O Canadá reverteu projeção de déficit e fechou março de 2026 com superávit de 1,78 bilhão de dólares canadenses após as exportações do país saltarem 8,5%, puxadas pelo petróleo e pelos metais preciosos em meio à crise desencadeada pelo conflito no Irã, que elevou o barril de Brent a 119 dólares.
O país que caminhava para mais um trimestre de déficit comercial encontrou na turbulência internacional o combustível improvável para virar o jogo. Segundo informações da Revista Fórum, o Canadá registrou em março de 2026 um superávit de 1,78 bilhão de dólares canadenses, o primeiro resultado positivo na balança comercial em seis meses, segundo dados da agência Statistics Canada. As exportações do país cresceram 8,5% e atingiram 72,8 bilhões de dólares canadenses, o segundo maior valor de toda a série histórica, resultado sustentado pela disparada nos preços internacionais do petróleo e do ouro em meio à escalada do conflito no Oriente Médio.
A reviravolta surpreendeu porque a projeção anterior apontava para um déficit de aproximadamente 2,88 bilhões de dólares canadenses. Em vez de aprofundar as perdas acumuladas ao longo de 2025, o país reverteu o cenário negativo de uma só vez, beneficiado por uma conjuntura que, para a maioria dos importadores globais, significa exatamente o oposto: inflação crescente, custos energéticos em espiral e instabilidade nos mercados financeiros. O que é crise para uns se revelou superávit para outros.
Petróleo em alta e o peso da crise no Irã
O principal motor do superávit canadense foi o setor de energia. As exportações de petróleo e derivados do país cresceram 15,6% em relação ao mesmo período do ano anterior, alcançando o patamar mais elevado desde 2022. O impulso veio diretamente da crise desencadeada pelos ataques dos Estados Unidos e de Israel ao Irã, que provocaram uma escalada abrupta nos preços globais de combustíveis fósseis e levaram o barril de petróleo Brent a bater 119 dólares durante o auge do conflito.
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O Canadá ocupa a posição de quarto maior produtor mundial de petróleo bruto e figura entre os maiores fornecedores do mercado norte-americano. Segundo a Agência Internacional de Energia, mais de 80% das exportações canadenses de petróleo têm como destino os Estados Unidos. Essa concentração faz do país uma espécie de termômetro invertido das crises energéticas globais: enquanto nações importadoras sofrem com o encarecimento do barril, o Canadá converte a mesma alta em receita de exportação e superávit comercial. O paradoxo se torna ainda mais evidente quando se observa que o volume físico das exportações totais do país recuou 0,3% no período, o que significa que o resultado positivo decorreu exclusivamente da alta de preços, e não de um aumento real na produção.
Ouro recorde e a diversificação das exportações
O petróleo não agiu sozinho na construção do superávit. As exportações de produtos metálicos e minerais atingiram a marca recorde de 15,3 bilhões de dólares canadenses, representando uma alta anual de 24%. O ouro liderou esse avanço após alcançar máximas históricas de 5.400 dólares por onça durante o período mais tenso do conflito no Irã, embora correções subsequentes tenham ajustado a cotação para cerca de 4.700 dólares por onça.
O principal destino das exportações canadenses de ouro foi o Reino Unido, consolidando uma rota comercial que ganha relevância à medida que o país busca reduzir sua dependência do mercado norte-americano. O Canadá abriga algumas das maiores mineradoras globais no segmento de metais preciosos e funciona como um dos principais centros financeiros mundiais para negociação desses minerais. Analistas atribuem a disparada do ouro a uma combinação de movimentos especulativos sobre o metal, historicamente considerado reserva estável de valor, e à mudança nas expectativas monetárias dos Estados Unidos num cenário de volatilidade acentuada do dólar no mercado internacional.
Tarifas americanas e a queda histórica da dependência dos EUA
Um dado que passou relativamente despercebido na divulgação do superávit revela uma mudança estrutural em curso. Em março de 2026, os Estados Unidos responderam por apenas 66,7% das exportações totais do país, a menor participação relativa do maior parceiro comercial canadense em toda a série histórica. Para um país que historicamente destina mais de 70% de suas vendas externas a um único comprador, essa queda sinaliza uma reconfiguração de rotas comerciais que pode se tornar permanente.
O recuo da participação americana está diretamente ligado às tarifas impostas por Washington sobre uma ampla gama de produtos canadenses. As alíquotas chegaram a 50% sobre aço, alumínio e cobre, 35,2% sobre madeira serrada e 25% sobre automóveis, criando barreiras que forçaram exportadores do país a buscar compradores alternativos em outros continentes. O superávit de março, portanto, carrega uma leitura dupla: o resultado positivo na balança se apoia em preços excepcionalmente altos de petróleo e ouro, mas a composição geográfica das exportações indica que o país está se adaptando a um ambiente comercial no qual seu principal comprador se tornou também seu maior obstáculo tarifário.
Juros, inflação e o paradoxo do superávit
A mesma crise que gerou superávit para o Canadá alimenta pressão inflacionária nos Estados Unidos, o principal destino das exportações canadenses de energia. Em março de 2026, o Federal Reserve manteve os juros americanos na faixa de 3,5% a 3,75%, interrompendo o ciclo anterior de cortes para avaliar os impactos inflacionários do conflito no Irã e a desaceleração do mercado de trabalho. Investidores passaram a projetar novas elevações de juros até o fim de 2026, cenário que adiciona incerteza sobre a demanda futura por petróleo e, consequentemente, sobre a capacidade do país de manter o ritmo de exportação que sustentou o superávit.
O dilema é estrutural. O Canadá se beneficia da alta dos preços de energia no curto prazo, mas depende da saúde econômica do seu maior comprador para sustentar volumes de exportação no médio prazo. Se os juros americanos subirem o suficiente para frear a economia dos Estados Unidos, a demanda por petróleo canadense pode recuar mesmo com preços elevados, e o superávit de março se tornaria um pico isolado em vez de uma tendência. A instabilidade internacional de preços favoreceu a balança comercial do país desta vez, mas o mesmo mecanismo pode se inverter com a mesma velocidade se o conflito arrefecer ou se a economia global entrar em recessão.
E você, o que acha desse superávit construído sobre a crise alheia? Acredita que o país consegue manter esse resultado ou a dependência do petróleo e das exportações para os EUA vai cobrar o preço? Deixe seu comentário e diga se esse modelo de crescimento baseado em commodities é sustentável no longo prazo.

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