Estudo com o James Webb revela disco protoplanetário rico em CO₂ e quase sem água ao redor da estrela XUE 10, desafiando modelos de formação planetária.
Segundo a Universidade de Estocolmo, um estudo liderado por Jenny Frediani, doutoranda do Departamento de Astronomia da instituição, publicado em 29 de agosto de 2025 na revista Astronomy & Astrophysics, revelou que o disco protoplanetário ao redor da estrela jovem XUE 10 tem uma composição química radicalmente diferente da prevista pelos modelos de formação planetária. Usando o instrumento MIRI do Telescópio James Webb, a equipe detectou quatro formas distintas de dióxido de carbono na região interna do disco, justamente onde planetas rochosos como a Terra se formam.
O dado mais surpreendente é que a água, que domina essa região na maioria dos outros discos já estudados, está quase ausente. A estrela XUE 10 fica a cerca de 5.550 anos-luz da Terra, na região de formação estelar NGC 6357, conhecida como Nebulosa da Lagosta, um ambiente marcado por radiação ultravioleta intensa emitida por estrelas massivas vizinhas. Para os autores, a descoberta não é apenas uma curiosidade química, mas um desafio direto à teoria padrão de como planetas rochosos se formam.
Disco protoplanetário da XUE 10 desafia o que a astronomia esperava encontrar
Para entender por que a quase ausência de água no disco da XUE 10 é tão importante, é preciso lembrar o que os astrônomos esperavam ver. Um disco protoplanetário é a nuvem de gás e poeira que se forma ao redor de uma estrela jovem e que mais tarde origina planetas, asteroides e outros corpos sólidos.
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Esses discos costumam ter uma organização química definida pela temperatura. Mais perto da estrela, ficam minerais e silicatos que formam rochas e metais. Mais longe, se acumulam gelos como água, CO₂ e monóxido de carbono.
Na região interna, quente o bastante para os gelos sublimarem, o padrão observado nos discos estudados antes da XUE 10 era claro: vapor d’água dominando a química local.
Foi justamente por isso que o resultado do James Webb chamou tanta atenção. Quando o espectro químico da região interna do disco foi obtido, surgiu o oposto do esperado: CO₂ forte e água quase ausente. O contraste foi tão grande com os modelos anteriores que a descoberta exigiu análise detalhada antes de ser publicada.
James Webb detectou quatro formas de CO₂ no disco protoplanetário da XUE 10
O resultado mais técnico do estudo não é apenas a abundância de dióxido de carbono, mas o fato de o JWST ter detectado quatro formas distintas de CO₂ ao mesmo tempo. Entre elas estão o CO₂ comum e três variantes isotópicas raras, algo que nunca havia sido observado antes em discos protoplanetários.
As formas identificadas incluem o CO₂ com carbono 12, além de versões com carbono 13, oxigênio 17 e oxigênio 18. Essas variantes são muito menos abundantes do que a forma comum, o que significa que o sinal químico no disco da XUE 10 é tão forte que até os isótopos raros apareceram de forma clara no espectro registrado pelo telescópio.
Isso importa porque as proporções isotópicas funcionam como uma espécie de impressão digital química.
Elas registram as condições em que o CO₂ foi formado e alterado ao longo do tempo. Segundo a equipe, essas assinaturas podem até ajudar a explicar composições isotópicas anômalas encontradas em meteoritos e cometas do Sistema Solar primitivo.
Radiação ultravioleta intensa pode explicar falta de água e excesso de CO₂
A principal hipótese levantada pelos pesquisadores para explicar o padrão observado envolve a radiação ultravioleta intensa da região onde a estrela se formou.
A NGC 6357 não é um berçário estelar calmo. Trata-se de uma das regiões de formação estelar mais massivas e violentas da galáxia, dominada por estrelas quentes dos tipos O e B, que emitem grandes quantidades de radiação UV.

Essa radiação pode penetrar os discos protoplanetários e alterar sua química de fora para dentro. No caso da XUE 10, os autores sugerem que a água e o CO₂ respondem de forma diferente à radiação. A água é mais facilmente quebrada por fótons UV, enquanto o dióxido de carbono pode resistir melhor e até se formar a partir dos produtos dessa quebra.
O resultado final seria exatamente o que o disco mostra: depleção de água e enriquecimento de CO₂ na zona de formação planetária. Em outras palavras, o ambiente em torno da estrela pode estar reescrevendo a química do material antes mesmo de os planetas existirem.
Descoberta da XUE 10 muda debate sobre formação de planetas rochosos na galáxia
A consequência mais ampla do estudo vai além da XUE 10. A maioria dos estudos anteriores de discos protoplanetários analisou estrelas próximas ao Sol, em regiões relativamente tranquilas e com baixa radiação ultravioleta.

Esses ambientes reforçavam a ideia de que a química da Terra, rica em água, talvez fosse relativamente comum em planetas rochosos.
O problema é que boa parte das estrelas não nasce em regiões tranquilas. O estudo liderado por Jenny Frediani afirma que entre 50% e 90% de todas as estrelas se formam em ambientes densos, próximos de estrelas massivas e sob forte radiação UV, muito mais parecidos com a NGC 6357 do que com a vizinhança solar.
Se esses ambientes produzem discos ricos em CO₂ e pobres em água de forma sistemática, então muitos planetas rochosos do universo podem ter se formado em condições químicas muito diferentes das da Terra.
Isso muda o debate sobre habitabilidade, composição atmosférica e diversidade planetária. O estudo sugere que a Terra pode não representar o padrão dominante de química planetária no cosmos, mas talvez um caso mais particular do que a astronomia imaginava.
Próximos estudos com o James Webb vão mostrar se a XUE 10 é exceção ou padrão
A descoberta faz parte de um programa maior da colaboração XUE, que está usando o JWST para mapear sistematicamente vários discos protoplanetários em NGC 6357.
O objetivo é construir um catálogo químico que permita comparar estrelas de diferentes massas sob diferentes níveis de radiação.
A XUE 10 é uma estrela do tipo Herbig, mais massiva e luminosa que o Sol, o que pode influenciar a química do disco. Por isso, a equipe ainda precisa verificar se o padrão de muito CO₂ e pouca água aparece em outros discos da mesma região ou se está ligado especificamente ao tipo estelar da XUE 10.
Os próximos resultados vão responder uma pergunta central. O disco da XUE 10 é uma anomalia isolada ou a primeira evidência de que muitos berços planetários do universo não têm a química que produziu a Terra. Se a segunda hipótese se confirmar, a descoberta do James Webb pode obrigar a astronomia a rever uma parte fundamental da teoria de formação planetária.

