Enquanto os grandes portos do Sudeste disputam manchete, foi no Maranhão que o Brasil bateu seu recorde mais silencioso: o Porto do Itaqui fechou o primeiro semestre de 2026 com mais de 17 milhões de toneladas movimentadas, o melhor semestre da sua história, e consolidou o papel de locomotiva do Arco Norte.
O número não veio de um mês isolado de sorte. Veio de uma sequência. O Itaqui começou o ano cravando o melhor janeiro da série histórica, com salto de 44% na movimentação, e em maio bateu o recorde de granéis sólidos, com cerca de 2,7 milhões de toneladas em um único mês, sendo 2,1 milhões só de soja. Quando se soma tudo de janeiro a junho, o porto público de São Luís passou a marca dos 17 milhões de toneladas e reescreveu a própria régua.
Para entender o tamanho do feito, vale lembrar que o porto vem batendo recorde atrás de recorde. Ainda no ano passado, um único mês de julho chegou a movimentar 3,76 milhões de toneladas com 112 navios atracados, marca superada semanas depois. O que era exceção virou rotina, e a rotina agora entrega um semestre inteiro em patamar inédito.

Por que a produção do Centro-Oeste passou a sair pelo Maranhão
A explicação está no mapa. O Itaqui fica na ponta do Arco Norte, o corredor logístico que escoa a produção do Centro-Oeste e do MATOPIBA, a fronteira agrícola que junta Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia. Puxada pela Ferrovia Norte-Sul e pelo corredor Centro-Oeste–Norte, a soja de Mato Grosso encontra ali um caminho mais curto para a Ásia e a Europa do que descer até Santos ou Paranaguá.
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A vantagem geográfica é concreta. Saindo do Maranhão, o navio economiza dias de viagem rumo aos grandes compradores do Hemisfério Norte, o que reduz o custo do frete na exportação de grãos e na importação de fertilizantes. Não à toa, os fertilizantes cresceram cerca de 25% no acumulado do ano, o cobre avançou 12% e a celulose ganhou fôlego, movimentada pelo terminal com métodos de gestão enxuta que triplicaram a eficiência para perto de 16 mil toneladas por dia.
E não é só grão. As operações de transferência de carga entre navios, o chamado ship-to-ship, movimentaram cerca de 415 mil toneladas num único mês, o dobro do registrado um ano antes. O porto também virou um hub de combustíveis para a região Norte, com boa fatia do diesel e da gasolina importados entrando pelo cais maranhense. Fico imaginando o quanto essa diversificação protege o Itaqui de um ano ruim de safra: quando o grão cai, o combustível e o fertilizante seguram o volume.
A aposta que promete manter o porto crescendo até 2051
O recorde chega num momento de virada institucional. Em janeiro, o Ministério de Portos e Aeroportos prorrogou até 2051 a cessão do porto à EMAP, a Empresa Maranhense de Administração Portuária, dando o horizonte de longo prazo que os investidores pediam. Junto veio a promessa de R$ 1,3 bilhão em dois leilões de novas áreas portuárias ainda neste ano.

A obra mais aguardada é o berço 98, previsto para o segundo semestre, que sozinho deve acrescentar de 8 a 10 milhões de toneladas de capacidade por ano a partir de 2027. Há ainda projetos para um terminal de granel vegetal voltado a trigo, milho e soja, uma área de transbordo de fertilizantes e um novo berço para granéis líquidos, que sozinho adiciona 3,5 milhões de toneladas anuais. O gargalo de infraestrutura, que sempre foi o freio do porto, começa enfim a ser atacado de frente, com obras que devem sustentar o ritmo de crescimento pela próxima década inteira.
“Realmente agora batemos o recorde de granéis sólidos, alcançando aproximadamente 2,7 milhões de toneladas”, celebrou Oquerlina Costa, presidente da EMAP, ao lembrar que o setor portuário do estado sustenta mais de 100 mil empregos diretos e indiretos. O ministro Silvio Costa Filho resumiu o clima: “O Porto do Itaqui hoje é uma referência do Nordeste e do Brasil”.
No embarque de soja, o Arco Norte já disputa de igual para igual com o Sudeste. O corredor concentra perto de 40% dos embarques da oleaginosa, fatia impensável há uma década, quando quase tudo descia para Santos e Paranaguá. O terminal de grãos do Itaqui tem expectativa de movimentar 7,5 milhões de toneladas por ano à medida que a estrutura amadurece, puxando junto toda a economia de São Luís. Hoje o Itaqui já figura entre os quatro maiores portos do Brasil em movimentação total, posição que confirma na prática o deslocamento do eixo logístico do país rumo ao Norte.
O gargalo que resta não está no cais, e sim antes dele. A capacidade de armazenagem no interior segue sendo o elo mais frágil da cadeia, com déficit estrutural que obriga o produtor a escoar o grão às pressas na época da colheita. Enquanto os silos não acompanham a safra recorde, o porto continua sendo a válvula de escape que segura a pressão de todo o sistema logístico do Centro-Oeste.
A gente costuma associar o poder logístico do país ao eixo Rio–São Paulo, mas os números do Maranhão contam outra história. O Arco Norte deixou de ser aposta de futuro e virou o presente do escoamento agrícola brasileiro, e o Itaqui é a peça que puxa esse trem. Se a expansão sair no prazo, o próximo recorde já nasce combinado, e o Nordeste ganha de vez o protagonismo que a geografia sempre prometeu.
O Arco Norte veio para tirar de vez o protagonismo dos portos do Sul e Sudeste?
