Victor e Arthur Lazarte transformaram a empresa paulistana num unicórnio ao receber aporte do fundo americano Benchmark, o mesmo dos primeiros cheques de gigantes do Vale do Silício, e nove meses depois captaram mais US$ 120 milhões triplicando o valor do negócio
Em julho de 2026, o produto de tecnologia brasileiro mais usado no planeta não é um aplicativo de banco nem de entrega, é joguinho de celular. Segundo o Brazil Journal, a Wildlife Studios, fundada em São Paulo pelos irmãos Victor e Arthur Lazarte, foi avaliada em US$ 1,3 bilhão num aporte liderado pelo fundo americano Benchmark, virando unicórnio e uma das empresas de tecnologia mais valiosas do país.
A escala do fenômeno é de gigante global: mais de 1 bilhão de pessoas no mundo já jogaram títulos da empresa, como Sniper 3D e Tennis Clash, somando bilhões de downloads, e nove meses depois do primeiro aporte a companhia captou mais US$ 120 milhões, que avaliaram o negócio em US$ 3 bilhões, segundo o 360 News. E tudo começou, ainda segundo o 360 News, com um investimento inicial de US$ 100.
Os irmãos que trocaram carreira de elite por joguinho
O currículo dos fundadores não apontava para games. Os dois são engenheiros formados pela USP: Arthur passou por escolas de elite na França, foi pesquisador no Canadá e consultor de negócios, enquanto Victor estudou engenharia na França e trabalhou como operador de crédito num grande banco em Londres antes de voltar ao Brasil, segundo o 360 News. Em 2011, os irmãos Lazarte largaram essa trilha segura para fundar em São Paulo um estúdio de jogos de celular.
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A escolha parecia ingênua na época: o Brasil não tinha tradição em desenvolvimento de games, e o smartphone ainda engatinhava como plataforma. Os irmãos enxergaram exatamente o contrário: o celular seria o maior videogame do mundo, com bilhões de aparelhos no bolso das pessoas, e quem aprendesse a fazer jogos gratuitos e viciantes para essa plataforma teria o maior mercado da história do entretenimento.
A fábrica de jogos que 1 bilhão de pessoas conhecem

O acerto virou estatística difícil de acreditar. Títulos como Sniper 3D e Tennis Clash colocaram a Wildlife na rotina de mais de 1 bilhão de jogadores no planeta, com bilhões de downloads acumulados, números de gigante global saindo de um estúdio paulistano, segundo o 360 News. É provável que o vizinho jogando no ônibus esteja num jogo brasileiro sem saber.
O modelo de negócio é o free-to-play: o jogo é gratuito, e a receita vem de anúncios e compras dentro do aplicativo. Nesse formato, o lucro está na engenharia invisível, no equilíbrio fino entre diversão e monetização, ajustado com dados de milhões de partidas diárias. É mais matemática que arte, e foi aí que a dupla de engenheiros fez a diferença.
O cheque do fundo que apostou nas maiores do Vale do Silício
A consagração veio com o passaporte mais respeitado do capital de risco. O aporte que tornou a Wildlife unicórnio, avaliada em US$ 1,3 bilhão, foi liderado pela Benchmark Capital, fundo americano conhecido por cheques históricos em gigantes da tecnologia, segundo o Brazil Journal. Para um estúdio brasileiro de games, atrair esse investidor foi o equivalente a uma seleção ser convocada para a final da Copa.
E o jogo só acelerou: nove meses depois, a empresa captou mais US$ 120 milhões numa rodada que avaliou o negócio em US$ 3 bilhões, consolidando o posto de estúdio de games mais valioso da América Latina, segundo o 360 News. A empresa que começou com US$ 100 passou a valer 30 milhões de vezes o investimento inicial.
O videogame que já estava no bolso de todo mundo
Para entender a aposta dos irmãos Lazarte, vale olhar o tabuleiro de 2011. Naquele ano, o console dominava a conversa sobre games, o PC dominava a receita, e o celular era tratado pela indústria como plataforma menor, de passatempo de fila de banco, exatamente o tipo de subestimação que abre espaço para quem chega cedo. Enquanto os grandes estúdios disputavam o jogador dedicado, o smartphone alcançava um público que nunca tinha se considerado jogador.
Os jogos de celular tinham ainda uma vantagem estrutural: distribuição instantânea e global pelas lojas de aplicativo, sem fábrica, sem mídia física, sem varejo. Um estúdio de São Paulo publicava um título e, no mesmo dia, ele estava disponível para o planeta inteiro, no mesmo palco das gigantes. Era a primeira vez na história do entretenimento que o tamanho da empresa não limitava o alcance do produto.
A rotina de testar, medir e escalar
O método da casa sempre foi mais laboratório que estúdio de arte. No free-to-play, cada detalhe do jogo é uma hipótese testada com dados: a dificuldade da fase, o momento do anúncio, o preço do pacote de moedas, tudo é medido em milhões de sessões diárias e ajustado semana a semana, e é essa disciplina de engenharia que separa os jogos de celular que morrem em três meses dos que faturam por dez anos. Sniper 3D, o carro-chefe, segue relevante anos depois do lançamento justamente por essa manutenção contínua.
Esse jeito de operar explica por que dois engenheiros venceram num mercado supostamente criativo: a criatividade abre a porta, mas é a otimização que constrói o império. Cada jogo da casa vira uma plataforma viva, atualizada como um produto de software, não lançada e esquecida como um filme.
Por que o Brasil produzir games é mais raro do que parece

O feito ganha contorno quando se olha o mapa da indústria. O mercado global de games movimenta mais dinheiro que cinema e música somados, mas a produção sempre se concentrou em Estados Unidos, Japão, China e Europa, com a América Latina historicamente relegada ao papel de consumidora, e é essa lógica que a Wildlife quebrou ao competir de igual para igual na plataforma mais popular do mundo. O talento brasileiro sempre existiu; faltava um caso de sucesso desse tamanho para provar o caminho.
O efeito ecossistema já aparece: o sucesso do estúdio inspirou uma geração de desenvolvedores brasileiros, atraiu olhares de fundos internacionais para o setor no país e mostrou às universidades que formar engenheiro para a indústria de jogos é formar para um mercado bilionário, não para um hobby.
A lição dos US$ 100 que viraram US$ 3 bilhões
A história dos Lazarte desmonta duas desculpas de uma vez. A primeira é a do capital: o começo da operação, segundo o 360 News, custou US$ 100, porque no software o investimento pesado é tempo e talento, não máquina; a segunda é a da geografia: os irmãos provaram que dá para construir uma gigante global de tecnologia morando em São Paulo, sem mudar para o Vale do Silício. O produto digital viaja pelo aplicativo, não pelo passaporte.
Para o jovem que estuda engenharia ou programação no Brasil, o recado é direto: o mercado de trabalho dos games não está em outro país, está no bolso de bilhões de pessoas.
Conta pra gente nos comentários: você já jogou Sniper 3D ou Tennis Clash, e sabia que esses jogos que rodam o mundo são brasileiros?
