Georgios Frangulis voltou de uma temporada nos Estados Unidos convencido de que faltava padrão à alimentação saudável brasileira, transformou a fruta paraense em franquia global com fábrica própria no Pará e hoje tem 70% da receita vinda de fora do Brasil
Em julho de 2026, o açaí é provavelmente o produto brasileiro mais globalizado da nova geração, e a marca que carrega essa bandeira nasceu num quiosque de shopping. Segundo a Exame, a Oakberry foi criada por Georgios Frangulis, que abriu a primeira loja em dezembro de 2016, no Shopping Cidade São Paulo, com investimento de R$ 300 mil, e chegou a levantar R$ 90 milhões para acelerar a expansão internacional.
Hoje a rede opera em 48 países, com mais de 900 unidades, sendo cerca de 400 lojas espalhadas por 21 estados brasileiros, e caminha para o seu primeiro bilhão de faturamento, com 70% da receita atrelada ao mercado internacional, segundo o InfoMoney. A fruta ribeirinha do Pará virou fast-food de brasileiro no mundo inteiro.
O advogado que trocou o direito pela tigela
Frangulis não veio do ramo de alimentação. Formado em direito, ele fez a faculdade apostando que o conhecimento jurídico serviria para qualquer negócio que decidisse tocar, e foi numa temporada morando nos Estados Unidos que enxergou a lacuna: o mercado brasileiro de alimentação saudável não tinha qualidade padronizada nem marca forte, segundo o InfoMoney. O açaí, servido de mil jeitos diferentes em cada esquina, era o candidato perfeito para ganhar padrão.
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A resposta foi criar uma operação com cara de rede global desde o primeiro dia: cardápio enxuto, loja bonita, produto idêntico em qualquer unidade e nome pensado para funcionar em qualquer idioma. Em 2017, um ano depois do primeiro quiosque, a marca já entrava no modelo de franquias, de acordo com o InfoMoney.
A máquina por trás: fábrica própria no Pará

Escalar açaí no mundo exige resolver um problema que o cliente não vê: a fruta é amazônica, perecível e sazonal. A solução da Oakberry foi verticalizar, inaugurando em setembro de 2022 uma fábrica própria em Santa Isabel, no Pará, com produção que alcançou o patamar de 7 mil toneladas de sorbet de açaí, segundo o InfoMoney. É a ponte industrial entre o ribeirinho que colhe a fruta e a loja em Dubai que serve a tigela.
Controlar a origem também virou argumento de marca. Enquanto concorrentes disputam fornecedores, a rede garante padrão de sabor e abastecimento global saindo da própria planta paraense, e ainda ancora o discurso de sustentabilidade na relação direta com a cadeia extrativista da Amazônia.
Do shopping paulistano ao deserto do Catar
A geografia da rede conta a dimensão do fenômeno. A expansão internacional virou o motor do negócio, com 70% do faturamento vindo de fora do Brasil, presença forte no Oriente Médio e crescimento anual que chegou a 144% em 2021 e 56% em 2022, com projeção de 83% na sequência, rumo à casa dos R$ 687 milhões, segundo o InfoMoney. A marca que nasceu vendendo tigela para paulistano virou sinônimo de açaí para árabes, europeus e americanos.
O aporte de R$ 90 milhões captado pela empresa, segundo a Exame, financiou justamente essa arrancada mundo afora. No Oriente Médio, o produto encontrou o cenário perfeito: calor o ano inteiro, público de alto poder aquisitivo e apetite por novidades saudáveis, a combinação que transformou lojas da região em recordistas de venda da rede.
Por que o açaí virou o produto de exportação mais improvável do Brasil

O açaí percorreu um caminho que nenhum planejador desenharia. A fruta que era café da manhã de ribeirinho no Pará virou febre entre surfistas cariocas, depois moda fitness nacional e, na última década, categoria global de fast-food saudável, com redes disputando shopping em Nova York, Lisboa e Doha. Poucos produtos brasileiros fizeram essa viagem completa da floresta para a vitrine mundial.
Para a economia da Amazônia, a globalização da fruta tem efeito concreto: o açaí é extrativista, colhido de palmeiras nativas, e cada tigela vendida no exterior puxa renda para a cadeia que começa no barco do ribeirinho. É o raro caso em que um produto de exportação valoriza a floresta em pé.
O modelo enxuto que viaja bem
Parte do sucesso da rede está no formato da loja. A operação de açaí é compacta por natureza: cardápio curto, poucos equipamentos, preparo rápido e produto de margem alta, o que permite abrir em quiosque de shopping, loja de rua pequena ou aeroporto, os pontos mais caros e disputados do varejo, sem a estrutura pesada de um restaurante. O mesmo desenho que coube num quiosque paulistano em 2016 cabe num terminal de aeroporto no Golfo.
Para o franqueado, isso significa investimento menor e retorno mais previsível; para a marca, velocidade de expansão. É o mesmo princípio que fez redes de café dominarem o mundo, aplicado a um produto que só o Brasil tem em escala.
A lição do quiosque que virou embaixada do Brasil
A trajetória da Oakberry mostra o que acontece quando um produto genuinamente brasileiro ganha embalagem de marca global. Frangulis não inventou o açaí, ele inventou o padrão: mesma tigela, mesmo sabor e mesma experiência em 48 países, e essa previsibilidade, não a novidade, é o que transformou R$ 300 mil num negócio às portas do bilhão. O mundo já gostava da fruta, faltava alguém entregá-la do mesmo jeito em toda esquina.
De um shopping de São Paulo para o deserto do Catar, o açaí do Pará virou vitrine do que o Brasil pode exportar além de commodity.
Conta pra gente nos comentários: você já viu açaí brasileiro vendido no exterior, e acha que qual outro produto nosso merecia ganhar o mundo desse jeito?
