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Planeta está à beira de uma crise de energia potencialmente maior que a crise do petróleo dos anos 1970

7 de junho de 2022 às 20:13
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Fonte: Pixabay

Preços elevados de energia podem acarretar crise que abrange tanto o petróleo como os setores de gás e eletricidade

Os elevados preços de energia atualmente observados ameaçam crise em múltiplos setores, desde a gasolina e gás natural até o carvão. Em entrevista à CNN, autoridades e ex-funcionários do setor energético alertaram quanto à preocupação de que a guerra na Ucrânia, em associação aos anos de subinvestimento no campo energético, tenha provocado uma crise mundial comparável às crises do petróleo dos anos 1970 e início dos anos 1980.

No entanto, diferente das crises anteriores, o cenário atual não é limitado apenas ao petróleo. Faith Birol, chefe do grupo de vigilância da Agência Internacional de Energia (AIE), afirmou, em entrevista ao site Der Spiegel, que, agora, o planeta deve enfrentar ao mesmo tempo uma crise do petróleo, uma crise do gás e uma crise da eletricidade, sendo esta crise energética, portanto, muito maior e provavelmente mais longa do que as crises do petróleo dos anos 1970 e 1980.

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Até o momento, a economia global tem resistido bem à elevação dos preços da energia. Porém, a tentativa europeia em se tornar independente do gás e do petróleo russos pode fazer com que os preços subam a níveis insustentáveis, enquanto a escassez da oferta no continente pode acarretar decisões difíceis, a exemplo do racionamento.

O secretário-geral do Fórum Internacional de Energia, Joe McMonigle, declarou, em entrevista à CNN, que os formuladores de políticas estão se atentando apenas agora para o sério problema que o mundo enfrenta, o qual ele denominou como uma espécie de “tempestade perfeita”. McMonigle disse também concordar com a preocupante previsão da AIE.

O subinvestimento, a forte demanda e as interrupções na oferta decorrentes da guerra – sendo estes componentes da referida tempestade perfeita – causarão fortes impactos, que incluem o aumento inflacionário, a ameaça à recuperação econômica após a pandemia de Covid-19, o intenso descontentamento social e o prejuízo aos esforços para salvar o planeta do aquecimento global.

Faith Birol alertou, ainda, para os problemas no abastecimento de gasolina e diesel, principalmente na Europa, além do racionamento de gás natural no próximo inverno do continente.

Em adição aos preços elevados de energia, tem-se também as temperaturas extremas e as secas severas como fatores desafiantes à confiabilidade da rede elétrica. Diante desse cenário, os Estados Unidos correm o risco de escassez de eletricidade e até mesmo apagões durante este verão em algumas regiões do país, o que confirma a afirmação de 

Robert McNally – conselheiro sobre energia do ex-presidente George W. Bush – de que o mundo está lamentavelmente despreparado para a crise vigente.

Crise já havia sido prevista por estudiosos americanos em março

No final de março, um artigo publicado na revista The Economist pelo ex-conselheiro sobre energia de Obama, Jason Bordoff, e pela professora da Universidade de Harvard, Meghan O’Sullivan, já alertava quanto à possível crise pela qual o mundo passaria, caracterizando-a como a pior e mais grave desde os anos 1970. Bordoff, que é hoje reitor fundador da Columbia Climate School, opina que, após a divulgação do artigo, seus medos foram confirmados.

É importante mencionar, entretanto, que há diferenças importantes entre o período atual e a década de 1970. Os preços, por exemplo, não tiveram alta tão expressiva quanto naquela época e não foram também necessárias medidas tão extremas, como os controles de preços. Segundo McNally, se controles e tetos de preços forem instituídos, há risco de escassez.

Embora o Ocidente tenha buscado evitar atingir o suprimento de energia da Rússia durante o começo da guerra, uma vez que o comércio com o país é essencial para os mercados globais, essa abordagem não durou muito. Isso porque, à medida em que a brutalidade da guerra se tornou evidente para todo o mundo, os Estados Unidos e outros países passaram a proibir as importações de energia russa.

A Rússia, por sua vez, respondeu às sanções ocidentais a partir da redução ou até mesmo interrupção do envio de gás natural para diversos países europeus. Foram, então, anunciados pela União Europeia durante a última semana planos para cortar 90% das importações de petróleo russo até o fim do ano, o que provocou ainda mais retaliação proveniente do país.

O cenário de tensão intensificou o déficit de oferta observado nos mercados de energia, que já enfrentavam situação complicada. Nesse sentido, Bordoff declarou que a gravidade da crise energética ainda não foi totalmente contemplada.

No ano passado, os preços da gasolina nos Estados Unidos já obtiveram aumento de 52%, de modo a atingir níveis recordes, irritar o público e contribuir para a crise inflacionária do país. Os preços do gás natural, por sua vez, quase triplicaram no último ano em território americano, enquanto que, na Europa, eles subiram ainda mais, apesar de estarem ainda abaixo de seus piores níveis.

Quadro de turbulência no setor energético não é devido apenas à guerra na Ucrânia

O cenário de iminência da crise energética não é somente associado à guerra na Ucrânia, mas pode ser também relacionado aos investimentos reduzidos na produção de petróleo e gás natural. 

Em 2021, a quantia investida no setor de petróleo e gás foi de apenas US$ 341 bilhões, o que se encontra 23% abaixo do nível pré-Covid, que chegou a US$ 525 bilhões, e muito abaixo do pico recente alcançado em 2014, de US$ 700 bilhões.

Esse déficit de investimentos ocorreu em razão de uma série de fatores, entre os quais: a pressão entre governos e investidores para realização de aportes em energia limpa; o futuro incerto dos combustíveis fósseis e os anos de preços do petróleo fracos e voláteis.

Sob esse viés, Francisco Blanch – chefe de commodities globais do Bank of America – disse que, graças ao desejo de diminuir as emissões de carbono, há muito menos interesse em investir em hidrocarbonetos, o que agrava a volatilidade dos preços e dificulta a resolução da baixa oferta.Sendo assim, a Europa já passava por uma crise de energia desde o ano passado, estando os preços do gás natural, carvão e petróleo notadamente elevados antes mesmo dos primeiros ataques russos à Ucrânia. Pode-se concluir, então, que a crise já estava encaminhada de qualquer maneira, tendo sido apenas acelerada e exacerbada pela invasão de Putin.

Especialistas temem que haja escassez de combustíveis

Na década de 1970, a crise do petróleo ocasionou longas filas em postos de gasolina, falta de combustível e pânico. Agora, especialistas se preocupam novamente com a escassez de combustível, tendo a Europa maior risco de que isso ocorra do que os Estados Unidos. De acordo com Francisco Blanch, esse é um problema global que será observado muito em breve, embora talvez não na potência norte-americana.

Para ele, a preocupação é menor nos Estados Unidos porque o país se mantém como um dos maiores produtores de petróleo do planeta, além de um grande exportador de energia. 

A Europa, por outro lado, é mais dependente do petróleo e do gás natural provenientes de outros países, em especial da Rússia.

Diante desse contexto, o chefe da AIE alertou para o racionamento de gás natural no continente europeu, enquanto Blanch observou que a região já se encontra no modo de economia do produto, com o fechamento de fábricas causado pelos seus altos preços.

É necessário cautela na administração da crise

Conforme alguns especialistas em energia, os formuladores de políticas globais podem estar administrando mal a crise climática, uma vez que voltam o foco à redução da oferta porém não se concentram o suficiente em eliminar o apetite mundial por combustíveis fósseis. Nesse sentido, Bordoff afirmou que não está sendo feito o bastante para baixar a demanda por hidrocarbonetos de forma consistente com as metas climáticas mundiais.

No cenário atual, com as medidas focadas em apenas um dos lados, corre-se o risco de descontentamento social, picos de preços e afastamento do público em relação à ação climática.

Além do mais, McMonigle acrescentou que é necessário muito cuidado, haja vista que, se os indivíduos passarem a associar os altos preços da energia com a transição energética, o apoio público será provavelmente perdido de maneira permanente. Ele pediu, ainda, que os governos sinalizem aos investidores que manter aportes em combustíveis fósseis não está somente correto, como é essencial para a economia mundial e o progresso da transição energética.

Deve-se destacar, todavia, que, ainda que os formuladores de políticas consigam fazer com que os investidores ampliem o investimento, levaria um tempo considerável para que isso acarrete maior oferta.

Como a crise energética chegará ao fim?

Múltiplos acontecimentos possíveis podem amenizar a crise de oferta. Caso a guerra na Ucrânia seja encerrada, por exemplo, as sanções contra a Rússia poderão ser eliminadas, o que representaria um divisor de águas para a crise.

Além disso, segundo Faith Birol, outros fatores capazes de atenuar a crise energética mundial incluem um acordo nuclear iraniano, uma desaceleração econômica mais profunda na China ou, ainda, um acordo da Arábia Saudita e outros produtores da Opep a fim de expandir a produção de petróleo.

Birol também salientou que os governos estão prontos para liberar novos estoques de petróleo de emergência, contudo a medida pode ter somente impacto modesto e fugaz nos preços da gasolina.

No mês de março, a AIE solicitou também que governos de todo o mundo analisem medidas drásticas visando à diminuição da demanda por petróleo, a exemplo da redução dos limites de velocidade nas rodovias, da imposição do home office em até três dias por semana e do estabelecimento de domingos sem carros nas cidades.

Por fim, uma recessão econômica profunda o suficiente para ocasionar o colapso da demanda seria também um aliviador em potencial da crise de energia.

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