A incorporadora Alfa Realty comprou o prédio tombado das Irmãs Salesianas em 2015, depois de passar por uma entrevista com as próprias religiosas; metade das 51 unidades já foi vendida a R$ 20 mil o metro quadrado e a entrega está prevista para outubro de 2028
O convento do Ipiranga, um dos endereços mais curiosos de São Paulo, tem um novo destino marcado no calendário do mercado imobiliário. Em reportagem publicada em 6 de julho de 2026, a Exame revelou que o antigo convento das Irmãs Salesianas, vizinho do Museu do Ipiranga, vai se transformar no Alma Mater, um empreendimento residencial de luxo, depois de anos de deterioração em que o prédio centenário funcionava como lar informal para dezenas de gatos.
Os números do projeto impressionam: o Valor Geral de Vendas é estimado em R$ 130 milhões, serão 51 unidades no total, 19 delas dentro do edifício histórico, o metro quadrado sai por R$ 20 mil, com acréscimo de 10% para as unidades do convento original, e, até o fechamento da reportagem, metade de tudo já havia sido vendida, segundo a Exame. As obras começam no 2º semestre de 2026 e a entrega está prevista para outubro de 2028.
O prédio que o conde doou e o artista desenhou
A história do convento do Ipiranga começa na virada do século XIX para o XX, quando São Paulo crescia de forma acelerada, com bolsões de pobreza e falta de estrutura educacional. O conjunto foi concebido por volta de 1920 como parte da atuação do Instituto das Filhas de Maria Auxiliadora, as Irmãs Salesianas, grupo religioso ligado à pedagogia de Dom Bosco, para acolher, educar e formar jovens, segundo a Exame. O projeto é assinado pelo artista Domingos Del Piano, e o terreno foi doado pelo conde José Vicente de Azevedo, um dos nomes ligados ao desenvolvimento urbano do bairro.
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Inaugurado como Casa Maria Auxiliadora e rebatizado poucos anos depois como Noviciado Nossa Senhora das Graças, o edifício acumulou funções ao longo das décadas: centro de formação religiosa, centro de espiritualidade, pensionato para jovens e até faculdade, registra a Exame. A Casa Vogue acrescenta que a construção neoclássica é de 1924, é tombada pelo CONPRESP, o órgão de preservação do patrimônio da capital paulista, e guarda arcos, vitrais, escadarias de madeira, azulejos coloridos, ladrilhos hidráulicos, mármores e madeira de pinho de riga.
A faculdade que ocupou o convento do Ipiranga e fechou as portas

Antes do luxo, o endereço viveu um capítulo universitário que terminou mal. A Faculdade São Marcos passou a operar no local nos anos 1970, primeiro como inquilina, comprou cerca de 5.000 metros quadrados do imóvel em 1979 e transformou parte do antigo convento no chamado Prédio João XXIII, segundo a Exame. Por aproximadamente três décadas, o espaço abrigou cursos superiores.
O desfecho veio em 2012, quando o Ministério da Educação descredenciou a Universidade São Marcos após intervenção judicial, apontando inviabilidade financeira, desorganização acadêmica e falhas de gestão, e cerca de 2 mil alunos foram transferidos para outras instituições, ainda de acordo com a Exame. Com o fechamento, o prédio entrou num ciclo de esvaziamento e deterioração: forros cedendo, falta de manutenção, disputas jurídicas, e a vizinhança felina tomando conta dos corredores onde antes circulavam noviças e estudantes.
O empresário que descobriu que tinha comprado um convento tombado
O terreno acabou fracionado em duas matrículas: uma parcela foi a leilão e ficou com outra incorporadora, e a parte que abriga o convento em si retornou às Irmãs Salesianas depois que a faculdade não concluiu os pagamentos, explica a Exame. Foi essa fatia que mudou de mãos em 2015, quando a Alfa Realty adquiriu a área com proposta de preservação integral do convento do Ipiranga.
A surpresa do sócio-diretor virou anedota. André Davidovici, sócio-diretor da incorporadora desde 2005, soube pelo próprio sócio que a empresa tinha acabado de comprar um convento, segundo a Exame. “Me surpreendi e questionei o que faríamos com o convento. Logo descobri que, além de tudo, ele era tombado”, conta ele à Exame. E a venda teve um rito nada convencional: “Para conseguir comprar o terreno fizemos uma bela entrevista com as irmãs. Elas que homologaram a gente, né?”, diz Davidovici, acrescentando na reportagem que as religiosas queriam ter certeza de que o prédio seria restaurado, e não demolido. “Havia um cuidado muito grande com o destino do prédio. Não era apenas uma decisão imobiliária, era também uma decisão de preservação.”
A própria Exame brinca que, em narrativas como as do Castelo Rá-Tim-Bum, o imóvel poderia ter atraído um “doutor Abobrinha” disposto a demolir tudo para erguer um prédio de cem andares, mas o desfecho real foi o oposto.
Piscina no pátio central e clubhouse na antiga capela

O retrofit é assinado pela arquiteta Sol Camacho, fundadora do escritório RADDAR e responsável por outros restauros de peso, como o do Estádio Pacaembu, informa a Casa Vogue. No edifício histórico, batizado de “O Legado”, serão 19 unidades, 8 no pavimento térreo e 11 no superior, e as demais 32 unidades ficarão em duas alas novas de arquitetura contemporânea construídas ao lado do conjunto original, segundo a Exame. A lógica do retrofit converte antigas salas em apartamentos independentes, preservando fachada, escadarias e corredores, e o desenho prevê uma piscina no pátio central e um clubhouse instalado na antiga capela das irmãs.
A Casa Vogue detalha o que vem junto: uma edificação nova concentrará academia, coworking, mercadinho, lavanderia, brinquedoteca, piscina aquecida e sauna, os interiores são do arquiteto Marcelo Salum, o paisagismo é de Flávia Tiraboschi e Felipe Mascarenhas, e o restauro conta com o Estúdio Sarasá, especializado em patrimônio cultural. O complexo terá ainda áreas abertas ao público, como lojas, restaurantes e uma livraria-brechó, e o clubhouse deve receber programação cultural com jazz, vernissages e festivais gastronômicos, segundo a Casa Vogue.
R$ 20 mil o metro quadrado no convento do Ipiranga
O apelo comercial acompanha o histórico. As tipologias vão de studios de 34 metros quadrados nas alas novas a unidades de 370 metros quadrados, e, no prédio histórico, os apartamentos giram em torno de 90 metros quadrados, com algumas unidades chegando a 300 metros quadrados ou mais, segundo a Exame. O metro quadrado custa R$ 20 mil, com variação positiva de 10% para quem quiser morar dentro do convento propriamente dito.
A velocidade de vendas dá a medida do apetite: metade das 51 unidades já havia sido comercializada até o fechamento da reportagem, e, das 19 do edifício histórico, restavam apenas três, informa a Exame. Já a Casa Vogue estima em cerca de R$ 60 milhões o investimento em obras e restauro.
A “joia da arquitetura” nas palavras de quem comprou
O entusiasmo do dono não é discreto. “É um prédio de enorme importância, com acabamentos originais fantásticos que vamos preservar ao máximo: pisos de ladrilho hidráulico e mármore, escadarias monumentais, trabalhos em ferro e, principalmente, em madeira”, afirma Eudoxios Stefanos Anastassiadis, fundador e CEO da incorporadora, à Casa Vogue, que registra a definição dele para o convento do Ipiranga: “uma joia da arquitetura”. Na mesma linha, o arquiteto Marcelo Salum diz à Casa Vogue que, num prédio com essa força histórica, “o papel do projeto é vesti-lo sem apagar sua essência”.
A exposição que abre o convento antes das obras
Antes de virar endereço de luxo, o prédio vai virar galeria. Em agosto de 2026, o escritório RADDAR e a incorporadora organizam a exposição “Camadas”, montada no próprio edifício histórico, com desenhos arquitetônicos, processo de produção e a seleção de materiais do restauro, segundo a Casa Vogue. “É como se a gente estivesse abrindo as portas do nosso escritório”, diz Sol Camacho à Casa Vogue, lembrando que cresceu “com uma mãe arquiteta que fazia restauro de monumentos”.
Fica a observação desta redação, devidamente sinalizada: numa cidade que demoliu boa parte dos seus prédios históricos, chama a atenção que o comprador tenha precisado ser aprovado pelas freiras antes de fechar negócio, e que o retrofit tenha optado por “descascar” as intervenções acumuladas para recuperar a leitura arquitetônica original em vez de partir para a demolição.
Do noviciado de 1924 aos gatos que ocuparam os corredores vazios, e agora ao clubhouse com jazz na antiga capela, o convento do Ipiranga resume um século de São Paulo num único quarteirão, a poucos passos do Museu do Ipiranga.
Conta pra gente nos comentários: você moraria num prédio histórico tombado, ou acha que restauro desse tipo deveria virar espaço público em vez de residencial de luxo?
