixa etária. Que um garoto de 12 anos tenha aprovado nesse exame em um mês de preparação é o dado que mais chama atenção na história de Myron, independentemente do hobby em si.
O Paraguai do outro lado da antena
Para um operador adulto e experiente, estabelecer contato de rádio com outro país é parte da rotina do hobby. Para Myron, que acabou de tirar a licença, chegar ao Paraguai pelo rádio amador representa uma conquista concreta num serviço que ele ainda está começando a explorar. Não é internet roteando o sinal por cabos submarinos. É a onda de rádio viajando pelo ar, refletida pela ionosfera, chegando a um receptor em outro país e sendo respondida de volta.
Esse tipo de contato, chamado de DX pelos radioamadores, é um dos principais atrativos do hobby para praticantes de todas as idades. Cada contato estabelecido com um operador em outro país é registrado e pode ser confirmado por cartas QSL, cartões postais trocados entre os operadores como prova do contato. O garoto de Alfenas já tem o Paraguai no registro. A tendência é que a lista cresça à medida que ele ganha experiência e aprende a explorar melhor as condições de propagação das ondas.
Marcos Geraldo: quem começou no rádio com 14 anos viu tudo mudar
O padrasto de Myron é radioamador há décadas. Começou no hobby com 14 anos e acompanhou de dentro todas as transformações que o serviço atravessou ao longo do tempo. Na entrevista à TV Alfenas, ele listou as mudanças: legislação atualizada, novos equipamentos, exigências operacionais e técnicas que a Anatel foi incorporando, ética que a comunidade foi construindo com o tempo. O rádio de hoje é regulamentado de forma muito mais abrangente do que o de trinta anos atrás.
A evolução tecnológica também transformou o que é possível fazer com uma licença de rádio amador. Repetidoras, sistemas de link digital, modos de transmissão de dados e conexões via satélite expandiram as possibilidades muito além do microfone e do receptor analógico das primeiras décadas do serviço. Marcos observa que fabricantes continuam lançando equipamentos de rádio amador em 2026, o que, para ele, é a prova mais direta de que existe um mercado consumidor ativo e em crescimento. Não se fabrica produto para um público que não existe.
Hobby ultrapassado? Os números dizem outra coisa
A percepção popular é de que o rádio amador pertence a uma geração anterior à internet, ao smartphone e às redes sociais. Marcos Geraldo rejeita essa caracterização com argumento simples: se fosse um hobby morto, não haveria público comprando equipamentos, não haveria repetidoras ativas, não haveria novos operadores tirando licença. E os números que ele cita na entrevista sustentam esse ponto. Há, segundo ele, cerca de 300 mil pessoas no mundo usando rádio amador ativamente hoje.
O número é difícil de verificar de forma independente a partir desta fonte, mas o dado aponta para uma escala que muita gente subestima. O rádio amador tem papel reconhecido internacionalmente em situações de emergência e catástrofes: quando a infraestrutura de telecomunicações convencional falha, os operadores licenciados são frequentemente os únicos canais de comunicação funcionando. Isso faz do hobby algo que não é apenas passatempo, mas serviço com utilidade pública demonstrada em situações reais. Furacões, enchentes e terremotos já tiveram coordenação de resposta de emergência parcialmente feita por radioamadores ao redor do mundo.
O que Myron representa para o radioamadorismo brasileiro
Histórias como a de Myron têm valor duplo para uma comunidade que envelhece. O radioamadorismo, como muitos hobbies técnicos, enfrenta o desafio de atrair praticantes jovens numa época em que a barreira de entrada da maioria das formas de entretenimento caiu quase a zero. Tirar uma licença exige estudo, aprovação em exame e aquisição de equipamento. A recompensa não é imediata nem visual. É um sinal de rádio que atravessa fronteiras e alcança um desconhecido do outro lado.
Que um menino de 12 anos de uma cidade do interior de Minas Gerais tenha feito esse percurso sozinho, em um mês, e já esteja fazendo contatos internacionais, é o tipo de história que associações de radioamadores e a própria Anatel provavelmente gostariam de ver replicada. O hobby não precisa competir com a internet para existir: precisa de pessoas que encontrem nele algo que a internet não oferece. Pelo jeito, Myron encontrou.
Um garoto de 12 anos estudando legislação federal e eletrônica por conta própria para tirar uma licença técnica é um sinal de que o rádio amador ainda tem muito a oferecer, ou isso é exceção demais para representar uma tendência real? Você conhecia o radioamadorismo antes dessa história? Deixe sua opinião nos comentários.


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