Novo estudo rastreou mais de 5 mil partículas virtuais e descobriu que enormes redemoinhos transportam a água do rio Congo por centenas de quilômetros, enquanto outras pesquisas alertam para secas, liberação de carbono antigo e ameaças à biodiversidade
O rio Congo, reconhecido como o mais profundo do mundo, despeja cerca de 40 mil metros cúbicos de água por segundo no Oceano Atlântico. Agora, um estudo publicado em 2026 revelou que essa água doce pode avançar aproximadamente 800 quilômetros pelo mar.
Isso representa cerca de 40 milhões de litros lançados no oceano a cada segundo. Em vez de simplesmente se misturar à água salgada perto da costa africana, parte desse volume é capturada por enormes redemoinhos e transportada por centenas de quilômetros.
A descoberta acrescenta um capítulo importante à história do rio Congo. Além de possuir trechos com mais de 200 metros de profundidade, ele influencia a circulação do Atlântico, o transporte de nutrientes e os ecossistemas marinhos muito além de sua foz.
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Redemoinho transportou água do rio Congo durante 49 dias
O estudo foi desenvolvido por pesquisadores do Laboratório de Estudos em Geofísica e Oceanografia Espacial e instituições colaboradoras. Os resultados foram publicados no periódico Journal of Geophysical Research: Oceans e divulgados pela American Geophysical Union em julho de 2026.
Os cientistas investigaram a pluma de água doce formada quando o rio Congo chega ao Atlântico. Durante a estação chuvosa, essa massa de água se desloca principalmente para sudoeste e pode ser capturada por redemoinhos oceânicos de mesoescala.
Esses redemoinhos podem apresentar dimensões próximas de 100 quilômetros. Um deles, acompanhado durante março e abril de 2016, permaneceu ativo por 49 dias e atingiu raio aproximado de 150 quilômetros.
O redemoinho prendeu água de baixa salinidade em sua região central e a transportou cerca de 200 quilômetros para longe da costa antes de desaparecer. O fenômeno mostrou que a influência do Congo no oceano não fica restrita à área da desembocadura.
Mais de 5 mil partículas foram acompanhadas
Para reconstruir o caminho da água, os pesquisadores usaram um modelo de circulação oceânica com resolução de 3 quilômetros. A simulação foi comparada com medições de salinidade, altura da superfície do mar, correntes e informações obtidas por satélites e sistemas de rastreamento de embarcações.
A equipe escolheu 2016 porque existiam registros observacionais especialmente detalhados daquele período. O modelo conseguiu reproduzir o tamanho, a posição e as mudanças sazonais verificadas na pluma do rio Congo.
Mais de 5 mil partículas virtuais foram acompanhadas de forma retroativa. Os resultados indicaram que a água encontrada no centro do redemoinho em abril havia saído da porção sul da pluma durante março.
A pesquisa demonstrou que o transporte não ocorre apenas por uma dispersão lenta e contínua. Eventos episódicos, como a formação de grandes redemoinhos, podem carregar enormes quantidades de água doce pelo Atlântico em verdadeiros pulsos.
Essa dinâmica influencia a salinidade, a circulação regional e a distribuição de nutrientes. Por isso, os resultados também podem ajudar a compreender alterações nos ecossistemas marinhos e nas áreas pesqueiras dependentes da água trazida pelo rio.
Profundidade superior a 200 metros exige cuidado com números
A profundidade do rio Congo é outro dado impressionante, mas precisa ser apresentada com precisão. É comum encontrar referências a uma profundidade máxima de aproximadamente 220 metros, embora esse valor não deva ser tratado como uma medição exata e definitiva.
Medições hidroacústicas realizadas no Baixo Congo pelo Serviço Geológico dos Estados Unidos identificaram profundidade superior a 200 metros. Esse resultado sustenta a classificação do Congo como o rio mais profundo conhecido do planeta.
O sistema fluvial possui aproximadamente 4,3 mil quilômetros de extensão, dependendo do critério adotado para determinar sua nascente. Sua bacia ocupa cerca de 4 milhões de quilômetros quadrados e forma o segundo maior sistema fluvial do mundo em vazão, atrás somente do Amazonas.
As áreas mais profundas estão no Baixo Congo, onde o rio atravessa canais estreitos, corredeiras e mudanças abruptas no relevo submerso. As correntes intensas criam ambientes extremos e ajudam a separar populações de peixes.
Bacia do Congo apresenta tendência de redução das chuvas
Outra pesquisa, publicada em outubro de 2025 na revista npj Climate and Atmospheric Science, analisou 42 anos de informações atmosféricas e hidrológicas, abrangendo o período de 1981 a 2022.
Os pesquisadores identificaram uma tendência significativa de redução da umidade na região central da Bacia do Congo. O processo foi relacionado à menor convergência de umidade e à diminuição das precipitações, principalmente durante a época normalmente mais chuvosa.
O estudo associou essa mudança ao enfraquecimento da circulação de Walker e ao aumento da temperatura da superfície do Atlântico tropical central e oriental. A influência do oceano sobre a umidade regional aparece com uma defasagem aproximada de três meses.
A temperatura do ar na bacia aumentou cerca de 0,17 °C por década desde os anos 1980. A situação preocupa porque mais de 80% da produção agrícola regional depende das chuvas sazonais, enquanto as florestas necessitam dessa umidade para conservar sua estabilidade.
Águas escuras estão liberando carbono antigo
Em 2026, outra descoberta chamou a atenção para a Bacia do Congo. Um estudo publicado na revista Nature Geoscience encontrou carbono proveniente de turfeiras milenares sendo liberado por grandes lagos e rios de águas escuras.
As amostras foram coletadas nos lagos Mai Ndombe e Tumba e nos rios Fimi e Ruki. A análise isotópica indicou que parte do carbono dissolvido se originou de matéria orgânica antiga armazenada nas turfeiras da região central.
Os resultados não significam automaticamente que todo o estoque de carbono esteja entrando em colapso. Entretanto, mostram que o carbono antigo pode passar das turfeiras para os ambientes aquáticos e, posteriormente, alcançar a atmosfera.
A descoberta é relevante porque as turfeiras da região armazenam aproximadamente 30 bilhões de toneladas de carbono. Mudanças no equilíbrio hidrológico poderiam afetar um dos maiores reservatórios naturais do planeta.
Pequenos peixes escalam cachoeira de 15 metros
A biodiversidade também rendeu uma descoberta curiosa. Em abril de 2026, pesquisadores documentaram milhares de peixes da espécie Parakneria thysi escalando a cachoeira Luvilombo, com aproximadamente 15 metros, na parte superior da Bacia do Congo.
Os animais mediam principalmente entre 3,7 e 4,8 centímetros. Eles utilizavam nadadeiras e pequenas estruturas semelhantes a ganchos para se prender às superfícies úmidas, avançando pelas áreas atingidas pelos respingos.
A subida completa pode levar quase dez horas. Foi o primeiro registro científico apoiado por imagens desse comportamento na espécie, reforçando quanto ainda permanece desconhecido sobre os animais que vivem no sistema do rio Congo.
Fontes consultadas
- American Geophysical Union — transporte da água do Congo pelo Atlântico
- Journal of Geophysical Research: Oceans — estudo original de 2026
- USGS — medições hidroacústicas no Baixo Congo
- npj Climate and Atmospheric Science — redução da umidade na Bacia do Congo
- Nature Geoscience — liberação de carbono antigo
- Scientific Reports — peixes escalando a cachoeira Luvilombo
