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Enquanto milhões recebem o Bolsa Família, empresas brasileiras ligam o sinal de alerta: elas não encontram pessoas para trabalhar, nem mesmo em funções tradicionais, e 80% relatam dificuldade para preencher vagas no país.

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Escrito por Alisson Ficher Publicado em 08/07/2026 às 16:44 Atualizado em 08/07/2026 às 16:48
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Escassez de mão de obra e programas sociais aparecem no mesmo cenário em que empresas relatam dificuldade persistente para contratar, com pressão maior sobre setores técnicos, funções digitais, habilidades comportamentais valorizadas e processos de seleção mais exigentes no mercado brasileiro.

O Brasil chegou a 2026 com 80% dos empregadores relatando dificuldade para encontrar profissionais, segundo a Pesquisa de Escassez de Talentos 2026, publicada pelo ManpowerGroup em 25 de fevereiro deste ano.

Acima da média global de 72%, o índice mantém a falta de mão de obra qualificada entre os principais gargalos das empresas brasileiras, especialmente em atividades que exigem competências técnicas, adaptação constante e maior domínio digital.

Ao mesmo tempo, o Bolsa Família segue atendendo milhões de lares no país, em um quadro social que ajuda a dimensionar o contraste entre vagas abertas, renda familiar e dificuldade de inserção produtiva.

Em junho de 2026, o programa chegou a mais de 19,34 milhões de famílias, com investimento de R$ 13,08 bilhões e benefício médio de R$ 677,66 por domicílio, segundo o Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social.

Ainda assim, a pesquisa do ManpowerGroup não estabelece relação de causa e efeito entre o programa social e a dificuldade de contratação apontada pelos empregadores brasileiros no levantamento sobre escassez de talentos.

O estudo mede a percepção das empresas sobre a falta de profissionais disponíveis e aponta um descompasso entre as habilidades exigidas pelos empregadores e as competências encontradas no mercado de trabalho.

Escassez de mão de obra segue alta no Brasil

Realizado com mais de 39 mil empregadores em 41 países, o levantamento incluiu 1.020 entrevistas no Brasil e reuniu informações usadas para medir a dificuldade de contratação prevista para 2026.

Entre 1º e 31 de outubro de 2025, período do trabalho de campo, as empresas foram consultadas sobre os obstáculos enfrentados para encontrar profissionais com o perfil necessário às vagas abertas.

A série brasileira permanece em patamar elevado há quatro anos, com 80% em 2023, 80% em 2024, 81% em 2025 e novo recuo para 80% em 2026.

Esse comportamento indica persistência do problema, sem sinais de alívio expressivo no curto prazo, e reforça a leitura de que a escassez deixou de ser uma oscilação pontual no mercado de trabalho.

No ranking global, o Brasil aparece entre os países com maior dificuldade para contratar, atrás de economias como Eslováquia, Grécia, Japão, Alemanha, Índia, Portugal e Irlanda.

A Eslováquia lidera a lista, com 87%, seguida por Grécia e Japão, ambos com 84%, enquanto Alemanha, Índia, Portugal e Irlanda aparecem acima ou muito próximas do índice brasileiro.

Na parte inferior do levantamento, a página brasileira do ManpowerGroup informa percentuais menores para China, Polônia e Finlândia, com 48%, 57% e 60%, respectivamente.

Essa diferença em relação a números divulgados em algumas versões do levantamento reforça a importância de conferir os percentuais diretamente na fonte responsável pela pesquisa.

Empresas maiores enfrentam mais pressão para contratar

Entre as empresas de médio e grande porte, a dificuldade de contratação aparece com intensidade maior, principalmente nas organizações que precisam preencher vagas em áreas técnicas, operacionais e administrativas ao mesmo tempo.

No Brasil, companhias com 1 mil a 4.999 funcionários registram o maior índice do levantamento por porte, com 90% dos empregadores relatando escassez de talentos.

Mesmo nos negócios com menos de dez colaboradores, o percentual continua alto, já que 72% dos empregadores afirmam enfrentar obstáculos para encontrar profissionais adequados às vagas disponíveis.

A diferença entre os portes mostra que a escassez atinge empresas de tamanhos variados, mas tende a crescer conforme aumentam a complexidade das operações e a quantidade de funções abertas.

Pelo recorte regional, o problema se concentra de forma mais forte nos principais polos econômicos, onde a competição por profissionais qualificados costuma ser maior e a demanda empresarial é mais diversificada.

São Paulo lidera o ranking nacional, com 88% dos empregadores relatando dificuldades, seguido por Minas Gerais, com 85%, e Rio de Janeiro, com 80%.

A cidade de São Paulo aparece com 79%, enquanto outras regiões do país somam 77%, mantendo o quadro de escassez disseminado para além dos maiores estados.

No Paraná, menor percentual entre os recortes apresentados, 74% dos empregadores relatam dificuldade para preencher vagas, índice que ainda supera a média global de 72% registrada pela pesquisa.

Tecnologia, atendimento e habilidades humanas entram no radar

No recorte por setores, a maior dificuldade brasileira está em serviços profissionais, científicos e técnicos, área em que 85% dos empregadores relatam escassez de profissionais.

Logo depois aparece o setor de informação, com 83%, enquanto comércio e logística, hospitalidade, manufatura, serviços públicos, recursos naturais, setor público, saúde e serviços sociais registram 79%.

Entre as competências técnicas mais difíceis de encontrar estão desenvolvimento de modelos e aplicações de inteligência artificial, letramento em IA, TI e dados, front office e atendimento ao cliente, além de marketing e vendas.

Com esse conjunto de demandas, o levantamento mostra que a falta de profissionais não se limita às áreas altamente tecnológicas e também afeta funções tradicionais ligadas ao relacionamento com clientes.

As habilidades comportamentais ganharam peso nos processos seletivos, especialmente porque empresas buscam profissionais capazes de se adaptar a mudanças, colaborar com equipes e resolver problemas em ambientes mais digitais.

No Brasil, o ManpowerGroup destaca profissionalismo e ética no trabalho, comunicação e colaboração, adaptabilidade, pensamento crítico, resolução de problemas e letramento digital entre as competências mais valorizadas pelos empregadores.

Empresas investem em formação interna para preencher vagas

Com candidatos prontos mais difíceis de encontrar, parte das companhias passou a investir em formação interna para reduzir a distância entre as exigências das vagas e as competências disponíveis.

No Brasil, 44% dos empregadores apontam programas de upskilling e reskilling como estratégia para enfrentar a escassez, percentual superior ao índice global de 27%.

Também aparecem entre as respostas empresariais a busca por novos grupos de talentos, citada por 25% dos empregadores, e a oferta de maior flexibilidade de localização, mencionada por 23%.

A flexibilização da jornada de trabalho foi apontada por 21% das empresas brasileiras, em um movimento que indica ajustes nas políticas de atração e retenção de profissionais.

A fotografia apresentada pela pesquisa combina dois movimentos relevantes para o mercado de trabalho brasileiro: empresas com vagas abertas e dificuldade para encontrar perfis adequados, enquanto milhões de famílias ainda dependem de transferência de renda.

Como aproximar qualificação, renda e oportunidade em um mercado que diz ter vagas, mas ainda não encontra profissionais com o perfil que procura?

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Alisson Ficher

Jornalista formado desde 2017 e atuante na área desde 2015, com seis anos de experiência em revista impressa, passagens por canais de TV aberta e mais de 12 mil publicações online. Especialista em política, empregos, economia, cursos, entre outros temas e também editor do portal CPG. Registro profissional: 0087134/SP. Se você tiver alguma dúvida, quiser reportar um erro ou sugerir uma pauta sobre os temas tratados no site, entre em contato pelo e-mail: alisson.hficher@outlook.com. Não aceitamos currículos!

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