Anderson Birman acertou a mão com um modelo Anabela para o público feminino, e Alexandre, que aos 13 anos já dominava a fabricação de calçados, fundou a Schutz em 1995, assumiu o comando em 2013 e dobrou a companhia antes da união com o Grupo Soma
Poucas famílias brasileiras carregam um sobrenome tão amarrado a um produto quanto os Birman aos sapatos. Segundo o InfoMoney, a Arezzo foi fundada em 1972 por Anderson Birman, em Belo Horizonte, começando com produção artesanal na garagem da família e amargando prejuízo nos dois primeiros anos, até o sucesso chegar com o modelo Anabela, voltado ao público feminino.
Meio século depois, o negócio da garagem virou colosso: a companhia comandada pelo filho, Alexandre Birman, se uniu em 2024 ao Grupo Soma dando origem à Azzas 2154, holding com mais de 30 marcas e cerca de 2 mil lojas, segundo a Suno. No caminho, teve filho competindo com pai, IPO histórico e uma pandemia que quase zerou o caixa.
O menino que aos 13 já sabia fazer um sapato inteiro
O herdeiro não cresceu no escritório, cresceu na fábrica. Alexandre Café Birman, nascido em Belo Horizonte em 1976, dominava aos 13 anos todo o processo de fabricação de um calçado e, aos 17, foi estudar sapataria num curso técnico na Itália, segundo o InfoMoney. O sobrenome do meio, Café, veio de uma bisavó cafeicultora, como se a história econômica do país atravessasse o nome da família.
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Ele perdeu o emprego numa fábrica de calçados no início dos anos 1990, vendeu ferramenta na porta de banco e padaria em Franca para sustentar a família e fundou a Loja do Mecânico, que hoje tem 19 lojas, projeta faturamento de R$ 1,2 bilhão e acaba de abrir a primeira unidade na capital paulista
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Aos 21 anos, ele pegou um aporte de R$ 200 mil do pai e do tio e fundou uma papelaria “fofa” no Paraná, hoje a BRW fatura R$ 242 milhões, chega a 20 mil pontos de venda e patenteou 11 invenções como o marca-texto com gloss labial para conquistar as adolescentes
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Em vez de esperar a cadeira do pai, ele criou a própria: em 1995, aos 18 anos, fundou a Schutz, que começou mirando o público masculino e virou a chave para o feminino em 1999, até abrir a primeira loja na Oscar Freire, em São Paulo, em 2009, de acordo com o InfoMoney. Pai e filho construíram marcas concorrentes antes de juntá-las sob o mesmo teto.
A união das marcas, a Tarpon e o IPO no aniversário do pai

A profissionalização veio em etapas calculadas. A gestora Tarpon investiu R$ 76,3 milhões por 25% da companhia na estruturação da Arezzo&Co, e o IPO aconteceu em 2 de fevereiro de 2011, dia do aniversário de Anderson, com a ação saindo a R$ 19, no teto da faixa, levantando R$ 565,8 milhões e subindo quase 12% no primeiro dia, segundo o InfoMoney. A empresa de sapatos da garagem mineira virou queridinha da bolsa.
Dali em diante, as ações acumulariam alta de cerca de 300% desde a estreia, com o mercado premiando um modelo raro no varejo brasileiro: marcas fortes, fábrica enxuta e expansão disciplinada por franquias e lojas próprias.
O filho assume, estuda em Harvard e dobra a empresa
A sucessão foi preparada como projeto. Alexandre assumiu como CEO em 2013, depois de frequentar em Harvard uma disciplina de gestão avançada para presidentes, e sob o comando dele a companhia praticamente dobrou, chegando em 2019 a R$ 1,6 bilhão de receita líquida, lucro de R$ 162 milhões, 14,5 milhões de pares vendidos, 750 lojas físicas e mais de 2.700 pontos de venda, segundo o InfoMoney. O herdeiro provou que não era só herdeiro.
No mesmo período, ele multiplicou o portfólio, lançando marcas como Anacapri, de preço acessível, e fechando em 2019 a distribuição exclusiva da americana Vans no Brasil, por R$ 50 milhões, o primeiro movimento não orgânico da companhia em quase 50 anos, de acordo com o InfoMoney. A casa de uma marca só virou plataforma de várias.
A pandemia que sumiu com 90% do faturamento

O teste de fogo veio em março de 2020. Com o fechamento das lojas na pandemia, 90% do faturamento da companhia desapareceu, e a resposta foi uma virada digital em tempo recorde, com vendas migrando para o site, o WhatsApp e o Instagram, segundo o InfoMoney. A empresa que vivia de vitrine física aprendeu a vender por mensagem em questão de semanas.
A crise acabou acelerando a transformação que já estava no plano: o digital deixou de ser canal acessório e virou músculo permanente da operação, preparando o terreno para o movimento mais ousado da história da casa.
A fusão que criou um gigante de 30 marcas
O capítulo atual redesenhou o varejo de moda brasileiro. Em 2024, a companhia dos Birman se uniu ao Grupo Soma, dono de algumas das marcas de roupa mais valiosas do país, dando origem à Azzas 2154, uma holding com mais de 30 marcas e cerca de 2 mil lojas, segundo a Suno. Calçado e vestuário, dois mundos que sempre andaram separados no varejo nacional, passaram a responder ao mesmo grupo.
Para o consumidor, o efeito é invisível e gigante ao mesmo tempo: boa parte das vitrines de shopping que ele percorre pertence agora à mesma companhia. Para o mercado, é a aposta de que escala e portfólio são a defesa definitiva num varejo espremido por juros e concorrência internacional.
A lição de meio século: cada geração refunda a empresa
A história dos Birman ensina algo raro sobre longevidade nos negócios. Anderson fundou, errou dois anos, acertou com a Anabela e construiu a marca; Alexandre não administrou a herança, criou uma concorrente aos 18, trouxe método, dobrou a empresa e a fundiu num grupo maior: cada geração tratou o negócio como algo a ser refundado, não apenas mantido. É o antídoto contra a regra que diz que a terceira geração destrói o que a primeira construiu.
Da garagem mineira à holding de 2 mil lojas, o sapato dos Birman atravessou meio século sempre um passo à frente.
Conta pra gente nos comentários: você sabia que Arezzo e Schutz nasceram de pai e filho competindo entre si, e acha que herdeiro tem que começar criando o próprio negócio?
