Startup aposta em fibra de carbono e compósitos avançados para produzir material ultraleve no Brasil e impulsionar o hidrogênio verde com inovação.
A busca por logística eficiente na distribuição de combustíveis limpos ganhou um novo capítulo. Uma startup sediada em São José dos Campos (SP) desenvolveu uma inovadora tecnologia brasileira capaz de transformar o setor de energia: a produção nacional de towpreg, uma fibra de carbono ultraleve com resistência mecânica equivalente à do aço, mas com uma fração de seu peso.
O avanço, apoiado pelo programa PIPE da FAPESP e divulgado no site da instituição no dia 7 de julho de 2026, viabiliza cilindros de armazenamento até 70% mais leves, abrindo caminhos para a expansão do hidrogênio verde e dos compósitos avançados na indústria e nos transportes.
Logística otimizada com compósitos avançados
Como o transporte rodoviário predomina no país, a movimentação de gases comprimidos esbarra no peso excessivo dos cilindros metálicos tradicionais, que também sofrem com riscos de corrosão. A introdução de cilindros feitos com compósitos avançados altera completamente essa realidade operacional.
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Dados divulgados pela FAPESP estimam que o alívio de peso proporcionado pela tecnologia traga impactos profundos na cadeia de suprimentos:
- Peso reduzido: Queda de 20% no peso total do transporte dos cilindros.
- Mais eficiência: Ganho de 50% na capacidade de carga por carreta.
- Frete mais barato: Redução de até 45% no custo logístico por metro cúbico de gás.
Engenharia do towpreg e a tecnologia brasileira com fibra de carbono
A grande conquista do projeto é nacionalizar o towpreg, um insumo essencial que antes dependia 100% de importação. Trata-se de um fio contínuo e pegajoso, parecido com uma fita isolante industrial enrolada em novelo. Essa aderência superficial facilita o enrolamento automatizado sobre as estruturas que recebem o reforço estrutural.
A coordenadora do projeto e química, Michelle Leali Costa, explica que a cadeia produtiva externa gerava severos riscos comerciais. O material importado exige refrigeração rigorosa a -18 °C. Qualquer atraso na alfândega sem o resfriamento correto pode inutilizar lotes inteiros. Além disso, os longos prazos de trâmite aduaneiro encurtam drasticamente o tempo de vida útil do produto antes do vencimento.
Para resolver isso, os pesquisadores focaram em formular uma resina epóxi estável que dispensa refrigeração por pelo menos 90 dias, além de otimizar a impregnação e criar protótipos em escala semi-industrial.
A ciência da fibra de carbono contra a pressão
Em termos estruturais, o insumo combina um feixe de filamentos de fibra de carbono ou de vidro impregnado com resina polimérica epóxi de alta resistência. Isolada, a fibra suporta tração, mas precisa da matriz da resina para ganhar forma, distribuir esforços mecânicos e amortecer tensões.
O uso dessa combinação de fibra de carbono e resina já transformou outros mercados críticos:
- Fórmula 1: Compõe 90% da carroceria para dissipar energia e absorver impactos.
- Aviação comercial: Representa cerca de 50% da estrutura do Boeing 787 Dreamliner, gerando uma redução de 20% no peso do avião.
Cilindros mais seguros para o hidrogênio verde
O setor de energia desponta como o mercado prioritário. Armazenar o hidrogênio verde exige segurança máxima, por se tratar de uma molécula muito pequena, volátil e altamente inflamável. Qualquer falha estrutural pode causar incêndios ou explosões.
A solução nacional foca em cilindros do tipo IV, que utilizam um interior de polímero revestido por camadas externas de towpreg. O resultado é um reservatório imune à corrosão, ideal para ambientes agressivos como o pré-sal. A expectativa de Michelle Costa é que a fabricação local reduza o custo final desses cilindros em até 40% no Brasil, tornando-os competitivos frente aos antigos modelos de aço.
Autonomia industrial e novos mercados
O domínio dessa tecnologia reposiciona o país e atrai o interesse de múltiplos setores estratégicos. Embora o foco inicial esteja no mercado interno devido à agilidade logística, indústrias vizinhas do Mercosul, como empresas da Argentina, já sinalizaram forte interesse comercial.
A versatilidade desse material ultraleve permite aplicações em campos diversos:
- Defesa e segurança: A Marinha do Brasil avalia o composto para operações submarinas devido à alta resistência à corrosão salina.
- Tecnologia móvel: Fabricantes de drones movidos a hidrogênio demandam tanques leves e compactos para ampliar a autonomia de voo.
- Setores civis: Potencial de uso que se estende desde próteses ortopédicas até componentes automotivos e tubos para a construção civil.
Próximos passos e desafios regulatórios para o produto de fibra de carbono
O marco técnico da tecnologia brasileira resolve gargalos de suprimentos, mas o avanço comercial agora depende de certificações rigorosas. Como vasos de pressão guardam riscos de asfixia e explosão em locais confinados, o nível de exigência técnica é total.
Para o biometano, o Inmetro adota normas europeias bem consolidadas. Já para o hidrogênio, o Brasil ainda não possui uma regulamentação nacional própria, o que obriga os pesquisadores a recorrerem a diretrizes estrangeiras. Vencer essa etapa burocrática e consolidar a produção fabril pavimentará o caminho para o país liderar o fornecimento de soluções seguras na transição energética global.
